Domingo, 18 de Noviembre de 2018

A tensa relação do presidente com seu ministro da fazenda

BrasilO Globo, Brasil 18 de noviembre de 2018

Numa viagem ao Estados Unidos para negociar o pagamento da dívida externa brasileira, em 1987, ...

Numa viagem ao Estados Unidos para negociar o pagamento da dívida externa brasileira, em 1987, Luiz Carlos Bresser Pereira, ministro da Fazenda do governo José Sarney, ouviu do secretário do Tesouro, James Baker III, que não adiantava chorar no Congresso americano: "Lembre-se, o poder fica aqui". Em Brasília, Sarney também lembrava a seus ministros econômicos onde ficava o poder. Foi ele quem tomou a decisão final de incluir um congelamento de preços no Plano Cruzado. Antes de fracassar, o Plano Cruzado II ajudou o PMDB de Sarney a eleger os governadores de 22 dos 23 Estados em 1986.
Os dois causos são lembrados pelo jornalista Thomas Traumann no livro "O pior emprego do mundo" (Planeta, 344 páginas, R$ 59,90). Ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social de Dilma Rousseff e ex-assessor de Antonio Palocci e Henrique Meirelles, Traumann conta como os últimos 14 ministros da Fazenda " de Delfim Netto a Henrique Meirelles, do "milagre econômico" do início da década de 1970 à ruína dos anos Dilma/Temer " tomaram as decisões que mudaram o Brasil e mexeram no bolso dos brasileiros.
"O pior emprego do mundo" reconstitui os bastidores da formulação de planos que, na tentativa de organizar a economia brasileira, congelaram preços, bloquearam saldos em contas bancárias e fixaram o câmbio, entre outras medidas que podem soar estranhas para quem não viveu os tempos da hiperinflação.
Trata-se de um livro sobre poder, focado na área econômica. A todo momento, Traumann discute a tensão entre economia e política, entre presidentes dependentes do voto e ministros técnicos. Mostra como a disputa (política) se dá no dia a dia do Palácio do Planalto. Num país em que as crises econômicas se sucedem há 50 anos, o ministro da Fazenda exerce liderança quase equivalente à de um primeiro-ministro no regime parlamentarista. Às vezes, disputa espaço com o presidente, a quem empresta credibilidade, mas de quem depende; às vezes, tira sua popularidade e causa desconforto com medidas difíceis.
Para lembrar quem manda, os presidentes costumam apostar na política do "dividir para conquistar": investem nas divergências entre a equipe econômica e assumem o papel do mediador de conflitos que eles próprios patrocinaram. FHC opunha Pedro Malan (Fazenda) a José Serra (Planejamento). Lula explorava as divergências entre José Dirceu (Casa Civil), próximo das bases petistas, e Antonio Palocci (Fazenda), mais afeito ao mercado.
Traumann mostra como essas contendas políticas influenciaram planos técnicos elaborados para corrigir as distorções sérias da economia brasileira. Cada capítulo conta como os governos enfrentaram os principais problemas econômicos do país: a crise da dívida externa, a inflação, a busca por credibilidade, a vulnerabilidade do país às crises internacionais e a recessão. A divisão dos capítulos ajuda o leitor a entender a gravidade dos problemas e como a política (no melhor e no pior sentido) influenciou a condução econômica.
A descrição da relação entre ministros econômicos e políticos profissionais é eficiente. Pode ser ilustrada em uma anedota contada por Luiz Paulo Rosenberg, ex-assessor no governo Sarney: um político chama dez economistas. Nove dizem que as coisas vão mal e pedem medidas duras; são os urubus. O político diz: "São nove urubus". Um diz que dá para seguir sem as medidas; é o canário. "Este último, que disse o que o político queria ouvir, é canarinho. O político adora o canarinho".