Martes, 18 de Diciembre de 2018

Brinquedoteca colorida para aliviar a dor dos pequenos

BrasilO Globo, Brasil 18 de diciembre de 2018

Agência O Globo -
RIO - Em um hospital que só recebe crianças com doenças graves, uma porta será aberta para um mundo sem tanta dor

Agência O Globo -
RIO - Em um hospital que só recebe crianças com doenças graves, uma porta será aberta para um mundo sem tanta dor. No próximo dia 23, a advogada Carla Grootenboer de Queiroz inaugura a nova brinquedoteca do Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira, na Ilha do Fundão. A unidade infantil da UFRJ será a primeira da cidade a receber o projeto BQ do Bem, que leva as iniciais de Bruno Queiroz, filho mais velho de Carla, que morreu no ano passado de forma trágica, atingido por um ônibus no trote da faculdade. Após o luto, cuidar do outro virou o objetivo da vida da advogada, que convocou família e amigos para juntar livros e brinquedos novos para o lugar.
Uma amiga de Carla, designer de interiores, fez o projeto da brinquedoteca, reformada com recursos da advogada, que, no seu aniversário de 47 anos,em setembro, reforçou a corrente de solidariedade, pedindo que, em vez de presentes, fossem feitas doações de itens novos para o projeto. O instituto tem entre 60 e 80 crianças internadas e atende, mensalmente, por volta de 500 meninos e meninas entre 0 e 12 anos. A brinquedoteca antiga, com brinquedos velhos e nada planejada para receber os pequenos, ganhará móveis pensados para a criançada, muitas cores e livros.
No dia 23, quando as portas serão abertas, Bruno completaria 20 anos. A data será de festa no hospital, com palhaços, contadores de história, desenho e música. A placa da brinquedoteca foi desenhada pelo cartunista Ique e homenageia as crianças da unidade. Nela, Bruno aparece como o Pequeno Príncipe, regando uma flor.
— Visitando hospitais e abrigos, vi que não havia praticamente nada de leitura disponível. Queria associar o brinquedo à leitura — conta Carla, que conseguiu 1.500 livros para o lugar e tem uma meta fixa na cabeça: pretende abrir uma brinquedoteca do tipo por ano. — Várias mães que perdem os seus filhos criam projetos como estratégia de sobrevivência. Passam a cuidar da dor do outro. A sua dor está ali, mas está mais aplacada. Quando passo por esses corredores (do hospital), vejo as mães ao lados dos seus filhos e todo o sofrimento delas.
Bruno morreu no dia 24 de março do ano passado. Havia acabado de passar para o curso de Direito da PUC. Participava de uma confraternização com veteranos e calouros em um bar da Rua Marquês de São Vicente quando se desequilibrou e foi atropelado. Na missa de sétimo dia do jovem, numa igreja da PUC lotada, o padre Alexandre Paciolli plantou a semente do BQ do Bem ao propor uma campanha de doações de brinquedos com o nome. do jovem. Naquele momento, Carla, mãe também de Rafael, de 17 anos, não tinha condições físicas e emocionais para liderar a iniciativa.
Mas, perto do aniversário do filho, mesmo em profunda depressão,conseguiu reunir forças e foi a campo: arrecadou dois mil brinquedos. Conheceu hospitais e orfanatos e transformou o BQ do Bem em seu projeto de vida. No instituto, encontrou apoio do diretor, Bruno Leite. Também contou com a ajuda de alunos e professores do Colégio Cruzeiro, onde Bruno estudou. O grupo ajudou a catalogar os mais de mil livros de acordo com a faixa etária. Os brinquedos, cerca de 150, também foram adquiridos e separados respeitando as idades das crianças. Até os bebês terão diversão.
— A criança quando fica aqui no hospital tem uma rotina medicamentosa que causa muita dor. O próprio ambiente hospitalar é inóspito. Com humanização, a gente tenta tornar o dia a dia dela menos doloroso, e a brinquedoteca é um dos caminhos mais importantes para isso — diz Alexandre Villarinho, coordenador do núcleo de humanização do hospital.