Domingo, 17 de Febrero de 2019

Bombeiros nunca vistoriaram contêiner

BrasilO Globo, Brasil 16 de febrero de 2019

Onde há fumaça

Onde há fumaça
A vistoria feita pelo Corpo de Bombeiros do CT do Flamengo em novembro, não passou pelo contêiner que pegou fogo na manhã da última sexta, matando dez meninos na base do Flamengo e ferindo outros três.
A terceira vistoria feita no ano passado visava a inspecionar o novo módulo profissional, que custou R$ 38 milhões ao clube e ficava a dez metros dos contêineres dos meninos da base. O órgão explica que, nos processos de regularização, as fiscalizações são realizadas sob demanda nas áreas solicitadas. "A estrutura provisória não constava no projeto e não foi identificada nas áreas vistoriadas", disse a nota do Corpo de Bombeiros. Logo, o contêiner nunca foi vistoriado
Foi mais momento em que uma fiscalização do poder público passou batida por alguns dos riscos que poderiam ser prevenidos.
A perícia preliminar da Polícia Civil confirma que a causa da tragédia foi um curto-circuito no ar-condicionado do quarto 6. O que ainda precisa ser esclarecido é se havia medidas preventivas contra esse risco, como disjuntores dedicados a cada um dos seis aparelhos de refrigeração, conformem explicam especialistas ouvidos pelo GLOBO.
" Sempre que ocorre uma sobrecarga, algo que acontece sempre após uma interrupção e volta no fornecimento de energia, é preciso ter elementos de segurança para evitar este choque no reinício. Seria preciso haver um aterramento bem feito e disjuntores, que desarmariam o circuito imediatamente. Talvez seja uma instalação improvisada na parte elétrica " diz Telmo Brentano, especialista em engenharia de incêndio e autor de dois livros sobre prevenção. Segundo ele, seis disjuntores custariam, no máximo, R$ 400.
Diretor do Departamento de Incêndio da Sociedade Brasileira de Engenharia de Segurança, Wesley Pinheiro é mais incisivo: não acredita que houvesse disjuntores para cada ar-condicionado.
"A gente sempre protege o equipamento para não alastrar. Se tivesse um disjuntor do lado do ar condicionado, ia desarmar.
Pela imagens das chamas, Pinheiro também duvida que o poliuretano usado nas chapas de aço que compunham as paredes do contêiner tivessem tratamento anti-incêndio. As notas oficiais emitidas pelo Flamengo e pela NHJ, empresa que produz os contêineres habitáveis, afirmam que o material era, sim, produzido para resistir às chamas.
Gambiarra
E há suspeita de improvisos. O "Fantástico", da TV Globo, obteve acesso ao depoimento de um dos meninos a respeito das condições gerais do contêiner. Nele, o rapaz conta que, como um dos aparelhos de ar condicionado era menor que oespaço aberto no contêiner, o vão foi preenchido com madeira, plástico-bolha e espuma.
"Após a execução de um projeto, o problema é a continuidade, porque a partir daí se faz adaptações, modifica-se o projeto original, muitas vezes sem aval "afirma Brentano "Neste caso, nem um projeto aprovado havia. A burocracia também exige longo tempo para aprovações, e termina-se por fazer as coisas assim mesmo.
Para Moacyr Duarte, especialista em incêndios ouvido pelo "Fantástico", o tipo de ar condicionado que tem o condensador do lado externo do ambiente refrigerado acaba passando pelo sanduíche das chapas e gera algumas peculiaridades na queima, que ocorre com muito pouco ar quando em contato com o poliuretano.
" À medida que você vai tendo uma evolução para cima da linha de queima, você vai puxando o ar pelas frestas. Isso vai alimentando uma combustão lenta até que, quando chega no topo, o calor dilata a junção das chapas e o ar entra " diz Duarte, explicando por que os meninos demoraram a se dar conta do incêndio.
Engenheiro civil e ex-conselheiro do Conselho Regional de Engenharia do Rio (Crea-RJ), Antonio Eulalio Pedrosa Araujo também chama atenção para a falta de saídas alternativas.
" Deveria existir uma saída nos fundos. Além disso, janelas com grades, ausência de uma brigada de incêndio. São muitos erros num local só.