Miércoles, 21 de Abril de 2021

Crise política joga haiti em espiral de violência

BrasilO Globo, Brasil 8 de abril de 2021

O vazio político que tomou conta do Haiti há dois meses, desde que o presidente Jovenel Moïse ...

O vazio político que tomou conta do Haiti há dois meses, desde que o presidente Jovenel Moïse decidiu se manter no poder alegando que o seu mandato de cinco anos acaba apenas em 2022, não dá sinais de arrefecimento. Pelo contrário. Após um aumento sem precedentes de insegurança nas ruas, Moïse declarou estado de emergência parcial em alguns bairros controlados por gangues, e os sequestros na capital, Porto Príncipe, tornaram-se cada vez mais corriqueiros. Para analistas ouvidos pelo GLOBO, há muitos sinais que indicam que a insegurança nas ruas deve persistir enquanto a crise política continuar. Segundo eles, a comunidade internacional, com papel crucial para a resolução da crise, vem falhando em tentar conter os excessos de Moïse.
‘alto grau de descontrole’
No fim de fevereiro, 400 prisioneiros fugiram de uma prisão em Croix des Bouquets, perto de Porto Príncipe, deixando 25 mortos, incluindo o chefe da prisão. Um dos presos era Arnel Joseph, poderoso líder de gangue relacionado a pessoas próximas ao governo. Ele foi morto no dia seguinte. Em Village de Dieu, favela ao sul da capital, cinco policiais foram mortos em uma operação antigangue em março.
O governo, por sua vez, não dá detalhes da investigação sobre os casos, "se é que os investiga", comentou uma diplomata haitiana, que teme ser identificada. Um mês após a fuga dos prisioneiros a polícia não emitiu mandado de busca contra os fugitivos. Em vez disso, procura oito policiais e ex-policiais, dirigentes do sindicato, que exigem a libertação dos colegas presos ilegalmente, os restos mortais dos agentes mortos na operação em Village de Dieu, além de melhores condições de trabalho.
Em suma, resume a diplomata, "enquanto a população vive um inferno de insegurança, as autoridades continuam suas ações antidemocráticas".
Para o chileno Juan Gabriel Valdés, ex-representante da Missão da ONU para a estabilização no Haiti (Minustah), a situação atual se assemelha a uma ditadura.
" As disputas entre a Polícia Nacional e o Exército mostram um país onde há um alto grau de descontrole " afirma ao GLOBO, lembrando que havia uma expectativa de que o governo do americano Joe Biden ajudasse a resolver o impasse político. " Biden foi bastante passivo, e essa passividade não ajuda. Além disso, há um desprestígio de alguns dos setores que ajudaram, em outros momentos, como organismos internacionais.
Um ex-chanceler do país caribenho, que também teme represálias e falou sob anonimato, disse que "a impressão no Haiti hoje é que a comunidade internacional é um obstáculo para a mudança".
referendo polêmico
Moïse aprovou dezenas de decretos controversos, como o que classifica certos tipos de protestos de rua como terrorismo, e criou uma agência de inteligência que se reporta só a ele. Como resposta, milhares de haitianos voltaram às ruas pedindo sua renúncia e um governo de transição. Os protestos fecharam escolas e empresas e preocupam a vizinha República Dominicana, que fala em construir um muro para barrar a imigração.
A próxima cartada do presidente é promover um polêmico referendo, em junho, para aprovar a elaboração de uma nova Constituição. No Twitter, Moïse disse que a Carta de 1987 "consagrou muitas conquistas, mas já teve seu dia". "Devemos ter a coragem de adotar outra que, através de arranjos futuristas, levará o Haiti a um regime político mais equilibrado e menos suscetível de causar instabilidade", completou.
Moïse promete não se beneficiar de uma nova Carta, caso o referendo aprove a mudança, e diz que não se candidatará a um segundo mandato no pleito presidencial marcado para setembro. Mas a oposição, especialistas em direitos humanos e muitos haitianos temem que ele esteja abrindo caminho para seu partido ficar no poder indefinidamente.
" O primeiro passo para reconstruir o tecido político seria chegar a um governo que tenha alguma legitimidade " defende Valdés. " Convocar um plebiscito sem que haja um direito legal na Constituição para isso é controverso.
gangues no legislativo
O ex-chanceler crê que o atual governo não tem condições de organizar quaisquer eleições. Para ele, a comunidade internacional que apoia Moïse "está ganhando tempo ao fazer declarações inoportunas sobre a viabilidade de eleições".
"Com as gangues tomando conta do país, nenhum candidato que não seja apoiado por elas poderá fazer campanha", afirma ele. Além disso, lembra que eleitores não terão acesso aos locais de contagem dos votos, cujo resultado será controlado pelas quadrilhas. "Nessas condições", alerta, "é de se esperar que a grande maioria dos futuros deputados sejam membros ou líderes de gangues. Caminhamos para uma catástrofe e uma repetição do que o país viveu nos últimos cinco anos."