Viernes, 03 de Febrero de 2023

Economistas criticam volta do bndes a financiamento no exterior

BrasilO Globo, Brasil 25 de enero de 2023

A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de voltar a financiar serviços de ...

A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de voltar a financiar serviços de engenharia no exterior por meio do BNDES foi alvo de críticas de economistas e de opositores no Congresso. Do ponto de vista econômico, especialistas afirmam que não é necessária a atuação de um banco de fomento e que há risco de benefício a um pequeno grupo de empresas. Além do aspecto financeiro, avaliam que se trata de uma decisão com viés político, que agrada à base petista, mas que tem potencial de provocar críticas acaloradas de opositores.
Algumas das empresas financiadas em outros governos petistas foram envolvidas e condenadas por corrupção no âmbito da Operação Lava-Jato. O caso mais emblemático foi o da Odebrecht, no qual as investigações mostraram um esquema de pagamento de propina em diversos países onde a companhia atuou.
Apesar das irregularidades envolvendo as companhias, a análise dos contratos de empréstimos fechados pelo banco de fomento não encontrou provas de ilícito envolvendo esses financiamentos. No momento da contratação dos empréstimos, as empresas estavam em situação regular perante a Justiça e aptas a tomar crédito.
Entre os defensores da retomada desse tipo de financiamento, o argumento é que ela pode fomentar empregos no Brasil. Mas o anúncio do presidente levou integrantes do governo a recorrerem às redes sociais para defender a iniciativa diante de seu custo político.
Lula afirmou, em sua primeira visita ao exterior, que o BNDES vai ajudar os países vizinhos a crescer e citou um gasoduto ligando os campos de óleo e gás da região de Vaca Muerta até San Jerónimo, na província de Santa Fé, o que possibilitaria a exportação para o Brasil. A primeira etapa já foi concluída, mas o governo argentino busca recursos para continuar a obra.
pressão política e social
Para Marcos Mendes, pesquisador do Insper, empresas interessadas em empreendimentos de infraestrutura podem recorrer a financiamentos com bancos privados ou no mercado de capitais. Ele ressalta que a participação dos governos em obras no exterior só se justifica quando o projeto não é economicamente sustentável, mas traz ganhos permanentes para a sociedade:
" Pode ser um ganho ambiental ou estímulo a novos setores econômicos. E os ganhos têm que ser permanentes para a sociedade. Não vejo isso no anúncio feito pelo presidente Lula na Argentina, um país que está em default, com a pior nota de crédito do mundo. O risco é grande.
Reginaldo Nogueira, economista e diretor-geral do Ibmec-SP, também enfatiza que projetos com viabilidade econômica encontram financiamento no setor privado e ressalta que o quadro fiscal hoje é mais complexo do que no passado, quando o BNDES financiava esse tipo de operação.
" Com a situação fiscal que temos hoje haverá muito mais pressão política, da sociedade e dos órgãos de controle. Não há ganho econômico, apenas político, e direcionado à base do presidente " afirmou. " As empresas que tiveram acesso aos financiamentos no passado não precisavam de subsídios. Na prática, durante décadas, houve uma transferência de renda da população brasileira para grandes grupos.
No Congresso, o ex-juiz da Lava-Jato e senador eleito Sergio Moro disse que não é aceitável que o banco "volte a financiar ditaduras estrangeiras inadimplentes":
" Vamos nos insurgir contra isso no Congresso no momento oportuno. Mas é necessário esperar ações concretas do novo governo.
criação de emprego
O senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e líder do PL, disse que a iniciativa é fazer "caridade com o chapéu alheio". "Empréstimo por amizade é doação e é também irresponsabilidade. Os nossos cofres públicos têm prioridades mais urgentes do que agradar amigos e parceiros ideológicos", afirmou, em nota.
Em uma rede social, a presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), afirmou que o dinheiro aplicado no financiamento a serviços de engenharia também será revertido em empregos para o país. "O Brasil vai financiar empresas brasileiras para elas voltarem a exportar bens e serviços de engenharia, gerando empregos qualificados no Brasil", escreveu.
O ministro da Secretaria de Comunicação (Secom), Paulo Pimenta, afirmou que o BNDES vai financiar mão de obra brasileira para trabalhar no exterior:
" O que é feito pelo BNDES é o financiamento para exportação de serviços de empresas brasileiras, com agregação de valor e geração de empregos qualificados no Brasil.
O financiamento a serviços de engenharia é um tema recorrente na campanha eleitoral. No ano passado, o ex-presidente Jair Bolsonaro perguntou em debate o motivo de Belo Horizonte não ter metrô enquanto o país financiava serviços de engenharia para a construção do metrô de Caracas.