Jueves, 30 de Marzo de 2023

‘Nunca é algo de um dia ou dois. são crimes premeditados’

BrasilO Globo, Brasil 19 de marzo de 2023

Entrevista

Entrevista
Em meio à investigação do sequestro da menina de 12 anos que foi levada para o Maranhão por um homem que ela havia conhecido na internet, a delegada Elen Souto, titular da Delegacia de Descoberta de Paradeiros desde de 2014, faz um alerta: pais devem monitorar o que filhos menores fazem nas redes sociais. Ela teve encontros semana passada com representantes do TikTok e do Instagram, para saber o que pode ser feito para proteger crianças de "predadores" que atuam na internet.
Com foi a investigação desse caso da menina?
É a primeira vez em todos esses anos que eu me deparei com um caso como este, em que a vítima foi encontrada com vida num tempo hábil graças ao trabalho da inteligência e que não foi abusada sexualmente. Na maioria dos casos que investigo, as vítimas são violentadas ou, quando as encontramos, já estão mortas. Por isso, fico muito emocionada por ter resgatado a menina com vida e trazê-la de volta para os pais.
Como proteger as crianças que estão tão conectadas?
Os pais precisam ter controle sobre as redes sociais de seus filhos e verificar o que eles estão fazendo e com quem estão conversando. Ficar conectado o tempo todo é o perfil dessa geração. É uma nova forma de educar. Eu sei que é difícil, mas os pais precisam monitorar. Todas as plataformas têm um mecanismo de controle parental, ou seja, uma ferramenta em que os pais podem ter conhecimento do que os filhos estão fazendo. Educar hoje em dia não é só cuidar. Também envolve vigiar a vida virtual do filho. As abordagens (de bandidos) não mais são físicas, oferecendo balinha, são em ambiente virtual.
Além dos pais, a polícia pode ajudar?
A partir dessa investigação da menina, conversei com alguns representantes dessas plataformas, como TikTok e Instagram. Eles nos passaram que os pais precisam saber quais redes sociais os filhos estão usando. Inclusive, há outras redes sem ser as tradicionais em que os adolescentes estão, e os pais precisam saber. Para ter conta no TikTok, por exemplo, um adolescente tem que ter no mínimo 13 anos. Eu já vi meninas de 8 anos usando a rede social. Os pais precisam saber que é preciso ter uma idade mínima para estar na rede. As pessoas podem até denunciar perfis de crianças. Basta ir no próprio vídeo postado e clicar na aba de denúncia. Ali, se pode descrever por que está denunciando. A conta da menina de 12 anos (em que ela conversava com o homem de 25 anos que a levou para o Maranhão) já foi excluída do TikTok. Ela não poderia ter essa conta.
No caso da menina,
o que mais facilitou a
ação do sequestrador?
A menina não tinha identidade. A polícia precisou tirar o documento lá no Maranhão para ela poder viajar. A polícia pagou a viagem de volta também. Uma criança sem identidade pode se tornar alvo fácil na mão de um "predador". É importante que os pais tenham isso em mente. As crianças e os adolescentes precisam ter documento. Criança sem documento é um passo para o tráfico de pessoas. Esse é o perigo.
Qual é o perfil desses "predadores" que agem na internet?
Eles se moldam para ganhar a confiança da vítima. Nunca é algo de um dia ou dois. É uma relação construída, muita vezes, em anos. São crimes premeditados. Eles oferecem um ombro amigo e tentam encontrar na vítima, e na maioria dos casos são adolescentes, alguma vulnerabilidade para se aproximar delas. A intenção é ganhar a confiança e quase sempre para ter relações sexuais. É muito comum as vítimas fugirem com esse homens e serem estupradas por eles. Quando fazemos um resgate e perguntamos o que aconteceu, quase sempre elas só sabem o nome da rede social e mais nada. Elas se encontram com pessoas que conheceram na internet, são abusadas sexualmente, ficam desaparecidas e depois são encontradas porque os pais as procuram. Às vezes, nem elas mesmo sabem informar onde estavam. Um descontrole completo.
O açougueiro Eduardo da Silva Noronha, que levou a menina para o Maranhão, se encaixa nesse padrão?
Conversamos com familiares do suspeito. Pelo que apuramos, ele não tem uma boa relação com a família. Ele não tem qualquer vínculo com eles, é um lobo solitário. Vamos ouvir os parentes para tentar identificar detalhes que possam ajudar na investigação. O que alguns familiares já disseram é que ele era um rapaz muito brigão e de poucos amigos.
E como está a menina?
Ficou claro para mim que ela se apegou emocionalmente ao homem. A menina não tem ideia da gravidade do que aconteceu. Afinal, os dois conversavam há dois anos pela rede social. É muito tempo. Na mente dela, eles tinham uma relação. Ela entrou no carro com ele porque achava que o conhecia. O encantamento dela por ele termina quando eles trocam de celular e ela vê várias fotos de outras mulheres no aparelho.
Como foi o reencontro dela com a família?
Foi muito emocionante. Ela é o xodó da família. É a caçula de cinco irmãs que já são adultas. A mãe estava sofrendo muito. Todo encontro de desaparecido é sempre emocionante. Eu até fiz um alerta à mãe dela para agradecer a Deus porque a filha dela renasceu. A gente não sabia como seria o desdobramento da história. Poderia ter dado tudo errado. A gente trabalha muito cirurgicamente. Meu medo a todo instante era que ele desconfiasse que a polícia estava investigando e fizesse algo com a menina, que ela perdesse a vida.
Elen Souto / delegada