Pedido de recuperação extrajudicial da raízen é o maior já registrado
A Raízen, maior empresa de biocombustíveis do país, protocolou pedido de recuperação ...
A Raízen, maior empresa de biocombustíveis do país, protocolou pedido de recuperação extrajudicial na noite de terça-feira. De acordo com comunicado da empresa, controlada por Cosan e Shell, a recuperação extrajudicial foi estruturada em consenso entre seus credores, como antecipado pelo colunista do GLOBO Lauro Jardim, para renegociação de dívidas de aproximadamente R$ 65,1 bilhões. O pedido foi protocolado no Tribunal de Justiça de São Paulo.
Trata-se do maior caso de recuperação extrajudicial já registrado no país, segundo o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial. Antes da Raízen, o maior caso brasileiro era o do Grupo InterCement, que entrou com pedido para renegociar dívida de R$ 21,9 bilhões em setembro de 2024. Mas a empresa entrou em recuperação judicial três meses depois. Em seguida, aparece o pedido do Grupo Ocyan (ex-Odebrecht Óleo e Gás), que tentou renegociar dívida de R$ 14,6 bilhões com os credores, em 2023, mas no ano seguinte também entrou em recuperação judicial.
No comunicado, a Raízen informou que os principais credores já aderiram ao pedido. "A recuperação extrajudicial foi consensualmente estruturada entre o Grupo Raízen e seus principais credores financeiros quirografários (sem garantias), signatários do plano com o objetivo de assegurar um ambiente jurídico estável, protegido e adequado para a negociação e implementação da reestruturação das dívidas financeiras."
A medida fez com que os papéis da Raízen sofressem forte instabilidade ontem, chegando a entrar em leilão. As ações encerraram em queda de 5,77%, a R$ 0,49. No ano, recuam 39,51%.
O pedido de recuperação extrajudicial da Raízen acontece logo após o Grupo Pão de Açúcar (GPA) fazer o mesmo, para renegociar dívidas de R$ 4,5 bilhões.
Diluição da fatia
A Raízen disse já ter a adesão de detentores de 47% das dívidas, percentual suficiente para o ajuizamento do acordo. A empresa terá 90 dias para obter a adesão dos demais credores, assegurando que 100% dos créditos sejam incluídos nos novos termos e condições de pagamento a serem definidos. A Raízen estima que, nos próximos 24 meses, terá de desembolsar R$ 13 bilhões para amortizar dívidas.
Já havia sido informado que haverá uma capitalização pelos acionistas. A Shell vai injetar R$ 3,5 bilhões, e a Aguassanta Investimentos, holding financeira do empresário Rubens Ometto, mais R$ 500 milhões. Ometto é o controlador da Cosan, mas esta já informou que não tem recursos para acompanhar a capitalização na mesma proporção que a Shell.
O plano de reestruturação, diz a Raízen, inclui ainda a conversão de parte das dívidas em participação acionária na companhia, em percentual a ser definido, a substituição de obrigações por novas dívidas e a reorganização societária. Também está prevista venda de ativos.
Com a conversão de dívida em ações, a fatia da Cosan na Raízen tende a ficar quase zerada, segundo fontes. Uma destas afirmou que, para a Cosan, o plano de capitalização "não era crível", por isso havia deixado a mesa de negociação. A proposta da empresa previa um aporte de R$ 8 bilhões no total, sendo R$ 1 bilhão direto dela. De acordo com a fonte, "a Cosan queria alocar e precisava de mais capital. Trouxe o BTG. Se a Cosan desiste de colocar dinheiro na Raízen, não tem como o BTG alocar sem a Cosan."
A recuperação extrajudicial, ressaltou a Raízen está limitada às dívidas financeiras com credores, não abrangendo as dívidas e obrigações com clientes, fornecedores, revendedores e outros parceiros de negócios. Assim, diz o comunicado, suas operações continuam normalmente.
Em nota, a Shell informou que, na condição de acionista, apoia a decisão da equipe de gestão da Raízen de pedir recuperação extrajudicial. E disse que "continuará trabalhando de forma próxima com a liderança da Raízen na busca por assegurar o futuro de longo prazo do negócio".
A Cosan confirmou o pedido de recuperação extrajudicial de sua controlada e informou que nada muda em sua operação.
Analistas consultados pelo GLOBO já previam que a renegociação das dívidas da Raízen seria feita em ambiente de recuperação extrajudicial, o que traz menos prejuízo aos credores. Na recuperação judicial, o desconto sobre as dívidas costuma ser maior e é imposto aos credores.
" O mecanismo menos agressivo aos credores é a recuperação extrajudicial " diz André Moraes, sócio do Moraes & Savaget Advogados, escritório especializado em empresas em situação de crise, para quem o aporte de R$ 4 bilhões feito pelos acionistas era apenas o primeiro passo da reestruturação financeira da empresa.
Negociação complicada
No ambiente da recuperação extrajudicial, acredita Moraes, os controladores devem fazer novos aportes, e os fundos do BTG Pactual, que já haviam deixado as negociações, podem retornar. O BTG é o maior acionista individual da Cosan, mas Ometto detém o controle por meio de um acordo de acionistas.
" Trata-se de um processo menos burocrático e custoso do que a recuperação judicial " diz Max Mustrangi, CEO da Excellance, empresa especializada em reestruturação estratégica, operacional e financeira de empresas em crise. " No processo extrajudicial, as discussões ficam entre a companhia e os credores. É um processo "entre nós", mais rápido, mais barato e com menos prejuízo aos credores.
Mustrangi observa, porém, que a negociação da Raízen com seus credores será mais complicada que a do GPA. Isso porque, enquanto o Pão de Açúcar tem 80% das dívidas nas mãos de bancos, no caso da Raízen esse percentual é de 50%. O restante está nas mãos de investidores institucionais e pessoas físicas, e parte destes "perdeu dinheiro com a companhia e não está nada feliz". Isso, diz, pode criar um ambiente hostil e dificultar o avanço da negociação.
Outro ponto sensível, observa o especialista, é a conversão de dívida em participação societária. Esse mecanismo pode não ser atrativo para parte dos credores, pois a Raízen tem apresentado contínuos resultados negativos.
Levantamento do analista Flavio Conde, da Levante Investimentos, estima que a empresa investiu R$ 46,8 bilhões desde a abertura de capital, em 2021. A maior parte dos recursos, R$ 36,8 bilhões, foi destinada à produção de etanol, açúcar e outros biocombustíveis.
" Esses investimentos foram financiados por dívidas com bancos locais e investidores internacionais, que acreditaram no aumento da receita com as usinas de etanol de segunda geração. Mas a receita caiu com quebras de safra. Lucros viraram prejuízos, e o endividamento cresceu " resume Conde.
Ele avalia que para reequilibrar a situação financeira da Raízen serão necessários R$ 30 bilhões. (Colaboraram Bruno Rosa e Roberto Malfacini Jr.)
5,77%
de queda nas ações da Raízen
O papel encerrou cotado
a R$ 0,49
R$ 13
bilhões em desembolsos em 24 meses
É quanto a empresa estima pagar para amortizar dívidas