Domingo, 24 de Mayo de 2026

‘Direito autoral não foi atualizado para a ia’

BrasilO Globo, Brasil 24 de mayo de 2026

Entrevista

Entrevista
Nick Thompson não perde o fôlego. Depois de passar por Wired e The New Yorker, ele assumiu em 2021 como CEO da revista The Atlantic, que tinha um rombo de US$ 20 milhões, e levou a publicação americana de 169 anos de volta aos lucros em apenas três. Ele concilia o cargo com a apresentação do podcast "The Most Interesting Thing in AI" ("A coisa mais interessante em IA", em tradução livre) e palestras pelo mundo sobre jornalismo, tecnologia e negócios. Em 10 de junho, fala no Web Summit Rio. Thompson ainda é ultramaratonista: detém o recorde americano dos 50 km para a faixa de 44 a 49 anos. No entanto, em conversa com O GLOBO, ele avalia que ser jornalista e executivo de mídia na era da IA é um desafio maior que qualquer prova.
É mais difícil correr uma ultramaratona ou fazer jornalismo na era da IA?
É muito mais difícil ser jornalista na era da IA. O equivalente aproximado seria se você estivesse correndo uma maratona e não soubesse ao certo se haveria uma subida de mil metros no km 38, se o percurso teria realmente 42km ou se estenderia para 85km ou fosse encurtado para 30km.
O que é mais interessante na IA para o jornalismo? E o pior?
São três coisas interessantes. A primeira é a maneira como criamos reportagens. A IA pode ser uma ferramenta incrível para descobrir novos fatos ou identificar novos lugares para buscar informações. Não estou falando de texto e edição, mas da parte de encontrar coisas. Depois, há a questão de como os leitores chegam até nós. À medida que a web muda, e o consumo de notícias muda, como as pessoas nos encontram? Por meio de agregadores, de agentes, de resumos? A IA ajuda a descobrir como levamos nossas informações às pessoas. E a terceira coisa é: à medida que a web passa de um ambiente dominado por humanos para um dominado por agentes, que tipo de modelo de negócios podemos criar para sobreviver e prosperar? Algumas coisas são realmente ruins. Uma é que a linha entre o real e o falso está cada vez mais tênue. E quando as pessoas não puderem confiar em nada na web, vai ser mais difícil ser jornalista. Vamos fazer o possível para validar a notícia, mas a internet vai ficar bem estranha. Você vai ouvir vozes, não vai saber se são humanas ou de IA. Vai ficar muito complicado. A segunda coisa ruim é que o modelo atual de negócios (de mídia) se baseia em links. Essa estrutura vai mudar. Algumas empresas vão prosperar, vão descobrir a nova estrutura e como ganhar dinheiro, e outras vão ficar em apuros.
Como a Atlantic ajuda a sua própria equipe nessa transição?
Meu palpite é que a IA cria muito mais empregos do que elimina e que a demanda mundial por informação de alta qualidade é quase infinita. A IA explodiu há três anos e nossa equipe se expandiu bastante. Temos mais redatores, mais engenheiros. Em certas funções, certas categorias e certas tarefas, a IA pode nos substituir. Mas, em geral, acho que isso criará oportunidades, inclusive para jornalistas, como startups. Quando os jovens me perguntam "devo entrar na mídia? É assustador", digo: "você deve entrar e descobrir algo que possa fazer que não poderia há cinco anos e usar essas ferramentas para construir algo criativo". Sou otimista no geral, mas acho que, para cada organização, haverá um período de mudança e de complexidade. Uma das coisas que a IA faz é permitir que todos tenham uma visão um pouco mais ampla do que fazem. Permite que os designers sejam um pouco engenheiros, e os engenheiros, um pouco designers. Não é específico da mídia, é do trabalho.
Como o jornalismo deve tratar direito autoral e propriedade intelectual na era da IA?
Há um problema enorme. As empresas de IA treinaram seus modelos com os nossos dados, que eram protegidos por direitos autorais. Elas violaram, muitas vezes desafiando abertamente nossas regras, e construíram enormes modelos de negócios que competem conosco. Há uma série de processos judiciais, e estamos envolvidos nisso. Precisamos analisar cuidadosamente o que a indústria de IA fez, o que prometeu fazer em troca e, então, definir uma estratégia, sejam parcerias, bloqueios ou processos. Toda empresa de mídia precisa ter essa estratégia. Também acho importante que os governos analisem isso. A lei de direitos autorais não está atualizada para a era da IA, levando em conta como funciona. E os consumidores precisam pensar com cuidado. Se eles se importam com a sobrevivência das artes criativas, da mídia e dos indivíduos (como músicos, poetas), deveriam usar modelos de IA que levem essas questões a sério. Há medidas que podem ser tomadas por sociedade, governo, mídia, empresas de IA e pessoas com senso ético para reverter essa infeliz sequência de eventos.
É difícil imaginar como diferentes países podem reagir quando as grandes empresas de tecnologia são aliadas do governo dos EUA.
Sim, é difícil. Mas eu diria que se o Brasil aprovasse uma lei, que determinasse, por exemplo, que todas as empresas de IA que operam no país têm que divulgar os dados com os quais treinam seus modelos, você divulgaria isso para o mundo. As empresas de IA não querem que as pessoas saibam o quanto elas roubaram. Então, algum governo precisa ter a coragem de tornar isso obrigatório. Uma das coisas sobre a regulamentação internacional é que não se trata apenas dos EUA ou da China. As maiores empresas estão nesses dois países, mas a regulamentação global pode realmente desempenhar um papel importante. E estamos começando a ver leis surgindo no Reino Unido, na Austrália. Não sei o suficiente sobre a política brasileira, mas o Brasil poderia fazer muito pelo mundo da IA. Acordos específicos (entre empresas de IA e de mídia) não são uma solução para todo o jornalismo. Espero que sejam o primeiro passo. A solução é um estágio final em que as grandes empresas de IA construam um modelo que proporcione uma troca justa com as empresas que lhes forneceram as informações.
Você estava na Wired durante a produção da clássica capa "The web is dead" ("A internet morreu"), em 2010. A IA é o golpe final na internet aberta?
Não. As formas de navegação vão mudar drasticamente, mas a web aberta ainda vai existir. O fato de ter os meus agentes em funcionamento me convenceu disso, porque a web precisará existir como fonte de informação para os agentes e para os humanos. Como serão os novos modelos de negócios e a nova navegação, não sei. Quando fizemos aquela matéria, todo mundo estava migrando para a economia baseada em aplicativos. A web mudou muito naquela época. Vai mudar muito agora, mas não acho que vai morrer.
Nick Thompson / CEO da revista the Atlantic
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