Domingo, 24 de Mayo de 2026

Crédito dá acesso a bens, mas ‘enrola’ orçamento na periferia

BrasilO Globo, Brasil 24 de mayo de 2026

‘Tudo nesta casa foi comprado parcelado." O geógrafo Kauê Lopes dos Santos cansou de ...

‘Tudo nesta casa foi comprado parcelado." O geógrafo Kauê Lopes dos Santos cansou de ouvir essa explicação durante suas pesquisas de campo na periferia de São Paulo, onde a precariedade do entorno (ruas esburacadas, às vezes com esgoto a céu aberto, em regiões pouco assistidas por serviços públicos) contrastava com os eletrodomésticos modernos " e caros " que ele encontrou nos lares. Entre 2009 e 2023, ele entrevistou 150 pessoas em bairros da periferia paulista como Jardim Helena, Jardim Ângela e Brasilândia, onde há maioria negra e forte presença de migrantes nordestinos e do Norte de Minas. Era uma investigação sobre o endividamento de classes populares, que resultou no livro "Parcelado: dinâmicas de consumo nas periferias", recém-lançado pela editora Fósforo.
O pesquisador e professor da Unicamp verificou que a expansão do crédito, a partir dos primeiros mandatos do presidente Lula (2003-2010), de fato permitiu que populações de baixa renda conquistassem o acesso a bens duráveis, como geladeiras, fogões, TVs, computadores e celulares. Os aparelhos melhoraram sua qualidade de vida e, em muitos casos, permitiram que essas pessoas tocassem pequenos negócios, como a venda de doces e salgados. Por outro lado, esse consumo também as condenou ao endividamento crônico. "Sei que as parcelas parecem boas na hora, mas depois viram um problema", admitiu um morador do Jardim Helena ouvido na pesquisa.
Reconfiguração da pobreza
No livro, Santos argumenta que os novos padrões de consumo resultantes da ampliação do crédito formal não representaram a superação, mas sim a reconfiguração da pobreza urbana. E conclui que a aquisição desses bens quase sempre por meio de parcelamentos revela uma economia doméstica organizada de acordo com "diferentes regimes cíclicos de endividamento".
" O crédito que viabiliza o consumo que efetivamente melhora a vida das pessoas é o mesmo que leva ao endividamento " diz Santos, em entrevista ao GLOBO. " Vivemos uma euforia do crédito nos anos 2000 e no começo dos 2010, quando se falava da classe C como a "nova classe média". O parcelamento se ampliou para todos os segmentos da vida, inclusive a compra de comida e vestuário, dado o grau de comprometimento do orçamento com o pagamento de boletos.
Para o geógrafo, a popularização do crédito é fruto do "pequeno milagre" da economia brasileira (a expressão é da economista Laura Carvalho) ocorrido nos anos 2010. No entanto, ele observa que a oferta de crédito se manteve alta mesmo durante a retração econômica que se seguiu. Segundo o pesquisador, a estratégia brasileira foi diferente (e menos bem-sucedida) que a adotada em nações asiáticas, como a Índia, onde se estabeleceram cooperativas de crédito para financiar pequenos empreendimentos com custo de capital mais baixo. Aqui, a expansão do crédito foi capitaneada pelo sistema financeiro tradicional em aliança com as varejistas " em um quadro de alta dos juros básicos da economia para combater a inflação " e a regulamentação do mercado foi insuficiente. Grandes redes comerciais passaram a investir em cartões de crédito próprios, os chamados private labels, que saltaram de 119 milhões em 2000 para 704 milhões em 2012, alta de 590% no período. Tudo isso em um quadro de alta dos juros básicos da economia para combater a inflação.
" O aumento do endividamento dos brasileiros não está descolado dos lucros recordes que os bancos tiveram nos últimos anos " diz o pesquisador.
Uma pesquisa do Datafolha publicada em abril apontou que 61% dos brasileiros têm dívidas, e 21% estão inadimplentes. Entre as dívidas em atraso, destacam-se cartões de crédito (29%), empréstimos bancários (26%) e carnês de lojas (25%). Com base em suas pesquisas, Santos afirma que o endividamento crônico se apoia num tripé formado por aumento do crédito, estratégias agressivas de publicidade das grandes varejistas (cujos vendedores insistem nas "suaves prestações") e obsolescência programada dos aparelhos, que precisam ser substituídos regularmente, forçando os consumidores a terminar um boleto e já começar outro.
Incapazes de esticar ainda mais o orçamento, os endividados buscam complementar renda com "bicos", como transporte por aplicativo. O trabalho deixa de representar uma chance de ascensão social e passa a se configurar como um "esforço extenuante de contenção da queda", observa.
Desenrola : alívio pontual
As pesquisas do geógrafo terminaram, antes da regulamentação das bets e por isso ele não mapeou o impacto das apostas on-line no endividamento das periferias, mas dois entrevistados com quem ele teve contato recente relataram casos de pessoas próximas que precisaram usar cheque especial e crédito consignado para pagar dívidas de jogos.
O endividamento das famílias tem sido apontado como uma das causas da dificuldade do presidente Lula de melhorar sua avaliação para conquistar a reeleição. Santos, no entanto, conta que suas entrevistas não mostraram uma correlação entre dívidas e insatisfação com o governo.
" Os entrevistados tendiam a responsabilizar primeiro bancos e lojas por juros altos e propagandas "malandras" " relata. " Os fatores que levam a periferia a uma visão melhor ou pior do governo são múltiplos, vão da qualidade do emprego e da renda a políticas públicas que garantam aos filhos acesso à universidade. Minha hipótese é que o descontentamento com o governo esteja ligado à perda da expectativa de mobilidade social.
Para Santos, o Novo Desenrola, programa de renegociação de dívidas, pode ter impacto eleitoral ao posicionar o governo "em favor da população" nessa dinâmica, mas é "pontual", e não resolve o problema.
" A solução passa por estratégias de valorização da renda e de redução dos juros " diz o pesquisador. " O Desenrola é uma iniciativa de curto prazo, uma solução conjuntural e não estrutural. O endividamento crônico é o efeito. Precisamos questionar as causas.
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