Miércoles, 12 de Agosto de 2020

‘Brasileirão em 9 de agosto é algo definido e determinado’

BrasilO Globo, Brasil 12 de agosto de 2020

Entrevista

Entrevista
Depois de quase seis meses, a Copa do Brasil retornará no dia 26 de agosto. As Séries B e C, começarão um dia antes da primeira divisão, no dia 8. Marcar datas no calendário é só um dos desafios da CBF em meio à pandemia. Em entrevista ao GLOBO, o presidente da entidade, Rogério Caboclo, crava o reinício do Brasileirão para o dia 9 de agosto, nem que as equipes tenham que jogar fora de suas praças se as cidades não estiverem em boas condições sanitárias.
A pressa, segundo o presidente, não tem a ver com a tentativa de terminar a temporada em dezembro: isso já não é possível. O objetivo é conseguir ajustar todo o calendário até 2022. Para isso, a CBF vai "reabrir hotéis, colocar aviões no céu e fazer o futebol voltar" e não há, no momento, plano B em caso de uma segunda onda da Covid-19.
Com a rescisão da Globo com o Carioca, como a CBF enxerga o futuro dos estaduais?
Sou entusiasta dos estaduais. São o cerne do futebol do Brasil. Promovem a disputa local, criam interesse do torcedor. Há um aspecto importante: a possibilidade de mais clubes de âmbito nacional terem a chance de títulos. Com isso, podem manter e aumentar a torcida, obter receitas. Existe outro ponto: o fomento do futebol na sua essência, forjar os nossos craques. Por isso a cadeia do futebol é tão rica. Quando a gente tirar a oportunidade de clubes da Série D de disputarem com grandes uma competição inteira, podemos ruir com um sistema altamente produtivo.
Mas a defesa dos estaduais está atrelada ao espaço exclusivo no começo do ano?
Entendo que o charme do estadual e o interesse do torcedor estão no período exclusivo dele.
Como conjugar os rumos dos estaduais com a meta de iniciar o Brasileiro em 9/8?
Não temos resposta em relação aos estaduais. Eles estão comportados pelos limites da fronteira do seu estado. Dependem das autoridades sanitárias, assim como as competições da CBF. Mas a diferença foi a aprovação na reunião da Comissão Nacional de Clubes (CNC) e a CBF. Propusemos aos 20 clubes da Série A que, para podermos lançar a data de 9 de agosto, haveria necessidade de uma aprovação de todas as autoridades sanitárias de nove estados e 11 cidades. E não temos isso hoje. Fiz a proposta no sentido de que admitissem uma reflexão sobre jogar fora do mando de campo para manter essa data íntegra, irretocável, caso todas as cidades não estejam liberadas. Houve votação de 19 a 1 a favor.
Mas dá para cravar que, de fato, vai ter jogo em 9 de agosto?
Posso afirmar, a partir da confirmação dos clubes, que sim. Se estão dispostos a jogar onde o futebol estiver autorizado, quero crer que nessa data teremos cidades suficientes para acomodar os jogos, considerando que não teremos torcida presente. Mas em momento algum foi cogitada concentração em uma cidade específica.
Mas como ficam as demais competições nacionais?
Na Série A, houve um voto dissidente sobre o mando, mas nenhuma dúvida se a competição vai começar ou não dia 9 de agosto. Brasileirão é algo definido e determinado. A Série B inicia no dia 8, na véspera. Definimos com a Série C que ela recomeçará na mesma data da B. A Copa do Brasil volta em 26 de agosto. A Série A1 do Feminino, também. O Brasileiro Sub-20, dia 23 de setembro.
O que fazer com a Série D e a Série A2 feminina?
Demandam um operacional um pouco mais complexo. As equipes precisam de maior reestruturação para voltar e também uma logística maior. A Série D tem 68 participantes do Brasil inteiro. São 61 cidades envolvidas. Esses clubes não têm a mesma flexibilidade para jogar em outras praças. A A2 feminina não é diferente. Mas são calendários mais curtos, o que permite planejar com mais tranquilidade. Há uma malha aérea diminuta, hotéis fechados. Mas a CBF assumiu a responsabilidade de reabrir hotéis, colocar aviões no céu e fazer o futebol voltar.
Como conjugar viagens com as questões sanitárias?
Pensamos na segurança absoluta dos que viajam. O que nos dá segurança é que um projeto robusto foi feito não só pela CBF, mas por clubes, especialistas que nos deram seus pareceres para que oferecêssemos à apreciação do Ministério da Saúde um protocolo de retorno nacional. Com esse amparo, a CBF fará investimento para cumprir. Falo em trabalhar em vários sentidos para mostrar o quanto o futebol pode favorecer a retomada dessas atividades.
Por que o Brasileirão precisa voltar em 9 de agosto e não mais adiante?
A gente trabalha não apenas com o calendário de 2020. O calendário de 2020 já está bem traçado para a CBF. Vai invadir janeiro, fevereiro, pode chegar a meados do mês. Mas temos algumas premissas que vão além. Muita gente não leva em consideração. Nosso horizonte é a Copa do Mundo de 2022, marcada para começar em novembro. Obriga o nosso calendário a terminar pelo menos um mês antes, em outubro de 2022. Temos que encerrar 2020 na segunda quinzena de fevereiro, iniciar os estaduais na última semana do mesmo mês, o Brasileiro no final de maio de 2021. Devemos terminar a temporada de 2021 como o usual, na primeira semana de dezembro, retomando o calendário tradicional, com férias, pré-temporada. Em 2022, a temporada terá conclusão precipitada. Vai ser um exercício bem difícil.
Com um planejamento tão apertado, e se vier uma segunda onda da pandemia? A CBF pensa em mudar o formato do Brasileirão?
O conceito da CBF e o meu é de cumprimento de contrato. Quem tem contrato passa mal, tem problema, mas tem que entregar. Não cogitamos mudança que não seja a que já relatei.
Outra discussão no momento envolve a MP 984. Como a entidade vê a forma com a qual ela surgiu e seu teor?
A CBF nunca participou de tratativa sobre esse tema, até que a MP fosse editada. A respeito do mérito, devo dizer que a CBF é favorável à negociação dos direitos pelo mandante da partida. É um conceito que nos parece o mais razoável, favorece os clubes no cenário brasileiro. É o critério que permite aos clubes maior possibilidade de negociação, sem que dependam da vontade de um terceiro para que uma partida seja transmitida. A essência do futebol é a transmissão, é elementar.
A CBF valoriza o equilíbrio da Série A. A negociação individual não atrapalharia?
A CBF, ao mesmo tempo que concorda com o conceito da MP, defende igualmente a negociação coletiva, como sempre defendeu. Nos contratos em que a CBF é signatária, a divisão é igualitária ou por degraus, criando paralelos claros. Na Série B, os 20 clubes recebem igual. Na Copa do Brasil, existe uma diferença pelo ranking da CBF. Mas não somos favoráveis que a negociação coletiva seja algo que venha de fora para dentro, uma imposição legal. Defendo uma autorregulamentação setorial do futebol. Não há proposta para que o Brasileirão tenha divisão igualitária, mas não vejo rejeição dos clubes à negociação coletiva.
Como vê o posicionamento da Globo, que considera a MP sem valor para contratos já celebrados?
Dos contratos que a CBF participa, Copa do Brasil e Série B estão protegidas. Todos os clubes são signatários. Eles vão cumprir e devem cumprir até o final. Em relação aos demais, a princípio, eu vejo que os contratos vigentes não devem ser afetados pela MP. Não conheço o teor específico do Carioca, que hoje é celeuma. Também não somos signatários dos contratos da Série A.
Como é a relação com a Globo?
É o maior parceiro do futebol brasileiro na história. O Grupo Globo é um dos grandes responsáveis pelo resultado do que hoje são o Brasileiro e as competições nacionais. Isso é pela alta qualidade das transmissões, audiência, engajamento do torcedor e por décadas de parceria e aporte econômico. O Grupo Globo teve seus resultados econômicos. O bom negócio é aquele que dá resultado para todas as partes envolvidas.
Rogério Caboclo/ Presidente da CBF