Viernes, 15 de Enero de 2021

Afinal, por que os clubes de futebol tanto querem um ceo?

BrasilO Globo, Brasil 14 de enero de 2021

um novo nome

um novo nome
Uma sala em São Januário virou o quartel-general da transição no Vasco. Nela se reúnem os vice-presidentes da nova gestão Jorge Salgado. É onde o novo CEO cruz-maltino, Luiz Mello, também tem batido ponto. Se o Vasco achou por bem inserir esse cargo no organograma, o Botafogo vai no mesmo caminho com o presidente recém-empossado, Durcesio Mello. Percebe-se uma tendência nos novos dirigentes de replicar modelos vistos em outros clubes de sucesso recente nos aspectos organizacional e financeiro. Mas afinal, em que posição joga esse "novo" nome na organização de um clube de futebol?
O Grêmio, por exemplo, tem CEO desde 2015. O Flamengo, 2013. A função é comum e de alta hierarquia no mundo corporativo, quase o pilar de uma empresa, e é uma sigla em inglês para "Chief Executive Officer". Em alguns clubes, ele responde por "diretor geral". Mas o que faz um CEO em clubes de futebol que são associações sem fins lucrativos?
" Dentro do nível hierárquico, ele tem que ter todo o planejamento estratégico, o propósito, saber os objetivos gerais. O CEO é o grande líder executivo da estrutura. O modelo associativo, em si, não atrapalha o papel dele. O que afeta é se a governança está bem implementada ou não " disse Pedro Daniel, diretor-executivo de Esportes da EY.
No Vasco, Salgado deu a Luiz Mello a função de coordenar e integrar departamentos. Delegou também "o acompanhamento da execução orçamentária e cumprimento de metas". Luiz tem conversado com várias áreas. Isso abrange o futebol, finanças e outros setores.
" A conversa é para sermos mais assertivos quando tomarmos posse. Meu trabalho como executivo é olhar os processos atuais e propor possíveis soluções. Pensamos em melhorar a gestão do clube como um todo " diz Mello, sem antecipar as mudanças.
Já o Botafogo contratou uma empresa, a Exec, para captar os candidatos a CEO. O presidente Durcesio Mello está alinhando o melhor perfil e espera fechar o nome até o fim de fevereiro. Enquanto isso, Durcesio acumula a vice-presidência de futebol, já que quem contratará o diretor dessa e outras áreas (como a financeira) ainda não veio.
" O clube está em um processo irreversível de reformulação do modelo de gestão. Os frutos virão na linha do tempo, com um trabalho sobre sólidos alicerces " disse Durcesio.
No Grêmio, o CEO atual é Carlos Amodeo. Ele é responsável por supervisionar as diretorias e levar as questões "mastigadas" ao conselho de administração, que se reúne às segundas-feiras. A remuneração tem uma parcela fixa e outra variável.
" O CEO, como qualquer executivo de grande empresa, tem o seu preço. Ele tem um bônus, uma pontuação por desempenho. No nosso caso, as metas não envolvem venda de jogadores " explica o presidente do Grêmio, Romildo Bolzan.
Adotar o discurso de profissionalização por meio de um CEO não é o problema. O desafio prático é conjugar bem o trabalho administrativo e o futebol.
" O grande risco é o CEO cuidar de tudo o que não for envolvido com o futebol. É um ponto clássico para não dar certo. Se você tem uma operação à parte, isolada, justamente na maior unidade de negócio do clube, não faz o menor sentido. Ele ganha um título legal, de CEO, mas não tem autonomia " avalia Pedro Daniel.
discrição no Fla
No Flamengo, o CEO é Reinaldo Belotti, executivo de larga experiência na área do petróleo. Discreto, conduziu o processo de enxugamento da folha durante a pandemia. No futebol, o vice-presidente Marcos Braz é o expoente. Um descompasso entre o setor administrativo e a bola gerou o entrave recente na renovação contratual com o goleiro Diego Alves. No enredo, o departamento de futebol chegou a acertar um valor com o goleiro, mas houve veto por parte do CEO.
Finalista da Libertadores, o Palmeiras não tem CEO. Mas o executivo de futebol, Anderson Barros, diz que não toma decisões relevantes, que envolvam investimento, unilateralmente ou só consultando o presidente, Mauricio Galiotte. A figura mais acionada é o diretor financeiro e de gestão.
" Não tem como eu simplesmente tratar dos assuntos só com o presidente. É preciso ter segmentos de gestão, como em qualquer grande empresa. Como vou tomar uma decisão no futebol se não tem aprovação do financeiro? O problema é que se fala em profissionalismo, mas o futebol às vezes foge disso " disse Barros.
No Bahia, houve uma mudança de estatuto que envolveu governança. Desde 2014, presidente e vice recebem uma compensação financeira: 69% do salário do presidente da república.
" Assumi como o CEO do clube mesmo. Com a mudança estatutária, fomos obrigados a ter dedicação exclusiva ao clube. Estar na rotina 24h por dia " disse o ex-presidente do Bahia, Marcelo Sant'Ana, primeiro a ser pago pela função.