Sábado, 13 de Junio de 2026

‘Burnout’ revela desequilíbrio entre trabalho e vida pessoal

BrasilO Globo, Brasil 1 de marzo de 2023

A intensificação, entre 2021 e 2022, de dois movimentos fizeram empresas do mundo todo ligarem o ...

A intensificação, entre 2021 e 2022, de dois movimentos fizeram empresas do mundo todo ligarem o sinal amarelo quanto à saúde e ao bem-estar de seus empregados. Eles foram batizados nos EUA de quiet quitting (desistência silenciosa) e The Great Resignation (A Grande Renúncia) . O primeiro, que é um desdobramento do segundo,não se refere a demissão e sim ao equilíbrio que o trabalhador faz entre as demandas do chefe e a compatibilidade dessas demandas com a carga horária. Se der para conciliar, ótimo. Se não, o funcionário deixa a empresa, no horário combinado quando foi contratado, e vai se dedicar a temas de seu interesse pessoal. Já o outro movimento levou, só nos EUA, 39 milhões de pessoas a pedirem demissão. Especialistas em recursos humanos o relacionam à busca por qualidade de vida.
" As pessoas estão cada vez menos dispostas a comprometer a saúde em troca de um salário, e as empresas já perceberam isso " avalia Guilherme Portugal, diretor de transformação de RH da Mercer Brasil. " É sabido que ambientes tóxicos prejudicam a saúde dos trabalhadores e, por consequência, influem na produtividade. Mas isso é uma percepção que precisa ser traduzida em dados.
Bem-estar integral
Em 2022, a consultoria divulgou uma ampla pesquisa sobre Tendências Globais de Talentos, com 10.910 profissionais, incluindo CEOs, em 16 países " no Brasil foram cerca de 500 entrevistados. De acordo com o levantamento, 81% dos entrevistados disseram estar à beira do burnout (esgotamento), um a crescimento ante 2020.
O levantamento mostra ainda que 50% dos entrevistados querem um futuro equilibrado entre trabalho, vida pessoal e saúde (física, mental e financeira). Não por acaso, 40% das empresas dizem ter traçado uma estratégia de bem-estar integral.Mas apenas uma em cada três têm ações concretas na agenda ESG.
" O tema saúde mental nunca foi tão crítico, porque custa para as empresas, com afastamentos, absenteísmo, baixa produtividade e até dificuldade de atrair jovens talentos " afirma a psicóloga Sandra Gioffi, diretora da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH).
Para ela, não é só excesso de trabalho ou pressão por resultados que levam ao burnout:
" O que faz uma pessoa adoecer é a combinação desse quadro com a qualidade das relações. As pessoas, normalmente, não se demitem do CNPJ, e sim do CPF. Ou seja, de lideranças tóxicas..
Uma das profissões mais estressantes é a de advogados. Pesquisa da LawCare, organização não governamental britânica voltada ao mundo jurídico, com 1,7 mil profissionais, mostrou que 69% deles relataram problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão.
Sócio em uma prestigiada banca de São Paulo, um advogado de 45 anos, que prefere não se identificar, explica que o dia a dia em grandes escritórios é feito de temas complexos que, normalmente, exigem que estejam disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana.
" Se o telefone toca de madrugada, é preciso atender " afirma.
Alguns escritórios estão buscando conciliar trabalho e bem-estar. Após a tentativa de suicídio de um estagiário, o Mattos Filho mudou seu programa Jovens Talentos. A carga horária do estágio passou de seis para cinco horas, em formato híbrido e com licença de 15 dias para preparação para os exames da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
" O grande desafio em todo o mercado é entender como chegar ao equilíbrio entre a alta performance e o bem-estar. Vamos provar que é possível " afirma Roberto Quiroga, sócio no Mattos Filho, que tem 1,8 mil funcionários, dos quais 250 são estagiários.
Outra profissão apontada como estressante é a de quem trabalha em pronto-socorro, como médicos e enfermeiros.
"Lidamos com situações em que o ser humano mostra toda a sua vulnerabilidade " afirma Fátima Silvana Furtado Gerolin, enfermeira há 36 anos e que atualmente responde pela diretoria executiva assistencial do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
denúncias de assédio
De acordo com ela, grandes organizações de saúde têm serviços de apoio com objetivo de diminuir o estresse dos trabalhadores da área. O Oswaldo Cruz tem o Programa de Apoio Pessoal. Antes da pandemia, funcionava em horário comercial. Agora, está disponível 24 horas por dia, sete dias por semana.
Proporcionar ambientes de trabalho mais diversos também interfere na saúde e bem-estar dos trabalhadores, segundo Adriane Reis de Araújo, coordenadora nacional de Promoção da Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho do Ministério Público do Trabalho (MPT).
" Um ambiente de trabalho que não tem diversidade, tende a ser mais violento.
Ela conta que as pessoas recorrem ao MPT quando canais internos de denúncia não funcionam. Em São Paulo, houve alta no número de denúncias de assédio moral e sexual de 17% em 2022.
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