Sábado, 20 de Abril de 2024

Marco importantíssimo para futebol e sociedade

BrasilO Globo, Brasil 23 de febrero de 2024

Artigo

Artigo
"Finalmente acreditaram em mim" (Por fin me han creído) foi o que a vítima falou quando a advogada contou a decisão judicial acerca da condenação do ex-jogador Daniel Alves. O medo da exposição pública, a vergonha e a culpa são sentimentos comuns relatados por mulheres vítimas de estupro, o que as levam a evitar denunciar seus agressores. Esses sentimentos são, em grande medida, derivados de uma cultura machista que nos cerca e que, frequentemente, provoca uma inversão perversa, ao tornar a vítima um alvo de questionamentos e de acusações.
No Brasil, ainda é comum ouvirmos que mulher gosta de apanhar, que a mulher que se veste com roupas consideradas curtas não pode reclamar caso seja assediada ou mesmo violentada. Parecem só palavras lançadas ao vento em uma conversa descompromissada, mas, não. São concepções forjadas em uma cultura machista que alimenta discursos preconceituosos e, sobretudo, fomenta práticas de violência contra a mulher. O país do futebol está entre os que mais se comete feminicídio no mundo. E o futebol, um dos mais importantes patrimônios culturais do Brasil, é historicamente um território de exaltação de uma masculinidade pensada a partir de atributos como virilidade e menosprezo à mulher.
O machismo, somado à fama e ao poderio financeiro, fazem do futebol um ambiente no qual, muitas vezes, a violência contra a mulher é banalizada ou mesmo legitimada. Esses fatores elevam o risco de a mulher ser desacreditada quando relata algum tipo de violência praticada por um jogador, daí aquele desabafo "Finalmente acreditaram em mim".
Não me é possível comentar a respeito de alguns aspectos legais sobre a condenação de Daniel Alves. Não saberia dizer, por exemplo, se o tempo de pena que lhe foi imputado poderia ser maior ou algo desse tipo. Podemos, sim, afirmar que o ex-jogador passou por um processo de julgamento legítimo, no país onde o crime ocorreu, e que lhe foi dado o direito de defesa.
O fato de um jogador mundialmente conhecido, que já vestiu a camisa da seleção brasileira em Copa do Mundo, ser levado a júri por ter cometido violência contra uma mulher já deve ser considerado um marco importantíssimo para o futebol e para a sociedade. Se antes esse esporte conseguia se manter como um espaço de livre ataques simbólicos e físicos às mulheres, ao que parece o futebol está mudando. Muitas mulheres têm se organizado em coletivos de torcedoras ou de profissionais do jornalismo esportivo para reivindicarem mais respeito e proteção. Esse fenômeno, me parece, fundamenta a um futebol que agonizava mergulhado no machismo. Muitos clubes e patrocinadores entenderam essa demanda e se empenharam em campanhas contra o assédio, em ações que visavam tornar o futebol um ambiente mais acolhedor e democrático. Mas devemos nos manter vigilantes. É preciso que haja um comprometimento que ultrapasse os meros interesses do mercado.
O poder do futebol de despertar afetos, influenciar nas construções identitárias, enfim, sua capacidade de mobilizar coletividades não deve nunca ser desprezado. Portanto, desintoxicar o futebol do machismo é uma questão essencialmente de caráter social que envolve políticas públicas a atuação de instituições responsáveis pela elaboração e aplicação de leis que protejam a vida das mulheres.
Leda Maria da Costa é professora da Faculdade de Comunicação Social da UERJ e pesquisadora do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte
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