Sábado, 20 de Abril de 2024

Empresas adaptam rotina para dar espaço a autistas

BrasilO Globo, Brasil 3 de abril de 2024

A catarinense Marília Ribeiro, de 30 anos, costumava ser sutilmente eliminada de processos ...

A catarinense Marília Ribeiro, de 30 anos, costumava ser sutilmente eliminada de processos seletivos ao contar sobre seu diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Há alguns anos, em uma dinâmica de grupo com mais de trinta pessoas, o que já seria desgastante por conta do ruído (um fator de estresse para pessoas autistas), uma gestora chegou a adotar um tom infantil ao se comunicar com ela, após saber da condição.
Antes da pandemia, Marília trabalhava presencialmente em outra empresa, onde também era comum enfrentar problemas relacionados ao excesso de estímulos como o barulho.
" Meu chefe ainda fazia comentários desnecessários, inclusive sobre eu precisar procurar "cura". Isso me levou ao limite e precisei me afastar " conta.
Há três anos, Marília conseguiu uma vaga no banco digital Will Bank, onde trabalha como analista de processos da área de Customer Experience. Ela se junta a um número crescente de pessoas autistas contratadas por empresas que buscam diversificar o quadros de funcionários.
cartilha aos funcionários
O movimento é acompanhado por adaptações no ambiente corporativo, que variam desde a implementação de intervalos no expediente até a permissão para que cães de assistência a autistas permaneçam no escritório.
Além de trabalhar integralmente em casa, como os colegas, Marília pode escolher o horário de seus turnos:
" Isso facilita demais pra mim, porque existem momentos de sobrecarga sensorial em que eu posso simplesmente me afastar e voltar quando estiver me sentindo melhor. Além disso, tive uma liderança também diagnosticada com TEA. Isso me deu esperança de que a empresa seria um local onde eu poderia crescer profissionalmente.
No Itaú Unibanco, por exemplo, a área de Diversidade e Inclusão faz, junto a especialistas, uma avaliação com cada novo funcionário diagnosticado com TEA para orientar gestores e colaboradores sobre como adaptar a rotina de trabalho, incluindo aumentar ou diminuir a quantidade de dias em home office. O banco tem cerca de 170 funcionários com TEA.
Mas existem pessoas autistas com outras necessidades. Quando Paloma Porto, de 24 anos, começou a estagiar na Siemens Energy, em julho de 2023, a empresa precisou elaborar uma cartilha explicando aos funcionários que ela trabalharia acompanhada de uma cadela de assistência.
A cachorrinha Bibi é treinada para atuar em caso de estresse emocional, aplicando uma técnica chamada terapia de pressão, espécie de massagem usada para regular o sistema nervoso. A cartilha recomendava, não interagir nem tirar fotos dela.
" Foi muita sorte encontrar a Bibi. Ela tem um bom tamanho, não é muito pequena e nem muito grande. O cão pequeno não consegue fazer terapia de pressão direito, e o grande pode me atrapalhar a andar em alguns lugares " conta Paloma, diagnosticada com TEA, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e superdotação.
A diretora de recursos humanos da Siemens Energy no Brasil, Dione May Yamamoto, conta que o projeto de inclusão foca principalmente nos programas de entrada, para aprendizes e estagiários:
" Antes do processo seletivo, fazemos uma palestra com os gestores para conscientizar sobre o tema, explicando que queremos trazer um ambiente de diversidade e inclusão.
Segundo Fábio Barbirato, membro titular da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o TEA é caracterizado por inflexibilidade, hipersensibilidade tanto a som e luz, quanto a texturas de alimentos e da pele.
‘não entendo sarcasmo’
Yashmin Dayen, de 23 anos, assistente administrativa da Mapfre, é diagnosticada com TEA. A empresa fez algumas adaptações: quando há um treino de incêndio, por exemplo, ela é avisada antes que a sirene toque, para buscar um lugar silencioso. Ela também pode tirar pequenas pausas quando se sente sobrecarregada por causa da luz ou do barulho.
Ela também pediu para que seus colegas fossem claros ao demandar alguma tarefa, evitando palavras de duplo sentido e ironia:
" Eu não entendo sarcasmo. Em outras empresas, os colaboradores homens faziam piadas de teor sexual comigo " conta Yashmin. " Muitas mulheres autistas sofrem abusos mais de uma vez, até perceberem o que aconteceu.
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