Jbs obtém aval de acionistas para listagem na bolsa de nova york
A JBS, maior produtora de carnes do mundo, recebeu aval dos acionistas para seguir com ...
A JBS, maior produtora de carnes do mundo, recebeu aval dos acionistas para seguir com projeto de dupla listagem de ações, com negociações de papéis na Bolsa de Nova York e de certificados no mercado brasileiro, em decisão aprovada em assembleia extraordinária. Com a mudança, as ações da companhia serão negociadas no Brasil a partir de BDRs, recibos que vão representar os papéis de uma nova controladora do grupo. Já as ações de referência serão listadas na Bolsa americana (Nyse).
Uma nova holding, chamada JBS N.V., assumirá o papel de controladora global e concentrará a sede jurídica do grupo na Holanda.
O registro da controladora holandesa deve acontecer até 30 de maio. O último dia de negociação das ações da JBS na B3, a Bolsa de São Paulo, está previsto para 6 de junho, com a estreia dos BDRs marcada para três dias depois. Já a listagem das ações na Bolsa de Nova York (Nyse) deve ocorrer em 12 de junho.
"O objetivo é destravar valor da companhia, adequar a estrutura de capital ao perfil global e diversificado da JBS e ampliar a capacidade de investimento", afirmou a empresa em nota.
Como parte da operação, foi aprovado o pagamento de dividendos de R$ 1 por ação, com base na posição acionária de 23 de maio. O valor total distribuído será de cerca de R$ 2,2 bilhões, e o pagamento está programado para começar em 16 de junho.
VIRADA NA ASSEMBLEIA
Até a véspera da assembleia, na quinta-feira, o cenário era de rejeição à proposta. Documento divulgado pela companhia indicava que 51,92% dos votos eram contrários, enquanto 47,78% apoiavam a mudança. Pesava contra a proposta a análise de empresas especializadas em proxy voting, que avaliam assembleias para fundos de investimento de todo o mundo e recomendam um posicionamento. Duas delas recomendaram a rejeição, por causa da criação de duas classes de ações.
No mercado, atribui-se à venda de ações pelo BNDES " que reduziu sua participação de 20,8% para 18,2% na JBS às vésperas da assembleia " o movimento que ajudou a garantir os votos favoráveis. Isso porque o BNDES, que durante anos foi contrário à ideia da listagem internacional, fechou um acordo com a empresa de não votar na assembleia, deixando o caminho livre para que os demais acionistas decidissem. Ao vender mais de 2% do capital da empresa, o banco acabou transferindo essa fatia para algum investidor com poder de voto.
Em comunicado, o CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni, disse que o resultado final, de aprovação, demonstrou que os acionistas estavam "confiantes nos benefícios gerados" pela dupla listagem e pela mudança da estrutura societária.
A reestruturação prevê que a JBS N.V. tenha dois tipos de ações: as Classe A, destinada ao mercado, e as Classe B, com dez vezes mais poder de voto, que ficam nas mãos dos controladores e não são negociadas. Na prática, isso amplia a influência da família Batista nas decisões estratégicas, já que as ações Classe B ficarão concentradas na holding LuxCo, controlada pela J&F, que pertence aos irmãos Joesley e Wesley Batista.
O poder mais concentrado acendeu alerta para investidores do mercado, apesar da leitura geral de que a operação deve impulsionar o valor da companhia.
Na prática, os irmãos Batista devem acumular cerca de 85% do poder de voto, calcula Igor Guedes, analista da Genial Investimentos. Para ele, os acionistas minoritários fizeram um cálculo de curto prazo ao aprovar a operação, aceitando perder influência em troca de uma percepção de valorização das ações.
" Os controladores já tinham muito poder e agora vão concentrar ainda mais. Isso significa que eles vão poder decidir o rumo da companhia sem necessariamente consultar os minoritários, que ficaram com a promessa de ganhos " avalia Guedes.
Victor Bueno, da Nord Investimentos, concorda que a nova estrutura eleva o poder dos irmãos Batista e diz que esse é um dos riscos para investimento na companhia. Ainda assim, a listagem em Nova York faz sentido estratégico, já que amplia o acesso da JBS a investidores institucionais e a um mercado mais eficiente.
" A JBS vai ter acesso não só a um número maior de investidores pessoa física, mas principalmente investidores institucionais " diz Bueno, lembrando que as ações da JBS subiram mais de 30% desde março, quando o mercado passou a enxergar a operação de listagem em Nova York como praticamente certa.
CENÁRIO DE VALORIZAÇÃO
Em relatório, o Itaú BBA avaliou que a aprovação da listagem nos EUA reforça o cenário de valorização da JBS ao ampliar o acesso a investidores globais e facilitar captações em dólar.
A expectativa de Leonardo Alencar, da XP, é de que a listagem em Nova York reduza o custo de capital da empresa e ajude a viabilizar novas aquisições.
Victor Nishioka, da Ativa Investimentos, concorda que a listagem reforça a internacionalização da JBS e deve aproximar o valor da companhia aos de concorrentes globais, como a Tyson Foods.
A JBS tem mais da metade de seu faturamento no mercado americano, mas se ressente de uma capitalização em Bolsa abaixo da de seus pares internacionais.
A listagem vinha sendo desenhada há uma década, mas o plano foi interrompido por crises econômicas e pelo escândalo de corrupção que envolveu os irmãos Batista, que chegaram a ser presos por um curto período, fizeram delação premiada e firmaram acordo com a Justiça nos EUA.
(Colaborou Rennan Setti)