Taxa de desemprego fica abaixo de 6% pela 1ª vez, e renda é recorde
A taxa de desemprego no Brasil caiu para 5,8% no segundo trimestre, o menor nível da série ...
A taxa de desemprego no Brasil caiu para 5,8% no segundo trimestre, o menor nível da série histórica do IBGE, iniciada em 2012, e pela primeira vez abaixo de 6%. Com isso, o número de desocupados chegou a 6,3 milhões, recuando 17,4% em relação ao trimestre anterior e 15,4% no ano. O resultado veio melhor do que a projeção de analistas de mercado, que estimavam taxa de desemprego de 6%. Além disso, o rendimento médio mensal dos ocupados alcançou o recorde de R$ 3.477, com alta de 1,1% acima da inflação ante o trimestre anterior e de 3,3% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Os números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnadc), divulgada ontem pelo IBGE, mostraram recordes em diversos indicadores do mercado de trabalho, que segue aquecido mesmo após as altas de juros promovidas pelo Banco Central para conter a inflação. A taxa de participação na força de trabalho (62,4%), o nível da ocupação, que mostra a parcela da população de 14 anos ou mais que está trabalhando, chegou a 58,8% e o contingente de trabalhadores com carteira assinada no setor privado, que chegou a 39 milhões, alcançaram os maiores patamares já registrados. A massa de rendimento real habitual, indicador, a soma das remunerações de todos os trabalhadores, atingiu R$ 351,2 bilhões, também o maior valor.
A população subocupada por insuficiência de horas (quem trabalha menos de 40 horas por semana e deseja trabalhar mais) caiu 8,3% no ano e ficou estável em 4,6 milhões no trimestre.
ECONOMIA AINDA FORTE
Economistas avaliam que os dados corroboraram a força do mercado de trabalho mesmo diante da pressão dos juros em patamares elevados, o que pode ser explicado pela economia mais forte no fim do ano passado e no início deste ano. Se antes boa parte das estimativas era de desaceleração ao longo do segundo semestre, agora já há expectativas de taxas de desemprego ainda mais baixas que os 5,8% divulgados ontem.
" Os próximos meses devem continuar refletindo o mercado de trabalho forte. Apesar da atividade estar desacelerando um pouco, o mercado de trabalho é como se fosse o último vagão desse trem. Quando a economia está forte, ele demora um pouco mais para acompanhar, mas depois é mais difícil de parar " diz Heliezer Jacob, economista do C6 Bank, prevendo que a taxa de desemprego deve ficar próxima de 5,5% no fim do ano.
Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, projeta taxa de desocupação de julho em 5,7% e novas quedas nos próximos meses. Ele avalia que, além de fatores sazonais, há a influência de incentivos do governo, que impactam renda, consumo e procura de mão de obra:
" Os governos vêm estimulando a economia de maneira artificial faz tempo, não só a atual gestão. A gente vem crescendo muito acima do potencial nos últimos anos, e essas medidas fiscais continuam injetando recursos para diversos estratos populacionais, sustentando o mercado de trabalho. A incerteza é um pouco maior por questões de política externa, ainda assim o mercado de trabalho vai continuar forte.
Serviços ligados à administração pública, saúde e educação foram os que mais puxaram o emprego no trimestre. Para Adriana Beringuy, do IBGE, o avanço na educação foi significativo:
" A administração pública faz uma dispensa no primeiro trimestre e recontrata após março, que é quando a gente tem o retorno do calendário letivo nas escolas, sobretudo do ensino fundamental.
PRESSÕES INFLACIONÁRIAS
Imaizumi alerta para as pressões inflacionárias dos reajustes salariais de servidores públicos e o aumento do salário mínimo, que contribuíram para o crescimento da renda, além do avanço das vagas com carteira assinada e da possibilidade de barganha dos trabalhadores por maiores salários, diante da maior demanda por mão de obra.
" Quando olhamos essa combinação de mercado de trabalho forte e salários reais crescendo acima da produtividade é indício de que vai ser difícil controlar a inflação e chegar à sua convergência para a meta " afirma Jacob.
O aumento da demanda por mão de obra e as dificuldades de contratação estão se espalhando na indústria, no comércio e nos serviços.
" Boa parte das empresas está relatando certa dificuldade de contratação. Com o mercado de trabalho aquecido é natural ter menos gente ativa procurando emprego. Ao mesmo tempo, cresce o poder de barganha do trabalhador, que acaba podendo fazer exigências, como maiores salários, o que também impulsiona a renda " explica Rodolpho Tobler, do FGV Ibre.
Com o novo recorde de baixa da taxa de desocupação voltam as discussões sobre a possibilidade de o país já ter alcançado o pleno emprego.
MUDANÇAS ESTRUTURAIS
Imaizumi ressalva que o mercado de trabalho vem sofrendo mudanças estruturais, aceleradas pela pandemia, e a tendência a longo prazo é de desemprego baixo no país:
" Vamos ter que repensar o que é pleno emprego no Brasil. A gente pode estar tendo ganho de produtividade com IA e tem a questão demográfica. A população brasileira vai continuar envelhecendo, e em países com idade mais avançada as taxas de desocupação tendem a ser menores.