45 anos depois, gwangju é marco da resistência à ditadura na coreia do sul
legado democrático
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Há pouco mais de 45 anos, Gwangju, na Coreia do Sul, foi cenário de um dos mais violentos episódios do período ditatorial do país: milhares de manifestantes, em sua maioria estudantes, foram duramente reprimidos ao protestarem contra a lei marcial " centenas perderam a vida, marcando com sangue o longo e doloroso processo de redemocratização.
Na vibrante Gwangju visitada pela reportagem do GLOBO, a reverência ao passado está em cada esquina. O mês de maio " quando ocorreu o levante, em 1980 " dá nome a um sem número de hotéis, restaurantes e empreendimentos de todos os tipos. Na estação de trem de Songjeong, havia ao menos duas ofertas para passeios em locais marcantes do movimento. Nem a forte chuva que despencava na cidade intimidava os guias.
Repressão nas ruas
Sinais de um sentimento coletivo de resistência e orgulho que sobreviveu a um dos episódios mais violentos da repressão na Coreia do Sul.
Meses antes da insurreição, o regime que comandava o país desde os anos 1960, ao mesmo tempo em que propagandeava o crescimento econômico, via-se em xeque após o assassinato do ditador Park Chung-hee, em outubro de 1979, baleado pelo chefe de seu serviço de segurança. A lei marcial foi declarada em meio a protestos nas ruas, e a chegada ao poder de Chun Doo-hwan, em dezembro daquele ano, após um golpe, intensificou a repressão
Em março de 1980, após um protesto com mais de 100 mil pessoas na principal estação de trem de Seul, Chun ampliou a lei marcial, com mais censura à imprensa, veto a atos políticos e o fechamento de universidades.
Em Gwangju, onde a resistência se confunde com a história da cidade, a medida foi um chamado às ruas. A Universidade Cheonan foi o primeiro cenário de confronto, no dia 18 de maio, com os estudantes exigindo a abertura dos portões. Além de cassetetes, baionetas e armas de fogo foram usadas contra a multidão.
" Eu fiz reportagens sobre a Guerra do Vietnã e do Camboja, mas eu nunca tinha visto nada parecido com o que vi em Gwangju. Jovens, crianças em idade escolar e estudantes foram deliberadamente baleados na cabeça " disse, em depoimento pouco antes de sua morte, em 2016, Jürgen Hinzpeter, jornalista alemão que foi o único a filmar a violência nas ruas da cidade, e retratado no filme "A taxi driver", de 2017.
No livro "O Levante de Gwangju", Choi Jung-woon, professor da Universidade Nacional de Seul, narra com detalhes a violência ordenada por Chun, e aponta que ela "era destinada para os espectadores (a população coreana), não para as vítimas".
O movimento estudantil, motor do levante e dos protestos, era o alvo principal, mas a população se uniu para apoiar a resistência. Motoristas de táxi ajudaram manifestantes a fugirem dos bloqueios e levaram feridos aos hospitais. Donos de lojas ofereciam refúgio aos que escapavam das tropas. Cidadãos comuns se juntaram em milícias armadas para enfrentarem as tropas.
" O Espírito de Maio tomou forma a partir das esperanças comuns de pessoas comuns que respondem à dor alheia " afirmou, em 2020, o então presidente Moon Jae-in, em evento que marcou os 40 anos do levante. " O espírito de partilha e incentivo mútuo dos cidadãos de Gwangju foi a fonte de força que lhes permitiu enfrentar a força armada avassaladora das tropas da lei marcial.
A vitória pareceu possível por alguns dias, mas a realidade bateu à porta com violência: em27 de maio, as tropas se reagruparam, invadiram a cidade e encerraram o levante.
De acordo com a Fundação Memorial do 18 de Maio, 155 pessoas morreram durante o levante e 110 nas semanas e meses seguintes, 2.461 ficaram feridas e 1.447 foram presas " em sua maioria, os mortos estão enterrados no Cemitério Nacional de 18 de Maio. Ali, há ainda túmulos dedicados aos desaparecidos. Oficialmente, a Fundação fala em 81 pessoas cujos destinos são desconhecidos, mas o número pode ser ainda maior, assim como o total de mortos.
central de tortura
Em outro ponto de Gwangju, no Parque Memorial do 18 de Maio, um monumento traz barras de metal lembrando os mortos, e uma estátua celebra o companheirismo. Dentro, em uma silenciosa sala, os nomes dos mortos e desaparecidos estão na parede, atrás de uma estátua que simboliza as mães da Coreia do Sul que perderam filhos para a repressão.
Gwangju foi um episódio importante de uma longa série de rebeliões civis nos anos 1970 e 1980, uma história contada em detalhes no recém-inaugurado Museu Nacional da Democracia Coreana, em Seul, em um complexo com um passado sombrio.
Uma das mostras ocupa o prédio onde funcionou o escritório de "investigação anticomunista" do regime, conhecido como uma "central da tortura", com incômodas semelhanças com o regime militar no Brasil. Instrumentos usados para dar choques, bastões de madeira e uma versão do "pau de arara" da ditadura brasileira estão expostos. Até hoje, a Fundação Coreana da Democracia, que gerencia o museu, identificou 400 vítimas torturadas no local.
presente complexo
Entre elas, Park Jong-chul, um ativista cuja tortura e morte nas mãos do Estado, em janeiro de 1987, desencadearam o movimento que levou ao fim da ditadura. Apesar das tentativas oficiais para abafar o caso, a violência sofrida por Park, revelada em maio daquele ano, foi o estopim para uma onda nacional de protestos. Em junho, sob pressão, o regime concordou com as demandas das ruas, abrindo caminho para a libertação dos presos políticos e eleições diretas.
Após mais de quatro décadas de democracia, a ditadura ainda é um tema sensível. Park Chung-hee, por exemplo, é celebrado por boa parte da sociedade como uma espécie de pai do crescimento sul-coreano. Em 2013, a filha dele, Park Geun-hye, foi eleita presidente apostando em um discurso nostálgico sobre o antigo regime. Em dezembro do ano passado, a declaração da lei marcial pelo agora ex-presidente Yoon Suk-yeol, considerada uma tentativa de golpe, assombrou o país, e mostrou que não se deve dar por garantida a estabilidade democrática.
*O jornalista viajou a convite do Ministério da Cultura, Esporte
e Turismo da Coreia do Sul