Mistura de talento e versatilidade
Carlos Eduardo Mansur
Carlos Eduardo Mansur
Pode haver quem ache exagerada uma descrição das virtudes de Lucas Paquetá. No fundo, ela é retrato de uma contratação a que o futebol brasileiro ainda não está habituado: um jogador que está na elite internacional do jogo, que não foi expelido por ela, mas que decidiu retornar atraído por um Flamengo que dá mais um passo na exibição da sua força econômica.
Paquetá tem 28 anos e, em tese, tem idade para viver no Brasil o seu auge em termos físicos; jogou uma Copa do Mundo e caminha para a segunda; há pouco mais de um ano era cobiçado pelo Manchester City de Guardiola. É um padrão de reforço raríssimo no mercado brasileiro, mas cada vez mais acessível a clubes do topo da pirâmide nacional.
Os 42 milhões de euros que o Flamengo vai comprometer compram uma rara combinação de qualidade técnica e versatilidade. E é sobre ela que vale debruçar, porque numa temporada longa e dura como a brasileira, o meia poderá solucionar diferentes problemas no time de Filipe Luís.
Em tese, o mais provável será ver Lucas Paquetá partindo da antiga posição e função de Gerson: um meia que inicia as jogadas mais aberto pela direita, mas fecha em direção ao centro do campo para ser influente nos últimos metros de campo. Nesta zona do campo, ele pode dar ao Flamengo a sua grande capacidade de se associar em tabelas curtas, seu drible, seu chute. Mas também tem algo que Filipe Luís mais do que preza, exige: uma grande capacidade de trabalho sem bola, de pressão.
Embora goste de, por vezes, infiltrar na área e fazer gols, a presença de Paquetá pode gerar uma questão para o treinador pesar. Paquetá não é um velocista, um atacador de espaços. É muito mais um jogador de combinar com companheiros que se aproximam e gerar trocas de passes. Numa formação com Pedro, um centroavante que também joga muito mais em apoio do que em ataque às costas da defesa, além de Arrascaeta e volantes como Pulgar e Jorginho, restaria uma preocupação sobre a perda de profundidade do time. Alex Sandro e Varela tampouco são laterais de força, ultrapassagem permanente pelo lado. Por outro lado, a presença de Paquetá pode gerar combinações interessantes com Pedro, por exemplo.
Na maratona brasileira, se Filipe Luís precisar dosar o fôlego de Arrascaeta, Paquetá pode ser o meia central, inclusive ocupando uma posição bem avançada, como o uruguaio fez em momentos da última temporada. Até como uma meia que parte da ponta esquerda Paquetá já jogou na seleção. Não é, em teoria, tão simples para um canhoto jogar na esquerda para o centro, mas foi por ali que construiu boas ligações com Neymar em jogos da seleção de Tite. No entanto, como quase sempre o Flamengo tem tido um ponta especialista pela esquerda, talvez esta seja uma possibilidade menos frequente. E ampliaria o debate sobre falta de velocidade e profundidade no setor ofensivo do Flamengo, problema que se apresentou em parte da temporada passada.
Outra alternativa, de acordo com as circunstâncias dos jogos, será ter Paquetá numa dupla de volantes, sendo influente na saída de bola e na condução do time para o ataque. Afinal, permitiria a ele explorar algo útil numa época de cada vez mais pressões com marcações individuais: o novo reforço do Flamengo gosta de usar o corpo para girar sobre um adversário, ganhar seus duelos e, assim, quebrar a marcação rival.
É natural que a chegada de um jogador deste porte gere a expectativa de um imenso impacto no Flamengo e no Campeonato Brasileiro. Mas jogadores também dependem dos contextos. Casar características de modo a não perder agressividade será uma das tarefas. Mas Paquetá eleva ainda mais o nível do Flamengo.