Do dorama ao lucro: a ásia entra no radar. vale investir?
Para além das superproduções audiovisuais e do boom dos doramas, o continente asiático ...
Para além das superproduções audiovisuais e do boom dos doramas, o continente asiático entrou na mira de quem busca diversificação global dos investimentos, mercado que ainda se concentra fortemente em Estados Unidos e Europa. Porém, especialistas ouvidos pelo Valor Investe consideram o potencial ainda pouco explorado pelos brasileiros, embora possa trazer boas oportunidades.
Segundo Claus Born, vice-presidente sênior e gestor de carteiras institucionais da Templeton Global Investments, faltam números confiáveis sobre os fluxos de investimento de investidores brasileiros para a Ásia, mas ele acredita que dramas de TV, influenciadores e produtos da Ásia aproximam a região do Brasil e podem, indiretamente, ajudar a remover barreiras ao investimento.
Há inclusive empresas conhecidas dos brasileiros, como as japonesas Toyota, Sony e Mitsubishi, que estão em um mercado considerado "barato", mas com elevado potencial. Outras das áreas de internet e games também começam a aparecer em relatórios.
Apesar disso, Jonathan Joo Lee, chefe da mesa de câmbio e internacional da Mirae Asset Brasil, corretora sul-coreana com atuação no Brasil, acredita que o efeito da cultura nos investimentos ainda não se traduz, pelo menos até agora, em um aumento de fluxo significativo dos investidores brasileiros em direção ao continente, explica.
O interesse dos brasileiros na Ásia é, sobretudo, setorial, "muitas vezes concentrado em poucos nomes ligados a tecnologia e semicondutores", diz Lee:
" Dentro do público que já investe no exterior, há um subconjunto que começa a refinar a tese de tecnologia e, inevitavelmente, chega em nomes asiáticos críticos para a cadeia de IA (inteligência artificial).
Lee pontua que há duas oportunidades no mercado asiático: diversificação real de portfólio e acesso a camadas intermediárias da cadeia de tecnologia.
" A economia asiática concentra hoje boa parte da cadeia global de semicondutores, eletrônicos, 5G e EVs (veículos elétricos). Estar fora da Ásia é, de certo modo, estar fora de segmentos importantes da economia global. Além disso, muitas empresas asiáticas têm forte atuação na camada intermediária da cadeia produtiva de tecnologia de ponta, como componentes, chips, displays, que se beneficia diretamente do ciclo de IA " diz.
Diversificação global
Roberto Dumas, professor de economia chinesa do Insper e ex-Itaú BBA na China, destaca que um dos principais atrativos da Ásia é a baixa correlação entre os ativos da região e os mercados ocidentais, incluindo o americano, o que contribui para uma diversificação mais eficiente do portfólio global.
Os países da região também apresentam diferentes motores de crescimento, como uma demografia jovem, urbanização acelerada e uma classe média em expansão.
Dumas considera a região a "fábrica do mundo", com mão de obra abundante e custo competitivo, além de uma crescente especialização em tecnologia e inovação em países como China, Coreia do Sul e Japão, enquanto o Ocidente é o "comprador do mundo".
O destaque para a região fica com as ações já que, com a Selic ainda nas alturas, a remuneração da renda fixa aqui se torna quase imbatível, e a renda fixa asiática envolve risco cambial para os brasileiros. Born, da Templeton, ressalta que, ao investir na Ásia, os brasileiros ganham acesso a algumas das empresas de tecnologia e consumo mais interessantes do mundo.
A Nord Investimentos aposta na China. Segundo Marília Fontes, sócia-fundadora da casa de análise, a crise imobiliária provocou forte queda no mercado acionário local, o que levou Pequim a reorientar o modelo de crescimento de setores de ponta, como robótica, energias renováveis, data centers e IA. Com a Bolsa chinesa significativamente mais barata do que a americana, explica Fontes, surge a oportunidade de investir em um país na vanguarda da IA a custo menor.
Para além de China e Japão
Entre os riscos associados de investir lá estão, principalmente, a forte presença e intervenção do Estado, o que pode fazer com que políticas e regulamentações mudem da noite para o dia.
" Em alguns mercados, especialmente na China, há histórico de intervenções regulatórias abruptas, mudanças em regras de listagem, restrições a setores específicos e empresas alvo de sanções " diz Lee.
Isso torna improvável que a Bolsa chinesa, por exemplo, apresente um movimento de alta contínuo como o do S&P 500, na avaliação de Fontes, da Nord.
Dumas ressalta que, apesar dos riscos, os países têm cadeias produtivas integradas (com mercado produtor e consumidor, como uma autossuficiência regional) e uma especialização agressiva em tecnologia e inovação, o que continua atraindo investidores que buscam fugir da estagnação europeia e da concentração nos Estados Unidos.
Entre os principais mercados financeiros da Ásia estão China, Índia e Japão. Born detalha que a China apresentou uma forte retomada do desempenho de seus mercados acionários nos últimos dois anos, enquanto a Índia, apesar de ter ficado para trás em 2025, é "um dos mercados mais atrativos no longo prazo".
" O Japão vem despertando maior interesse de investidores internacionais, com um potencial de retorno melhorado com base em reformas corporativas. Como o Brasil abriga a maior comunidade japonesa fora do Japão, este último pode ser um mercado de interesse particular para os brasileiros " complementa o gestor da Templeton.
Como investir?
Os analistas ouvidos pelo Valor Investe citam ainda Cingapura, um dos maiores polos de inovação e tecnologia; Vietnã, que atrai indústrias com sua mão de obra barata; e Coreia do Sul, forte em chips e eletrônicos (Samsung, SK hynix, fabricantes de displays e componentes) e com boa infraestrutura. No caso de Taiwan, há a fabricante de semicondutes TSMC.
Lee explica que, ao recorrer a ETFs (fundos negociados em Bolsa e que replicam um índice específico) globais listados na B3, o investidor não precisa mais abrir conta em corretora local na Ásia.
No radar da Nord estão o XINA11, que busca acompanhar a variação do índice MSCI China, que representa o desempenho de grandes e médias empresas do país; o PKXN11, que segue o CSI 300, índice das 300 maiores ações negociadas nas Bolsas de Xangai e Shenzhen; e o TECX11, que busca acompanhar o ChiNext, índice da Bolsa de Shenzhen voltado para empresas inovadoras e de setores emergentes na China.
Para quem quer diversificar a carteira no continente asiático, a Bolsa brasileira ainda tem o ASIA11, que busca acompanhar a variação do índice MSCI AC Asia ex Japan, que reúne países desenvolvidos e emergentes da região. Pode-se checar a lista completa dos ETFs disponíveis no site da B3.
Lee pondera, no entanto, que há um risco de liquidez elevado, por falta de demanda para esse mercado. De qualquer forma, abra-se para o que há de investimento do outro lado do mundo. O seu dinheiro agradece.