Com preço menor do barril, petroleiras pisam no freio na aposta em energia renovável
mudança de estratégia
mudança de estratégia
Nos últimos anos, projetos de geração solar e eólica ganharam espaço na agenda de transição energética das petroleiras. Mas uma combinação de fatores está levando a uma pisada no freio: preços de petróleo mais baixos, pressão por redução de custos e um choque geopolítico na América Latina. A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos EUA no início do ano reabriu o debate em torno dos seus vastos recursos petrolíferos. O episódio reacendeu o apetite por investimentos em óleo e gás e reduziu a prioridade a fontes renováveis no portfólio.
Com o preço do petróleo na faixa dos US$ 60 por barril, empresas e especialistas dizem que a preferência é por iniciativas menores, mais seletivas e voltadas à redução das emissões nas operações, além do desenvolvimento de "combustíveis verdes", em uma estratégia pragmática para manter competitividade e avançar, ainda que de forma mais cautelosa, na redução da pegada de carbono.
Os planos da Petrobras ajudam a ilustrar o cenário. Para os próximos anos, a estatal reduziu em 20% os investimentos em projetos renováveis. O total passou de US$ 16,3 bilhões, entre os anos de 2025 e 2029, para US$ 13 bilhões, entre 2026 e 2030. Saíram do topo da lista grandes projetos solares e eólicos em terra e no mar, além de unidades de hidrogênio verde. No lugar, a empresa decidiu acelerar a produção de biocombustíveis e manter os recursos em iniciativas de captura e armazenamento de carbono, que já contam com quatro frentes em estudo. Para amenizar o impacto no caixa, vai buscar parcerias.
queda de investimentos
Dados da Agência Internacional de Energia apontam que somente nos dois últimos anos o volume global de investimentos em parques solares caiu quase 10%, ao passo que projetos de baixa emissão, como biogás, biocombustíveis e hidrogênio, tiveram alta superior a 25%. Segundo Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), projetos renováveis devem recuar.
" Com o preço baixo do petróleo, as companhias estão conservadoras. E isso vai levar a uma redução nos investimentos em renováveis. As petroleiras entenderam que podem ser competitivas no que sabem fazer e que hoje não conseguem (ser competitivas) em eólica e solar " avalia Ardenghy, lembrando que os projetos renováveis respondem atualmente por entre 5% e 10% do plano de investimentos das petroleiras no Brasil.
Segundo a advogada especializada em energia Irini Tsouroutsoglou, o petróleo voltou ao centro das tensões internacionais, com a instabilidade na Venezuela, no Oriente Médio e na Rússia, o que aumentou a volatilidade de preços e a disputa por oferta segura:
" Em um mundo mais instável, energia é poder econômico e geopolítico. Quem não investe hoje perde influência amanhã.
Assim, a Petrobras acelera os projetos de exploração de petróleo na Margem Equatorial, onde perfura o primeiro poço na Bacia da Foz do Amazonas, e também na Bacia de Santos. Em paralelo, foca em uma nova fase "verde" com projetos de descarbonização para reduzir a emissão de poluentes em plataformas em alto-mar e nas refinarias. A estratégia inclui o aumento da produção de biodiesel, o desenvolvimento de combustível de aviação (QAV) renovável, assim como combustível renovável para navios, o que tem demandado mais investimentos em biorrefinarias aptas a usar grãos, óleos e gorduras como matéria-prima. Isso vem sendo feito na Reduc (no Rio), Revap (São Paulo), Regap (Minas Gerais), Replan (São Paulo) e Boa Ventura (antigo Comperj, no Rio).
" Vamos ampliar o parque industrial com petróleo e produtos de baixo carbono através do biorrefino. Queremos ser os líderes na transição energética justa " disse Angélica Laureano, diretora de Transição Energética e Sustentabilidade da Petrobras.
A estatal quer voltar ao segmento de etanol e pretende adquirir fatia minoritária em empresas do setor. Ela está de olho no potencial do mercado, que, com a Lei do Combustível do Futuro, prevê percentual de até 35% de mistura de etanol na gasolina em 2030. Na agenda de aquisições está ainda o biometano. A ideia de Magda Chambriard, presidente da companhia, é comprar participação em empresa com posição consolidada, já que haverá mistura obrigatória de até 10% do biometano no gás natural em 2030. O foco é ampliar participação no segmento de venda de gás para transporte e reduzir a importação de GNL (gás em estado líquido).
Já na área de hidrogênio de baixa emissão, ainda estão em estudo projetos em amônia e metanol, que são a base para produzir combustíveis e insumos químicos com menor pegada de carbono, voltados principalmente para os transporte pesado, marítimo e para a indústria. Os movimentos devem seguir na mesma direção da compra de uma fatia de 49,99% da Lightsource bp, braço de energia solar e baterias da petroleira britânica bp, anunciada em dezembro.
O movimento da Petrobras é seguido por outras petroleiras. A bp participa da exploração de óleo e gás em seis blocos no Brasil e, em paralelo, tem projetos de bioenergia.
" No Brasil, um dos focos é a bp bioenergy, que tem potencial para contribuir diretamente para as metas de descarbonização do setor de transporte. No campo, essa contribuição é reforçada pela adoção de práticas de agricultura regenerativa, incluindo o uso de agentes biológicos para controle de pragas, substituição de fertilizantes químicos por orgânicos e melhorias nos processos de combate a incêndios " diz Andres Guevara de la Vega, presidente da bp no Brasil e CEO da bp bioenergy.
pico da demanda adiado
Segundo Leticia Andrade, vice-presidente de Gestão de Ativos e diretora da Equinor Brasil, a meta da empresa é entregar petróleo e gás com o menor nível de emissões, ampliar a atuação em energias renováveis e desenvolver mais soluções de baixo carbono. Ela cita o início das operações do projeto Bacalhau, na Bacia de Santos. Na área, o navio-sonda utiliza turbinas a gás de ciclo combinado, tecnologia que reduz a intensidade de carbono. Com isso, as emissões de CO2 são estimadas em 9 quilos por barril de óleo equivalente, metade da média da indústria. Solução semelhante será usada no Projeto Raia, na Bacia de Campos, com previsão de iniciar a operação em 2028.
Além de ter iniciado em dezembro a produção comercial de energia solar e eólica no Complexo Serra da Babilônia Solar, no estado da Bahia, a executiva cita o projeto de armazenamento de carbono, que foi iniciado em novembro em parceria com o Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RGCI) da Universidade de São Paulo (USP).
" Com investimentos de cerca de R$ 10 milhões, a iniciativa vai avaliar a viabilidade de formações basálticas (rochosas) como reservatórios para armazenamento de CO2 proveniente de usinas de bioetanol. O projeto será focado na Bacia do Paraná, onde estão concentradas as usinas de bioetanol da Região Sudeste.
Especialistas lembram ainda que a Exxon, uma das principais petroleiras do mundo, vai reforçar seus investimentos em petróleo e gás até 2030 no mundo, com aportes entre US$ 28 bilhões e US$ 33 bilhões por ano nesse período. Além do foco na produção de petróleo e gás, a companhia vai se debruçar sobre projetos como captura e armazenamento de carbono, além de hidrogênio de baixa emissão.
" Antes havia otimismo de que as petroleiras protagonizariam a transição energética, mas hoje o cenário é o oposto. As pesquisas indicam que o pico de demanda por petróleo foi adiado, com projeções entre meados da década de 2030 e 2050, segundo a Opep, que reúne os maiores produtores. O fato é que o petróleo segue na agenda mais forte do que nunca " afirma o consultor de energia Antonio Soares Tavares, citando o impacto da política de Donald Trump.