Martes, 17 de Febrero de 2026

Com preço menor do barril, petroleiras pisam no freio na aposta em energia renovável

BrasilO Globo, Brasil 17 de febrero de 2026

mudança de estratégia

mudança de estratégia
Nos últimos anos, projetos de geração solar e eólica ganharam espaço na agenda de transição energética das petroleiras. Mas uma combinação de fatores está levando a uma pisada no freio: preços de petróleo mais baixos, pressão por redução de custos e um choque geopolítico na América Latina. A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos EUA no início do ano reabriu o debate em torno dos seus vastos recursos petrolíferos. O episódio reacendeu o apetite por investimentos em óleo e gás e reduziu a prioridade a fontes renováveis no portfólio.
Com o preço do petróleo na faixa dos US$ 60 por barril, empresas e especialistas dizem que a preferência é por iniciativas menores, mais seletivas e voltadas à redução das emissões nas operações, além do desenvolvimento de "combustíveis verdes", em uma estratégia pragmática para manter competitividade e avançar, ainda que de forma mais cautelosa, na redução da pegada de carbono.
Os planos da Petrobras ajudam a ilustrar o cenário. Para os próximos anos, a estatal reduziu em 20% os investimentos em projetos renováveis. O total passou de US$ 16,3 bilhões, entre os anos de 2025 e 2029, para US$ 13 bilhões, entre 2026 e 2030. Saíram do topo da lista grandes projetos solares e eólicos em terra e no mar, além de unidades de hidrogênio verde. No lugar, a empresa decidiu acelerar a produção de biocombustíveis e manter os recursos em iniciativas de captura e armazenamento de carbono, que já contam com quatro frentes em estudo. Para amenizar o impacto no caixa, vai buscar parcerias.
queda de investimentos
Dados da Agência Internacional de Energia apontam que somente nos dois últimos anos o volume global de investimentos em parques solares caiu quase 10%, ao passo que projetos de baixa emissão, como biogás, biocombustíveis e hidrogênio, tiveram alta superior a 25%. Segundo Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), projetos renováveis devem recuar.
" Com o preço baixo do petróleo, as companhias estão conservadoras. E isso vai levar a uma redução nos investimentos em renováveis. As petroleiras entenderam que podem ser competitivas no que sabem fazer e que hoje não conseguem (ser competitivas) em eólica e solar " avalia Ardenghy, lembrando que os projetos renováveis respondem atualmente por entre 5% e 10% do plano de investimentos das petroleiras no Brasil.
Segundo a advogada especializada em energia Irini Tsouroutsoglou, o petróleo voltou ao centro das tensões internacionais, com a instabilidade na Venezuela, no Oriente Médio e na Rússia, o que aumentou a volatilidade de preços e a disputa por oferta segura:
" Em um mundo mais instável, energia é poder econômico e geopolítico. Quem não investe hoje perde influência amanhã.
Assim, a Petrobras acelera os projetos de exploração de petróleo na Margem Equatorial, onde perfura o primeiro poço na Bacia da Foz do Amazonas, e também na Bacia de Santos. Em paralelo, foca em uma nova fase "verde" com projetos de descarbonização para reduzir a emissão de poluentes em plataformas em alto-mar e nas refinarias. A estratégia inclui o aumento da produção de biodiesel, o desenvolvimento de combustível de aviação (QAV) renovável, assim como combustível renovável para navios, o que tem demandado mais investimentos em biorrefinarias aptas a usar grãos, óleos e gorduras como matéria-prima. Isso vem sendo feito na Reduc (no Rio), Revap (São Paulo), Regap (Minas Gerais), Replan (São Paulo) e Boa Ventura (antigo Comperj, no Rio).
" Vamos ampliar o parque industrial com petróleo e produtos de baixo carbono através do biorrefino. Queremos ser os líderes na transição energética justa " disse Angélica Laureano, diretora de Transição Energética e Sustentabilidade da Petrobras.
A estatal quer voltar ao segmento de etanol e pretende adquirir fatia minoritária em empresas do setor. Ela está de olho no potencial do mercado, que, com a Lei do Combustível do Futuro, prevê percentual de até 35% de mistura de etanol na gasolina em 2030. Na agenda de aquisições está ainda o biometano. A ideia de Magda Chambriard, presidente da companhia, é comprar participação em empresa com posição consolidada, já que haverá mistura obrigatória de até 10% do biometano no gás natural em 2030. O foco é ampliar participação no segmento de venda de gás para transporte e reduzir a importação de GNL (gás em estado líquido).
Já na área de hidrogênio de baixa emissão, ainda estão em estudo projetos em amônia e metanol, que são a base para produzir combustíveis e insumos químicos com menor pegada de carbono, voltados principalmente para os transporte pesado, marítimo e para a indústria. Os movimentos devem seguir na mesma direção da compra de uma fatia de 49,99% da Lightsource bp, braço de energia solar e baterias da petroleira britânica bp, anunciada em dezembro.
O movimento da Petrobras é seguido por outras petroleiras. A bp participa da exploração de óleo e gás em seis blocos no Brasil e, em paralelo, tem projetos de bioenergia.
" No Brasil, um dos focos é a bp bioenergy, que tem potencial para contribuir diretamente para as metas de descarbonização do setor de transporte. No campo, essa contribuição é reforçada pela adoção de práticas de agricultura regenerativa, incluindo o uso de agentes biológicos para controle de pragas, substituição de fertilizantes químicos por orgânicos e melhorias nos processos de combate a incêndios " diz Andres Guevara de la Vega, presidente da bp no Brasil e CEO da bp bioenergy.
pico da demanda adiado
Segundo Leticia Andrade, vice-presidente de Gestão de Ativos e diretora da Equinor Brasil, a meta da empresa é entregar petróleo e gás com o menor nível de emissões, ampliar a atuação em energias renováveis e desenvolver mais soluções de baixo carbono. Ela cita o início das operações do projeto Bacalhau, na Bacia de Santos. Na área, o navio-sonda utiliza turbinas a gás de ciclo combinado, tecnologia que reduz a intensidade de carbono. Com isso, as emissões de CO2 são estimadas em 9 quilos por barril de óleo equivalente, metade da média da indústria. Solução semelhante será usada no Projeto Raia, na Bacia de Campos, com previsão de iniciar a operação em 2028.
Além de ter iniciado em dezembro a produção comercial de energia solar e eólica no Complexo Serra da Babilônia Solar, no estado da Bahia, a executiva cita o projeto de armazenamento de carbono, que foi iniciado em novembro em parceria com o Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RGCI) da Universidade de São Paulo (USP).
" Com investimentos de cerca de R$ 10 milhões, a iniciativa vai avaliar a viabilidade de formações basálticas (rochosas) como reservatórios para armazenamento de CO2 proveniente de usinas de bioetanol. O projeto será focado na Bacia do Paraná, onde estão concentradas as usinas de bioetanol da Região Sudeste.
Especialistas lembram ainda que a Exxon, uma das principais petroleiras do mundo, vai reforçar seus investimentos em petróleo e gás até 2030 no mundo, com aportes entre US$ 28 bilhões e US$ 33 bilhões por ano nesse período. Além do foco na produção de petróleo e gás, a companhia vai se debruçar sobre projetos como captura e armazenamento de carbono, além de hidrogênio de baixa emissão.
" Antes havia otimismo de que as petroleiras protagonizariam a transição energética, mas hoje o cenário é o oposto. As pesquisas indicam que o pico de demanda por petróleo foi adiado, com projeções entre meados da década de 2030 e 2050, segundo a Opep, que reúne os maiores produtores. O fato é que o petróleo segue na agenda mais forte do que nunca " afirma o consultor de energia Antonio Soares Tavares, citando o impacto da política de Donald Trump.
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