‘Viagem de ônibus ainda é um mercado offline no brasil’
Surgido como app de compartilhamento de caronas, o "unicórnio" francês BlaBlaCar quer ...
Surgido como app de compartilhamento de caronas, o "unicórnio" francês BlaBlaCar quer acelerar o novo papel que assumiu no Brasil, um de seus maiores mercados no mundo: o de one-stop shop para viagens país adentro, nas palavras do CEO global e cofundador Nicolas Brusson. O grande vetor da estratégia tem sido a venda de passagens de ônibus, adotada no auge da pandemia e que, só no ano passado, cresceu 63% dentro da plataforma. E, para disputar com rivais locais como ClickBus e Buson, a gigante europeia aposta na complementaridade com seu negócio original.
" A capacidade de criar demanda é nossa maior vantagem competitiva. Isso porque temos uma base única de passageiros de carona. Muitos não consideravam o ônibus como uma alternativa antes de começarmos a vender bilhetes dentro da plataforma. Isso converte usuários " diz Brusson.
Mais de 60% do crescimento nas passagens de ônibus vem justamente da base de usuários que pegam caronas na plataforma, complementa Tatiana Mattos, diretora-geral da BlaBlaCar no Brasil. Brusson observa que, mais do que concorrer com plataformas rivais, a BlaBlaCar quer crescer absorvendo mercado de uma oferta ainda predominantemente analógica nesse segmento:
" O mercado de viagens de ônibus foi um dos últimos a migrar para o on-line no Brasil, a despeito de os consumidores serem altamente digitais. A razão é que o mercado é fragmentado, com muitas empresas pequenas que não conseguem criar um app e só têm um site limitado. E o cliente não quer baixar 20 apps; ele quer uma oferta agregada. Então, há demanda por essa migração para o on-line. Não estamos tomando participação de outras plataformas, mas, sim, do offline.
Embora tenha começado a vender passagens de ônibus em 2020, a BlaBlaCar acelerou investimentos no modal em 2024, conta Tatiana Mattos. Naquele ano, o volume de passagens vendidas cresceu 150% na plataforma, contra um avanço da ordem de 30% nas caronas. Em 2025, as caronas avançaram 19%, e o ônibus cresceu 63%.
Segundo a diretora-geral da BlaBlaCar no Brasil, o principal objetivo para este ano é aumentar o número de empresas de ônibus integradas à plataforma. Hoje, são 220. Não está nos planos ter frota própria de ônibus, como mantém na França " o modelo no país natal é uma exceção em termos globais, esclarece Brusson.
Embora sejam mais recentes dentro da BlaBlaCar, os ônibus são a maior fonte de receitas porque, até pouco tempo atrás, o segmento de caronas não era monetizado. Nos últimos meses, a plataforma começou a cobrar dos motoristas uma taxa de 15% sobre o valor pago pelos passageiros. (A regulação brasileira não permite lucrar com caronas; assim, os valores são cobrados para o compartilhamento de custos da viagem.)
Mas a grande aposta está na oferta de uma assinatura, pela qual os motoristas podem compensar parte do custo, ter acesso a mais informações dos passageiros e conseguir atendimento prioritário na plataforma. Se não oferecer caronas no período da assinatura, o motorista é reembolsado.
" Vemos como uma espécie de clube. Quando atingimos massa crítica com uma rede grande e relevante o suficiente para os usuários, faz sentido entrarmos em uma fase mais comercial " argumenta Brusson, acrescentando que as cobranças ainda estão sendo feitas de maneira gradual e focadas em usuários frequentes da plataforma.
Segundo a BlaBlaCar, apenas um quarto das contas ativas de motoristas no Brasil já estão sendo cobradas.
No Brasil, há poucas opções de modais para a BlaBlaCar complementar seu one-stop shop " não há trens de passageiros como os que ela oferece na Europa. Mas, no longo prazo, o francês não descarta avançar no Brasil e no mundo sobre outros segmentos.
" Poderemos eventualmente oferecer passagens aéreas. Ou mesmo hospedagens no sentido amplo, de hotéis a casas compartilhadas. Estamos avaliando todas essas frentes " diz.
A BlaBlaCar terminou 2025 com 25 milhões de usuários cadastrados no Brasil. O número de viagens intermediadas foi de 22,7 milhões, um crescimento de 24%.