Ipca em 0,70% e alta do petróleo reforçam corte menor de juros
Efeitos da guerra
Efeitos da guerra
A inflação subiu para 0,70% em fevereiro, após ter ficado em 0,33% em janeiro. O avanço foi puxado pelo reajuste das mensalidades escolares e das tarifas de ônibus. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo IBGE ontem, veio acima do esperado pelo mercado, que projetava 0,63%, e é a maior taxa desde fevereiro de 2025. Em 12 meses, está em 3,81%, abaixo dos 4,44% de janeiro.
O IPCA acima do esperado e a alta do petróleo reforçam a percepção de que os juros devem cair pouco na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) na semana que vem.
O grupo da educação teve alta de 5,21%, correspondendo, sozinho, por 44% do índice em fevereiro, em um avanço maior do que os 4,70% observados em 2025. Outro grupo que pressionou a alta no mês foi o de transportes (0,74%) que, somado ao de educação, respondeu por 66% do índice. Neste segmento, tiveram destaque as tarifas de ônibus. Houve reajuste em oito capitais: Fortaleza, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, Vitória, Recife, Porto Alegre. A maior alta foi em Fortaleza, onde viajar de ônibus ficou 20% mais caro.
Passagem aérea em alta
No grupo de transportes, a passagem aérea figurou entre as maiores altas, de 11,40%. Os combustíveis pressionaram o índice para baixo, com quedas na gasolina (-0,61%) e no gás veicular (-3,10%), mas com altas no etanol (0,55%) e no diesel (0,23%).
Para analistas, o IPCA acima do esperado e a alta do petróleo estão aumentando os riscos altistas para a inflação nos próximos meses e reforçando a previsão de corte menor da Taxa Selic, em 15% ao ano. Economistas, no momento, acham que quadro de queda da inflação não muda e haveria espaço para Banco Central (BC) manter sua decisão de começar a cortar os juros, mas talvez seja menor do que o esperado.
"Já existia na nossa projeção essa possibilidade de um corte de 0,25 ponto percentual em março, menor do que muita gente estava esperando, e ela ganhou força por causa desses conflitos no Oriente Médio " explicou Fábio Romão, da Logos Economia.
Ele prevê IPCA de 4% este ano, o que não gera, na sua visão, grandes riscos de o BC adiar o início dos cortes. Os efeitos defasados da alta na Selic ainda recaem sobre a economia, além da apreciação cambial, que ajuda a mitigar reajustes de preços.
No entanto, os próximos podem depender da guerra. Se for um conflito mais rápido, a expectativa é que o próximo corte já seja de 0,50 ponto percentual. Mas se a guerra se intensificar, o BC pode seguir com recuos menores.
" A intenção dos americanos é que a guerra não seja de longa duração. O petróleo vai incomodar a curto prazo, só que mais adiante, o mais provável é que a cotação acabe arrefecendo " diz Romão.
O anúncio do governo de que vai zerar o PIS e o Cofins (leia mais na página 13) do diesel também pode ajudar a conter a inflação, segundo Romão. Ele revisou sua previsão de IPCA de 2026 de 4,2% para 4,09%, considerando as novas medidas sobre o diesel.
O economista Lucas Barbosa, da AZ Quest, ressalta, porém, que o alívio da medida nos preços pode ser parcial:
" A defasagem atual dos combustíveis é maior do que o que o governo consegue acomodar, mesmo com a Petrobras não repassando integralmente. Há problemas que não são só de preço, mas de fornecimento. O choque atual é certamente inflacionário.
Ele ainda prevê um corte de 0,50 ponto percentual na próxima reunião do Copom. Sua projeção para a inflação de 2026 segue em 3,8%, embora com mais riscos para cima.
O impacto da alta do petróleo e do IPCA já apareceram nos juros futuros ontem. As taxas dos contratos DI fecharam nos maiores níveis do ano. A taxa para janeiro de 2027 subiu de 13,65% para 13,995%; para janeiro de 2031 foi de 13,47% para 13,80%.
Colaborou Roberto Malfacini