John textor repassou r$ 110 milhões do aporte obrigatório do botafogo ao lyon
Conexão francesa
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Documentos e contratos obtidos pelo GLOBO detalham operações milionárias realizadas entre Botafogo e Lyon com verbas do aporte obrigatório de John Textor previsto no acordo de acionistas para compra da SAF do clube carioca, assinado em 2022. Dos R$ 400 milhões que o empresário americano se comprometeu a investir, pouco mais de R$ 100 milhões foram transferidos ao clube francês.
Procurado, o clube social, que já tinha conhecimento dos fatos, optou por não se posicionar oficialmente. Nos bastidores, dirigentes adotam cautela e aguardam os desdobramentos judiciais do imbróglio envolvendo Textor, acionistas e credores da Eagle Football Holdings (EFH).
Internamente, há o entendimento de que o empresário pode não ter cumprido integralmente o acordo assumido na compra da SAF " cenário que, em tese, abriria espaço para questionamentos sobre sua permanência no comando, embora não haja qualquer movimento concreto nesse sentido no momento. O clube social trata como se Textor tivesse ferido o acordo ou fraudado a compra, porque, segundo fontes do clube social, Textor colocou e tirou o dinheiro que deveria servir de investimento no Botafogo.
Juristas independentes avaliam se há a possibilidade de o acordo de acionistas ter sido quebrado.
" Sim. As cláusulas 3.3 e 3.4, que vieram a público, vinculam os aportes do investidor a finalidades específicas: cobertura de despesas operacionais, investimentos e folha salarial da SAF. Quando esses recursos são transferidos em curto prazo a outro clube do mesmo grupo econômico, o aporte não cumpriu sua função. Depositar o valor na conta da SAF e retirá-lo em seguida não é cumprir a obrigação contratual " analisa Thiago Nicácio, advogado da área de Direito Desportivo do Felsberg Advogados. " O acordo também fixa limites para o endividamento da SAF. Se a gestão financeira centralizada da rede multiclubes gerou dívidas acima desses limites, há fundamento adicional para caracterizar o descumprimento. Nessas hipóteses, o clube associativo pode exercer o direito de diluir a participação do investidor. A conclusão definitiva depende do exame do teor inteiro do acordo, mas o cenário conhecido aponta nessa direção.
Procurada, a SAF do Botafogo não quis se posicionar. Historicamente, o clube-empresa sempre tratou como "comum" a troca de dinheiro entre o alvinegro e o Lyon, tanto de um lado quanto para o outro, no conceito de caixa único da estratégia multiclubes de Textor. O destaque para essa operação, porém, é que ela é oriunda do aporte da compra da SAF carioca.
Na prática, o que os documentos indicam é um caminho indireto do dinheiro: valores que deveriam entrar no Botafogo como investimento obrigatório do controlador acabaram sendo enviados, pouco tempo depois, ao Lyon, outro clube da rede de John Textor. Ou seja, o dinheiro entrou na SAF como aporte " algo que, em tese, serviria para fortalecer o clube ", mas parte relevante saiu em seguida para financiar outra operação dentro do mesmo grupo. É justamente esse fluxo que levanta dúvidas sobre o cumprimento do acordo original: se o aporte tinha como finalidade capitalizar o Botafogo, o repasse posterior para outro clube pode esvaziar, na prática, esse compromisso.
Ao acertar a compra da SAF do Botafogo, John Textor se comprometeu a investir ao menos R$ 400 milhões no clube. Nos dois primeiros anos de gestão, em 2022 e 2023, deveria aportar metade desse valor " R$ 200 milhões " além de R$ 50 milhões pagos anteriormente como empréstimo-ponte antes da assinatura do contrato definitivo.
Restavam, portanto, R$ 150 milhões a serem investidos nos anos seguintes. A previsão inicial era de R$ 100 milhões em março de 2024 e outros R$ 50 milhões em março de 2025. No entanto, registros obtidos pelo GLOBO mostram que esses aportes foram antecipados e concluídos já em maio de 2024.
Razões desconhecidas
Os pagamentos ocorreram em três etapas: cerca de 11 milhões de euros (aproximadamente R$ 59 milhões) em março de 2024; outros 10 milhões de euros (cerca de R$ 55 milhões) em abril; e mais 9,3 milhões de euros (R$ 51 milhões) em maio. Além disso, ainda em abril, a SAF do Botafogo chegou a receber três empréstimos oriundos da Eagle Football Holdings que totalizaram 6 milhões de euros (R$ 34 milhões).
O ponto central da discussão está no destino de parte desses recursos que representam os R$ 100 milhões do aporte. Ainda em março e abril, a SAF do Botafogo realizou três transferências que somam 21 milhões de euros (cerca de R$ 112 milhões) ao Lyon. As razões para os repasses ao clube francês não foram divulgadas.