Design salvou empresa da falência e mudou a indústria
Em 1977, um catálogo da Apple cravava: "Simplicidade é a sofisticação suprema". Podia ser ...
Em 1977, um catálogo da Apple cravava: "Simplicidade é a sofisticação suprema". Podia ser só o slogan ambicioso de uma empresa ainda iniciante, mas, meio século depois, ele provou ser a salvação da companhia. A paixão pelo design tirou a Apple da falência, tornou a empresa uma das mais valiosas do mundo e alterou profundamente a indústria de tecnologia.
Ainda que a ideia de interface gráfica já circulasse em círculos tecnológicos dos anos 1980, foi o Macintosh que mostrou à indústria que computadores pessoais precisavam partir de ideias como desktop, janelas e um mouse.
Com o iPod, aprendemos que dispositivos portáteis não precisam ter botões físicos " às vezes, uma rodinha basta. E detalhes decretaram grandes mudanças, como o fim dos fones de ouvido, que morreram no iPhone 7 em 2016, e das mídias físicas, que começaram a desaparecer quando o MacBook Air dispensou o leitor de CDs, em 2008.
Foram escolhas de design precisas. A maior de todas definiu que um retângulo de vidro sensível ao toque seria o dispositivo de computação pessoal do século XXI. Foi uma quebra de paradigma, em uma época na qual os teclados físicos do BlackBerry representavam o que havia de mais moderno. Steve Jobs vetou o componente durante o desenvolvimento do iPhone.
"Pense em todas as inovações que poderíamos adotar se criássemos o teclado na tela por meio de um software", disse ele a executivos da companhia, segundo a biografia de Walter Isaacson. Jobs queria que seus engenheiros entendessem que os consumidores não buscavam por dispositivos e sim as experiências que eles podiam entregar. Com o espaço livre de tela, o celular da Apple poderia se adaptar a tarefas inimagináveis.
Ao restante das outras marcas, só havia duas alternativas: resistir ou copiar. A Microsoft, que distribuía o Windows Mobile por meio de diferentes fabricantes, optou pelo primeiro caminho inicialmente " já é um clássico o vídeo de Steve Ballmer, então CEO da companhia, fazendo piada com o iPhone porque não tinha teclado. A empresa de Bill Gates foi dizimada deste mercado em menos de uma década.
Já a Samsung preferiu se inspirar para desenvolver a linha Galaxy S, ainda hoje a única capaz de incomodar a maçã. A reação da Apple foi processar a gigante coreana em 2011 por quebra de patente ao copiar o design do iPhone "a disputa só acabou em 2018 com acordo de US$ 539 milhões pagos pela Samsung. É um marco irrefutável de como uma indústria inteira foi estabelecida a partir de um único projeto.
Internamente, o design já ocupava papel de destaque na companhia. Jony Ive, o chefe de design da empresa, reportava diretamente para Jobs, um arranjo de poder sem precedentes na indústria. Desde o lançamento do iMac, em 1998, até o fim do elo com a gigante, em 2022, o britânico era visto como o segundo homem mais importante da companhia, atrás apenas do seu fundador.
O desafio da companhia agora é manter o espírito da dupla " para uma empresa que vive de vender hardware, uma exceção entre as gigantes da tecnologia, isso será fundamental para mais meio século de atividades. O desafio foi proposto por Jobs nos primeiros anos da companhia, como lembra Isaacson:
"É preciso muito trabalho duro para criar algo simples, para compreender verdadeiramente os desafios principais e chegar a soluções elegantes".