Com novo programa, lula tenta evitar encerrar mandato com ainda mais ‘enrolados’
endividamento das famílias
endividamento das famílias
Promessa é dívida
A seis meses da eleição, o governo Lula corre para tentar reduzir o alto nível de endividamento que corrói a renda de boa parte da população. É uma tentativa de reduzir a rejeição nas pesquisas às vésperas de o presidente concorrer à reeleição e não descumprir uma das principais promessas da campanha que lhe deu o terceiro mandato.
Em 2022, o petista prometera uma saída para as famílias com dificuldades de lidar com dívidas, atacando os níveis recordes de endividamento do fim do governo de Jair Bolsonaro. Lançou o Desenrola, programa de renegociação de dívidas, no início do mandato, em 2023, mas, passados três anos, com a escalada dos juros para conter pressões inflacionárias, os números estão nos mesmos níveis de 2022, com o agravante de que a fatia da renda das famílias usada para pagar dívidas cresceu. Com o custo alto dos empréstimos, há pouco tempo para Lula apresentar avanços nessa área.
O desafio do ministro da Fazenda, Dario Durigan, é entregar soluções que gerem efeitos no curto prazo, tendo em vista a campanha para a eleição de outubro, quando Lula será cobrado sobre o tema. Os dados de endividamento acenderam um sinal de alerta no governo, que busca explicações para o mau humor dos eleitores em meio à alta da renda e à mínima histórica do desemprego.
O auge do endividamento ocorreu em julho de 2022, quando a relação entre o saldo das dívidas das famílias e a renda acumulada em 12 meses chegou a 49,9%, sem considerar o financiamento da casa própria. A taxa fechou aquele ano em 49%. Em janeiro de 2026, último dado disponível, foi de 49,7%. A fatia do orçamento familiar gasto com parcelas foi recorde: 29,3%.
Neste período, houve algum alívio. O Desenrola, que terminou em maio de 2024, surtiu um efeito momentâneo. Mas os indicadores de endividamento voltaram a subir, acompanhando a escalada da taxa básica de juros (Selic), que chegou a 15% ao ano e segue no maior nível em duas décadas mesmo com o corte recente do Banco Central (BC) para 14,75%. É só a base de um sistema financeiro que cobra taxas muito mais altas de quem pega empréstimo e usa cartão de crédito (veja no gráfico).
Um relatório do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV (FGVcemif) em colaboração com o BC mostra que o comprometimento de renda com dívidas é maior entre os mais pobres. No grupo de beneficiários do Bolsa Família, superou 30% no fim de 2024, último período analisado.
Nova estratégia
O plano em discussão no governo e com bancos é sobre um novo programa de renegociação de dívidas em atraso, uma versão simplificada e de menor duração do Desenrola, focada nas modalidades mais caras do mercado: cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia, como antecipou O GLOBO. Durigan adiantou à colunista Míriam Leitão que busca descontos de até 80% na dívida com refinanciamento do restante. Ainda está em discussão se será imposto um teto para a taxa dos novos contratos, mas essa é a tendência, dizem executivos do setor financeiro, diante de garantias que devem ser dadas pelo governo.
O programa também deve incluir algum tipo de solução para tentar evitar que as pessoas se endividem novamente. Segundo a Folha de S. Paulo, o governo cogita algum tipo de veto a apostas em bets para quem ingressar no programa e estender benefícios a pequenos empreendedores com CNPJ, como microempreendedores individuais (MEIs).
Entre os que seguem "enrolados", a sensação é de uma "bola de neve" incontrolável. O analista João Vitor Fonseca, de 40 anos, conseguiu quitar uma de suas dívidas no Desenrola, em 2024, mas o programa não funcionou para as outras e ele segue inadimplente.
" O sistema financeiro engole a gente, a ponto de você submergir em valores tão altos que impossibilitam as chances de pagamento da dívida real. Devo cerca de R$ 100 mil derivados de um valor original em torno de R$ 40 mil. Hoje tenho que comprar tudo à vista, ou pedir cartão emprestado a familiares " diz Fonseca. " Eu tinha uma dívida de dois cartões de crédito de R$ 6 mil com juros, o valor original era R$ 2 mil. Quitei pagando seis parcelas de R$ 180 pelo Desenrola, que me ajudou, mas não contemplou todas as dívidas porque tinha um período determinado considerado.
Ele diz conviver com dívidas desde que começou a trabalhar, aos 18 anos:
" Eu me deixei levar. Comecei a usar cartões em grande quantidade, limites especiais em bancos, linhas de crédito e financiamentos. Comecei a viver uma sensação de ter uma renda dez vezes maior.
O bombeiro civil Yan Teixeira, morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, também começou a usar cartões aos 18. Hoje, com 26 anos e salário de R$ 1.820, chega a comprometer até R$ 1.500 por mês com três cartões diferentes. Admite que, em alguns meses, recorre ao parcelamento das faturas com juros para não ficar inadimplente:
" Tem mês que não tem jeito, eu parcelo. Aí no outro mês já vem mais coisa, e meu medo é virar uma bola de neve.
Apesar de satisfeito com a renda fixa do emprego formal, ele diz que essa dinâmica tem frustrado seu plano de sair da casa dos pais. Sente que o ordenado "desaparece" de forma menos perceptível usando cada vez menos dinheiro vivo.
" No começo, o cartão era só pra uma coisa ou outra, mas quando vi já estava usando pra tudo " conta o jovem, que diz ter dificuldade de conter o impulso no consumo de roupas, acessórios e passeios. " Às vezes aparece uma promoção, uma viagem com os amigos, e eu acabo indo. Na hora, parece que vai dar para pagar depois. Você faz um Pix, passa o cartão, parcela... Não tem aquela sensação de que o dinheiro está indo embora. Quando você vê, foi quase o salário todo. Era pra eu conseguir guardar, só que nunca sobra. Trabalho, ganho meu dinheiro, mas não saio do lugar. Quero comprar um carro, financiar ou alugar uma casa, mas não dá. Sempre tem o cartão para pagar.
Cartão como ‘extra’
Para a especialista em crédito da Tendências Consultoria, Isabela Tavares, o governo Lula teve boas iniciativas para enfrentar o problema, como a criação do crédito consignado privado. É uma opção mais barata e estruturada de crédito, mas não disponível para quem não tem carteira assinada. Esse grupo acaba recorrendo ao rotativo quando a situação aperta. Sem educação financeira muitos veem o cartão como uma "renda extra".
" Essas pessoas não conseguem modalidades melhores porque os bancos estão mais seletivos. Acabam pegando crédito nas piores modalidades, o que vira uma bola de neve. Pagam contas (imediatas), mas não conseguem pagar o empréstimo " diz Isabela, para quem um novo programa de renegociação do governo tende a ajudar se alongar prazos e reduzir as taxas do cartão.
Clea Machado, de 66 anos, vive sozinha em Magé, no Grande Rio, com a aposentadoria de um salário mínimo (R$ 1.621), mas terá R$ 270 descontados por mês para pagar um empréstimo renegociado até 2030. A dívida começou com gastos inesperados de saúde no cartão. Em pouco tempo, perdeu o controle.
" Fui passando o cartão, quando vi já estava em quase R$ 3 mil. Aí fiz um empréstimo de R$ 5 mil. Em dois anos, tentei renegociar para pegar outro para fazer uma obra, e o banco juntou tudo. Quando eu vi, já estava devendo R$ 16 mil. O que eu já tinha pago parece que sumiu " diz a aposentada, que segue usando o cartão para fechar as contas do mês. " Parcelo tudo, arroz, feijão, o que falta. Vou dando um jeito. Mesmo enrolada, eu me organizo. Mas só a aposentadoria é pouco para viver com dignidade. (*Estagiária sob supervisão de Luciana Rodrigues)