Domingo, 12 de Abril de 2026

‘Consumidor quer se olhar no espelho e ver se ficou bom’

BrasilO Globo, Brasil 12 de abril de 2026

Entrevista

Entrevista
A C&A completa 50 anos no Brasil este ano e escolheu o Rio de Janeiro como vitrine das comemorações. O aniversário ocorre em um momento de mudanças no comportamento do consumidor e no varejo de moda. Em entrevista ao GLOBO, o CEO da companhia, Paulo Corrêa, afirma que, embora a inteligência artificial (IA) avance em provadores virtuais, a decisão de compra ainda passa pela experimentação. Ele diz que o shopping continua sendo um importante espaço de lazer para os brasileiros. Corrêa observa que o consumidor está valorizando mais a versatilidade e o conforto, e está mais à vontade para circular entre o masculino e o feminino. Essas mudanças levaram a C&A a repensar a organização de suas lojas em um novo modelo inaugurado em São Paulo, que chega ao Rio ainda neste ano.
Qual o simbolismo do Rio para a C&A nos seus 50 anos?
O Rio é importante no olhar sobre a moda. Sempre foi um lugar com muita personalidade. A mulher carioca tem essa característica interessante de adaptar a moda a seu favor. E isso tem a ver com o posicionamento da C&A. Fazemos as nossas pesquisas, entendemos o que está acontecendo em termos de comportamento e tentamos adaptar à mulher brasileira. Há também uma representação econômica da cidade para nós. Cinquenta das nossas 335 lojas estão no Rio de Janeiro.
Quais os destaques na programação de aniversário?
É uma história que vamos contar o ano inteiro. O primeiro evento exclusivo, e mais focado no Rio de Janeiro, é o Todo Mundo no Rio, com a Shakira. Vamos continuar patrocinando o Rio2C. Além disso, temos um novo modelo de loja que inauguramos em São Paulo ano passado e vamos reformular algumas das lojas do Rio no segundo semestre dentro desse modelo.
E como esse modelo se diferencia do tradicional?
O modelo foi montado a partir de um entendimento das jornadas de compra. Tivemos mudanças na forma de apresentar o produto, menos "comoditizada" e mais coordenada. Também oferecemos um nível maior de visibilidade para o produto, com menos equipamentos altos. O provador tem espelhos completos para o cliente enxergar o look de várias formas. Há também mais tecnologia. Você consegue descobrir rapidamente se a peça é oferecida em outros tamanhos.
Como levar o consumidor a sair de casa para comprar roupa hoje?
A penetração do e-commerce em países de origem latina é bem menor do que nos de origem anglo-saxônica. A mulher latina tem uma preocupação maior com o fitting do produto, o que indica um processo de experimentação mais criterioso. O fluxo nas nossas lojas tem aumentado, ano após ano. Por mais que a IA comece a oferecer simulações, o consumidor quer vestir a calça, se olhar no espelho e dizer se ficou bom. Outro ponto é que o shopping center ainda é um entretenimento importante para o brasileiro. Ir ao shopping no fim de semana é um programa. Muita gente que está passeando no shopping entra na loja e encontra algo que já tinha olhado no Instagram. As coisas vão se conectando. Você começa se inspirando em uma rede social, pula no site para saber se tem o produto na sua loja de preferência, e aí fala: vou passar lá na volta do trabalho.
Moda ainda é sobre ser fashion ou mais sobre ser funcional?
Houve nos últimos anos uma intensificação da versatilidade. Durante a pandemia, com todo mundo trancado, foi uma coisa (de moda) mais confortável. A tolerância que existia antes para uma peça desconfortável diminuiu muito. No pós-pandemia, a dinâmica da moda voltou, mas não frívola. É a moda versátil. Eu posso ir a um barzinho com essa calça jeans, sair com o meu namorado e, se precisar, posso ir ao trabalho com essa mesma peça. Dependendo do top e dos sapatos que você colocar, ela se integrará a outra história.
A divisão entre moda masculina e feminina ainda orienta as compras?
Para um grande número de pessoas, essa organização por gênero ainda gera facilidade de se encontrar produtos. Ao mesmo tempo, aumenta a fluidez entre pegar uma calça em determinada área, tida como masculina, e uma blusa na feminina. Isso tem acontecido com bastante frequência. Nosso papel é organizar a loja para a forma que as pessoas encontrem as peças mais facilmente. É menos sobre juntar gêneros no mesmo lugar e mais sobre o que tem a ver com você. A loja inteira pode ter a ver com você.
A C&A ainda se posiciona como uma marca de moda acessível?
Um ambiente inflacionário traz muita pressão para custos, e consequentemente, para os preços. A C&A sempre se posiciona como uma empresa em que a percepção de valor tem que ser a mais alta. Estamos focados em toda a população brasileira, e a maior parte dos nossos consumidores está na classe BC. Todas as classes se encontram na C&A, conhecem a C&A, compram na C&A.
Como manter custos controlados num ambiente macroeconômico conturbado?
A chave é, primeiro, encontrar fornecedores e materiais que consigam gerar produtos com percepção de valor alto. Segundo, um controle e um olhar para despesas muito criteriosos. O custo sempre foi importante, e vai continuar, dado o posicionamento da marca e da empresa. Usamos tecnologia para trazer essa percepção de valor, através de automações e de algoritmos para tomar decisões mais assertivas. E quando você tem o produto certo no lugar certo, seus custos diminuem naturalmente. Entender as preferências do consumidor para fazer uma distribuição mais assertiva dos produtos que funcionam melhor em cada microrregião ajuda muito, pois aumenta o giro dos produtos. Você não precisa dar tanto desconto, e isso permite preços mais competitivos.
Paulo Corrêa / CEO da C&A
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