Fla, flu e bota enfrentarão ‘independientes’ do continente; por que eles são tantos?
procuramos independência
procuramos independência
O Maracanã vive dias de independência nesta semana. Hoje, o Fluminense recebe o Independiente Rivadavia-ARG. Amanhã, também pela Libertadores da América, é a vez do Independiente Medellín-COL enfrentar o Flamengo. E, ainda neste mês, o Botafogo terá pela frente o Independiente Petrolero-BOL, no Nilton Santos. Coincidência no calendário, talvez. Mas também um convite a olhar para um fenômeno curioso: por que há tantos "Independientes" espalhados pelo futebol sul-americano?
Nascido como um gesto de rebeldia em Buenos Aires, o nome atravessou fronteiras e décadas até virar idioma do futebol no continente. Ora sinônimo de ruptura, ora de identidade, ora até de estratégia empresarial, com significados que mudam conforme o país, o tempo e o tipo de clube.
O adversário do Fluminense ajuda a puxar esse fio. Fundado em 1913, o clube de Mendoza adotou o nome depois de romper com a liga local. Anos depois, ao se fundir com o Sportivo Rivadavia, ganhou o sobrenome de ex-presidente argentino que carrega até hoje. Ali, o "Independiente" ainda guarda esse sentido quase original, de afirmação e ruptura.
" Havia um clube anterior, o Belgrano, que foi punido e acabou dissolvido. Parte dos jogadores fundou um novo time em 1913 e escolheu "Independiente" para marcar que se tratava de outra equipe, sem ligação com a anterior" explica Cristian Minich, historiador do clube.
rei de copas
Mas se em Mendoza o nome nasceu de uma ruptura local, foi em Avellaneda, do ladinho de Buenos Aires, que ganhou dimensão continental. Fundado em 1904 por jovens que se recusavam a pagar para jogar em um clube ligado a uma loja da região, o Independiente argentino escolheu o nome como uma afirmação literal de liberdade " a possibilidade de jogar sem depender de ninguém. Décadas depois, já transformado em potência, o clube levaria essa identidade para dentro de campo. Com sete títulos da Libertadores, virou o "Rey de Copas" e ajudou a espalhar o nome pelo continente, primeiro como referência esportiva, depois como modelo a ser imitado.
O nome cruzou a fronteira argentina e ganhou novos sentidos. O Independiente Medellín, adversário do Flamengo amanhã, não nasceu com esse nome: fundado em 1913 como Medellín Foot Ball Club, só adotaria o "Independiente" décadas depois, já no contexto de profissionalização do futebol colombiano. A mudança não está ligada a uma ruptura específica, como na Argentina, mas a um reposicionamento, junto a um momento em que o Independiente de Avellaneda já se afirmava como potência continental. Não há registro de homenagem direta, mas a influência é difícil de ignorar: o nome já carregava peso, prestígio e identidade. Em Medellín, passa a significar menos independência e mais inserção numa tradição vencedora. No Santa Fe, outro Independiente colombiano desta Libertadores, o processo foi semelhante.
Se no Medellín o nome já funcionava como selo de tradição, no Equador ele virou estrutura. O Independiente del Valle nasceu em 1958 apenas como Independiente, ainda longe de ser um dos clubes mais organizados do continente. Sem ruptura específica, como nos casos mais antigos, a escolha dialoga com esse ambiente: "Independiente" já carregava uma ideia de identidade própria e, cada vez mais, de ambição esportiva.
Décadas depois, o clube incorporou o território ao nome e virou Independiente del Valle. A partir daí, construiu um modelo de formação que extrapolou o time principal. Surgiram o Independiente Juniors, no próprio Equador, e, mais recentemente, o Independiente Yumbo, na Colômbia, ambos integrados ao mesmo grupo. Ali, a palavra que nasceu como afirmação de autonomia passa a designar justamente o contrário: pertencimento a uma rede.
Fundado em 1972, em Sucre, o Independiente Petrolero, adversário do Botafogo na Sul-Americana, une a tradição do nome a uma identidade local ligada ao setor de petróleo e gás, central na economia boliviana. A combinação carrega uma pequena contradição: ao mesmo tempo em que afirma independência, evoca um pertencimento, quase uma identidade de classe ou de atividade. É justamente aí que se vê como o nome já havia se desprendido de seu sentido original e passado a funcionar mais como linguagem do futebol do que como definição literal.
brasil e o 4 de julho
No Brasil, curiosamente, o caminho do nome foi outro. Enquanto no mundo hispânico o "Independiente" se espalhou como linguagem do futebol, por aqui ele aparece mais ligado a referências históricas diretas. O Independência, do Acre, por exemplo, de 1946, carrega no nome uma homenagem explícita à Independência do Brasil. Em BH, o estádio Independência também segue essa lógica: o nome vem do Sete de Setembro F. C., que mandava seus jogos no local e fazia referência à data da independência nacional. Mesmo quando surge de forma difusa, como no Independente do Amapá, mantém esse peso simbólico, mais próximo da história do país do que de uma tradição esportiva.
Mas é justamente no Rio que aparece a história mais improvável. Um clube hoje extinto, o Independência Atlético Clube, ligado à companhia de eletricidade de capital americano que operava na cidade " a Rio de Janeiro Tramway, Light and Power, a "Light" " adotou o nome em referência não ao Brasil, nem à Argentina, mas ao 4 de Julho e à Independência dos EUA. No fim, a mesma palavra que nasceu como gesto de rebeldia em Avellaneda ganhou o continente e, no Brasil, chegou a significar até uma outra história de independência, dessas escritas com H maiúsculo.