A mão santa que escreveu páginas eternas no esporte
OBITUÁRIO
OBITUÁRIO
Uma vida permeada por capítulos históricos com a camisa da seleção brasileira, uma carreira de jogos decisivos em meio a treino, repetição e aperfeiçoamento, uma personalidade forte e espontânea. Lenda do basquete no Brasil e no mundo, Oscar Schmidt morreu ontem, aos 68 anos. Mas as páginas que ele escreveu com seus arremessos, que renderam o apelido de "Mão Santa", são eternas na história da bola laranja.
O ex-ala não resistiu após passar mal na tarde de ontem, em Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo. Foi encaminhado ao Hospital Municipal Santa Ana já em parada cardiorrespiratória. Oscar vinha com a saúde debilitada nos últimos anos, depois de passar 15 deles enfrentando um tumor cerebral. Esteve ausente na cerimônia na qual foi incluído no Hall da Fama do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), no último dia 8. Foi representado pelo filho, Felipe, que classificou o prêmio como "último capítulo".
Para além da dimensão do basquete brasileiro, Oscar Schmidt é ícone do basquete mundial. Até 2024, era o maior pontuador da história da modalidade, com 49.737 em 1.615 jogos. Só foi superado por LeBron James, outra lenda do esporte. O apelido de "Mão Santa" veio da precisão dos arremessos de longa distância, exaustivamente treinados.
" Quanto mais eu treino, mais minha mão é santa. Minha carreira foi assim. Muito treino, muito jogo e minha esposa ao meu lado sempre, em qualquer ocasião " disse Oscar ao "Fantástico" em 2016.
Potiguar de Natal, Oscar Daniel Bezerra Schmidt deixou de lado as aspirações pelo futebol na infância e se envolveu com o basquete quando foi morar em Brasília. Em 1974, com 16 anos, se mudou para São Paulo e ingressou na categoria infantojuvenil do Palmeiras. A partir dali, deslanchou. Como profissional, passou por Palmeiras, Sírio, América, JuveCaserta-ITA, Pavia-ITA, Forum Valladolid-ESP, Corinthians, Mackezie e Flamengo " pelo qual se aposentou aos 45 anos, em 2003. Ao longo da carreira, conquistou três títulos de Campeonato Brasileiro (Sírio, Palmeiras e Corinthians), além de um mundial de clubes pelo Sírio e diversos estaduais. Ainda foi dirigente do projeto Telemar/Rio de Janeiro, campeão brasileiro de 2005.
ouro épico em 1987
O título mais marcante da carreira, porém, foi a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de 1987, em Indianápolis (Estados Unidos). Na ocasião, marcou 46 pontos numa final histórica contra os Estados Unidos e ajudou na inimaginável vitória brasileira por 120 a 115 em plena casa adversária.
Os americanos tinham nomes jovens que se tornariam talentos da NBA nos anos seguintes, como o pivô David Robinson. Mas foram surpreendidos pelos arremessos de longa distância de Oscar e companhia, nos primórdios da linha de três pontos no basquete internacional, quando tais arremessos não eram uma estratégia tática tão relevante. O baque da derrota em casa, a primeira na História, foi grande para os americanos. E ressoou no basquete mundial.
" É uma emoção muito forte, que você não consegue segurar. Eu vejo (o vídeo da vitória) todos os dias. Faço palestras da minha carreira, tenho que ver esse jogo" revelou ele em entrevista à TV Globo, em 2017.
Outro momento definidor na lenda do brasileiro foi em 1984, quando foi selecionado para atuar na NBA pelo New Jersey Nets (atual Brooklyn Nets). Foi a 131ª escolha do Draft daquele ano. Ele optou por não atuar na liga americana, uma vez que teria que abrir mão da seleção brasileira (por regras da época, que seriam abolidas em 1989) e não teria um grande contrato garantido nos EUA. Escolheu seguir no basquete europeu " três anos depois, viria o histórico Pan. Em 1978, ele já havia chamado a atenção da Universidade de Michigan State e poderia até ter atuado ao lado de Magic Johnson no basquete universitário americano.
cinco olimpíadas
A dedicação à seleção brasileira foi parte importante da carreira, com cinco Olimpíadas: Moscou-1980, Los Angeles-1984, Seul-1988, Barcelona-1992 e Atlanta-1996. Até hoje, é o maior cestinha da competição: 1.093 pontos, além de recordista em uma única partida olímpica: fez 55 contra a Espanha, em Seul.
O ala, que eternizou a camisa 14, foi o ícone de uma segunda metade de século XX da seleção brasileira " campeã mundial em 1959 e 1963. Oscar atravessou gerações e atuou ao lado de nomes como Marcel, Israel, Gérson, Maury, Pipoka e Josuel. Colecionou medalhas: além do ouro do Pan de 1987, foi bronze mundial nas Filipinas (1978), bronze no Pan de San Juan-1979, duas vezes ouro na atual AmeriCup (1984 e 1988), além de tricampeão (1977, 1983 e 1985) e duas vezes prata (1979 e 1981) no Sul-Americano. Foram 7.693 pontos em 326 jogos pela seleção brasileira.
Chegou aos Halls da Fama da Fiba e dos EUA, mesmo sem nunca ter atuado na liga americana, prova inequívoca de sua lenda.
Oscar Schmidt / LENDA DO BASQUETE, 68 anos