Tradição das ruas pintadas resiste com foco na inclusão
Anos atrás, era comum sair de casa e ver ruas, calçadas e muros pintados para a Copa do ...
Anos atrás, era comum sair de casa e ver ruas, calçadas e muros pintados para a Copa do Mundo. Embora a tradição tenha perdido força, ainda há lugares no Brasil que fazem questão de mantê-la viva. É o caso da Rua Pereira Nunes, em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, que, desta vez, decidiu promover a inclusão em meio à torcida pelo hexa da seleção brasileira.
"Sejam bem-vindos à rua mais bonita do mundo, onde a inclusão é o nosso gol de placa". A frase está pintada em um muro logo na entrada da Pereira Nunes, para quem vem do Boulevard 28 de Setembro. Mais à frente, uma arte de Marcos Mion com seu filho mais velho, Romeo, que tem Transtorno do Espectro Autista (TEA), já dá o tom da rua " o apresentador da TV Globo é uma voz ativa da causa autista. Na sequência, o personagem Pelezinho aparece ao lado de figuras que representam Pessoas com Deficiência (PcDs), reforçando a pauta da inclusão. A pintura também homenageia os 90 anos do cartunista Mauricio de Sousa.
A ideia partiu de Celso Mendes, responsável pela gestão da Galera da Pereira Nunes, onde a rua ganha as cores do Brasil desde 1978. Ele se inspirou na profissão de sua esposa, Amanda Aguiar, de 43 anos, fisioterapeuta e psicomotricista " área que integra aspectos motores, cognitivos e emocionais " e que trabalhava com pessoas autistas.
" A inclusão pode ser feita de qualquer forma, porque todo mundo gosta de futebol e curte a Copa do Mundo. E por que não incluir todo mundo de verdade aqui? " destacou o supervisor de projetos, de 48 anos.
Em 2 de abril foi celebrado o Dia Mundial da Conscientização do Autismo. No dia seguinte, segundo Celso, a rua reuniu 40 pessoas autistas, entre pais e filhos, para pintar a inclusão e iniciar os trabalhos para a Copa.
" Tivemos um encontro aqui e algumas mães atípicas vieram, crianças autistas também, desenharam a rua e o próprio símbolo da causa autista. Vendo até pelo meu lado como psicomotricista, a motricidade fina é pouco trabalhada com eles. Então, esse ato de pintar o chão, além do convívio social com outras crianças, faz bem " explicou Amanda.
" No início foi complicado. Tinha criança que queria pegar o pincel, outras que não. No final, estava todo mundo se sujando e curtindo. Foram para casa felizes e querendo voltar " completou Celso.
O próximo passo será criar, em um muro, uma bandeira do Brasil em alto-relevo: o verde com grama sintética, o amarelo com textura de areia e o azul com bolinhas de gude. A ideia é oferecer uma arte tátil para deficientes visuais e ampliar a acessibilidade.
O processo, porém, não é simples. Sem patrocínio, Celso tem promovido uma rifa para arrecadar dinheiro " os gastos apenas com tintas giram em torno de R$ 9 mil. Nada que abale a motivação do grupo.
" A melhor coisa é ver as crianças na rua. Eu faço isso ainda porque gosto de ver as crianças na rua e ver o que eu vivia antigamente. Nada foi tirado do direito da criança de brincar na rua. Então, por que a gente não pode manter essa tradição e trazer a família inteira para brincar? " questionou Celso.
projeto dá visibilidade
A Pereira Nunes representa o Rio no projeto "De Mala e Cuia", do influenciador paraibano Mizael, em parceria com o canal PodPah, que percorre o Brasil mostrando a preparação para a Copa. Hoje, às 17h, haverá um evento na rua com a participação de Mizael " adiado do domingo por causa da chuva.
A tradição segue viva também em outros pontos do estado, como na Rua Bahia, no bairro Brasilândia, em São Gonçalo " com direito a uma arte do cachorro caramelo. A iniciativa partiu de Beatriz Christani, empresária de 30 anos, que enfeita a rua desde os dez. A única Copa sem decoração foi a de 2018 " reflexo do 7 a 1 de 2014.
" Esse ano a galera não estava muito animada, mas aí fui lá, fiquei insistindo e fiz um mocotó pra vender. A gente divulgou e conseguimos vender para dar o passo inicial de comprar as primeiras tintas. Só que, nessa divulgação, nós conseguimos um rapaz que doou a maioria das tintas. A gente vai um dia, pinta um pouquinho, faz um cachorro quente, uma pipoca, e depois pinta mais um pouco. Não dá para fazer tudo no mesmo dia " explicou.
A dificuldade tem sido engajar jovens e adolescentes, que ainda não entraram no clima. Faltando 40 dias para a estreia do Brasil nos EUA, ainda há tempo.