Lunes, 11 de Mayo de 2026

Cidade russófona da estônia resiste à pressão de moscou

BrasilO Globo, Brasil 11 de mayo de 2026

fronteira entre dois mundos

fronteira entre dois mundos
O prédio neoclássico da estação de trem conserva símbolos do passado soviético: a tocha, as duas bandeiras e a estrela, um enorme contraste com os trens europeus. Quando suas portas abrem, o vento gelado do Báltico entra, junto com o anúncio, em língua russa: "Estação Narva". Estamos na cidade onde a Otan, a União Europeia (UE) e a Estônia são separadas da Rússia apenas por um rio, com cerca de 100 metros entre as margens.
A viagem não foi por acaso: em fevereiro, um canal do Telegram, com centenas de seguidores, proclamou a chamada "República Popular de Narva" (NPR, na sigla em inglês), numa referência direta aos movimentos separatistas na Ucrânia apoiados por Moscou em 2014. A notícia correu o mundo e reacendeu temores sobre um novo foco de tensão entre Rússia e Otan. É mesmo uma cidade prestes a explodir ou, como suspeitam os próprios moradores, trata-se de uma narrativa fabricada para ser amplificada? O fato é que Narva tem 800 anos, foi destruída e reconstruída por impérios, e hoje tenta, em silêncio, inventar o próprio futuro.
passaporte cinzento
Narva tem uma história recente duríssima. Em março de 1944, uma centena de bombardeiros soviéticos reduziu a escombros uma das mais belas cidades barrocas da Europa em dois dias. Os moradores o não puderam retornar e, em seu lugar, vieram trabalhadores transferidos de toda a União Soviética, unidos pela língua russa, não pela nacionalidade. A cidade, que era 65% estoniana em 1934, tornou-se 95% russófona em 1989. Quando a Rússia fala em "proteger os russos de Narva", refere-se a uma população multiétnica que os soviéticos colocaram ali após bombardear a cidade que existia antes.
" Se você recuar três ou quatro gerações, encontra uma imagem muito mais rica " diz ao GLOBO Martin Tikk, de 29 anos, líder comunitário que trabalha com integração educacional.
Ele se refere à origem da população russófona da cidade: não são russos étnicos, mas soviéticos de várias procedências " ucranianos, armênios, bielorrussos " a quem a língua deu uma identidade aparentemente homogênea.
" Com o tempo, todos foram assimilados. Agora parece que são todos russos - afirma.
A cidade tem várias organizações culturais representando grupos diferentes, mas os passaportes contam outra história: metade dos moradores tem cidadania estoniana, um terço passaporte russo e o restante carrega o chamado "passaporte cinzento", um documento de apátrida que virou símbolo de uma geração presa entre dois mundos.
Martin trabalha numa escola que ele chama de "a embaixada informal da Estônia" em Narva. A frase é dita com orgulho, mas com consciência do desafio. Numa cidade onde 90% da população é russófona, todos os conteúdos são hoje ministrados em estoniano " o russo é mantido como disciplina optativa.
" Tentamos preservar os dois " explica. " Os jovens não têm suporte na língua materna: quando saem da escola, é russo nas ruas, nas lojas e em casa. E se você perguntar quem eles são, a resposta surpreende. Não dizem que são russos, nem estonianos. Afirmam: "sou de Narva."
Ponte fechada
Da estação de trem até o centro, onde fica a Ponte da Amizade, que liga a Estônia à Rússia, são 15 minutos de caminhada. No sentido oposto, está o bairro de Kreenholm, com prédios soviéticos desgastados da era Kruschev (1953-1964), o abandonado Palácio Cultural Gerasimov e os resquícios da gigantesca Manufaktur, complexo têxtil falido em 2010, que contrastam com espaços culturais em renovação.
O hospital da cidade ainda mantém a inscrição em russo imperial na fachada. A construção de 1913 reúne marcas do czarismo, da era soviética e do "mundo europeu". A poucos quarteirões, a Catedral da Ressurreição segue em funcionamento. É um lembrete incômodo: a Igreja Ortodoxa Russa, instrumento histórico de influência do Kremlin, opera livremente dentro da UE, frequentada por uma população russófona que reza em russo " mas não quer ser salva por Moscou.
Em setembro de 2025, a canadense Neo Performance Materials inaugurou a primeira fábrica europeia de ímãs de terras raras em Narva e investiu € 18,7 milhões do Fundo de Transição Justa da UE. Para quem trabalhou por gerações na extração de xisto betuminoso " e conviveu com uma instalação secreta soviética ligada ao setor nuclear " é um recomeço significativo.
Na Avenida Pushkin, no popular Oven Café, o russo domina, mas com sotaque estoniano e palavras da língua local que escapam naturalmente. O menu e as conversas fazem a cidade parecer distante da UE.
Já no posto de fronteira, as contradições ficam visíveis. A Rússia tenta instrumentalizar os russófonos de Narva como compatriotas oprimidos, mas são eles que fazem fila para cruzar, e sem abrir mão da cidadania europeia. Sem revelar o nome, preocupada se está sendo observada, olhando para os lados enquanto puxa uma amiga pelo braço, uma senhora fala sobre as mudanças:
" Entendemos o fechamento da fronteira, mas boa parte da nossa vida está em Ivangorod, na Rússia, onde compramos e vendemos produtos e visitamos parentes. Íamos a cada dois dias, agora, uma vez por mês. Mas ninguém cogita, aqui ou no restante da Estônia, apoiar qualquer ação russa. Lá eles vigiam tudo. Aqui, mandamos em nossas vidas.
Pego o celular para gravar um vídeo, mas rapidamente dois agentes se aproximam. Educadamente, identificam-se e pedem que eu faça o mesmo. Quando mostro a credencial de jornalista, sorriem e pedem prudência. Um deles aperta minha mão e diz:
" É importante vir e contar nossa história. Essa é a diferença entre este lado e o outro: aqui você pode trabalhar.
Coberta por grades, a Ponte da Amizade liga Narva a Ivangorod. De um lado, o Castelo de Hermann, estoniano, e a promenade, que virou atração turística. Do outro, a Fortaleza de Ivangorod, sem grande apelo visual. A cidade fica a 150 km de São Petersburgo.
Na escola de Martin, um grupo de alunos dança uma música folclórica estoniana. Martin, de Tartu, fala do evento com satisfação discreta, afinal, a integração é algo recente. Ele fala russo, estoniano e inglês por necessidade profissional " mas o russo que aprendeu é mais sofisticado do que o dos locais.
Narva tem acesso irrestrito aos canais de TV russos, banidos na UE: são 20 canais digitais gratuitos, sustentados por bilhões em financiamento estatal russo, contra um único canal público estoniano em língua russa, a ERR. Sergei Stepanov, um dos editores, encontra este repórter em frente à sede de Narva. Ele conversa em inglês, com sotaque russo carregado, e inicia um tour pela redação, onde os jornalistas conversam em russo.
" É como lutar sozinho contra uma divisão de tanques - diz ao GLOBO.
Ele lembra que foi na pandemia que o equilíbrio mudou. A TV russa minimizava o vírus, enquanto a estoniana transmitia ao vivo as coletivas do governo. Os moradores de Narva descobriram onde encontrar informação útil e, hoje, o canal é o mais assistido entre os russófonos. Sobre a "República Popular de Narva" (NPR), Stepanov é direto:
" Se a Rússia invadir, 99% dos moradores vão defender a Estônia. Não porque amam o país mais do que a Rússia, mas porque viram Mariupol [na Ucrânia] " explica, mencionando a cidade ucraniana devastada pelos russos após a invasão iniciada em 2022. " E [também] porque aqui é pensão é de € 900. Lá, € 120.
teste concluído
De Tallinn, a capital estoniana, Kadri Peeters acompanha tudo. Subsecretária de Estado responsável pelas capacidades militares do Ministério da Defesa há mais de 20 anos, ela não esconde a impaciência com o episódio da NPR.
" Narva é supermistificada " diz. " Ao transformar isso num problema, a resposta se torna desproporcional e alimenta a narrativa russa.
Para ela, a estratégia é simples: provocar, esperar a reação e usar esta reação como uma prova.
" O que a Rússia faz bem é usar atos de baixo custo [para eles] com o objetivo de nos tornar frágeis. Às vezes, a melhor resposta é não responder. Narva é Estônia. Tratamos assim. Não há questão " afirma.
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