Remoção de tatuagens permite novo começo a vítimas de tráfico sexual
Quando Melody Montemayor era vítima de tráfico humano, seu cafetão a marcou. Seu nome e um ...
Quando Melody Montemayor era vítima de tráfico humano, seu cafetão a marcou. Seu nome e um cifrão foram tatuados na nuca dela, seu lema, "nunca sob pressão", gravado no pulso, e "propriedade de" escrito na lateral de sua barriga. Quase 15 anos depois, após descobrir uma lista de programas gratuitos de remoção de tatuagem, ela encontrou um dermatologista disposto a ajudá-la. Ao longo de 11 consultas, viu as marcas desaparecerem lentamente e, com elas, a vergonha que carregava há tanto tempo. Foi "uma sensação de redenção", disse Melody, como se estivesse voltando a ser ela mesma.
" Eu era uma mercadoria. Não uma pessoa " afirmou a mulher, de 38 anos, que agora mora em Ponder, no Texas. " Eu era comprada todos os dias e várias vezes ao dia.
Um estudo de 2022 com sobreviventes de tráfico sexual mostrou que cerca de metade relatou ter "tatuagens de marcação". Para apoiar a recuperação das vítimas, dermatologistas passaram a oferecer serviços gratuitos de remoção.
Armadilha psicológica
Embora raramente sejam os primeiros médicos a atender esses pacientes, o trabalho lhes proporcionou uma visão única sobre as maneiras pelas quais o tráfico sexual se manifesta no corpo, explicou Shadi Kourosh, professora de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Harvard, que oferece remoção gratuita de tatuagens a sobreviventes.
Para Melody, escapar do traficante não significava sentir-se segura. Havia uma recompensa de US$ 50 mil (R$ 257 mil) por sua cabeça, disse ela, que estava apavorada com a possibilidade de as tatuagens a denunciarem. Por quase dois anos, se escondeu em uma casa no meio do nada, raramente saindo de lá.
Remover as marcas foi uma maneira de silenciar seus medos e mudar o rumo de sua vida. Ela ainda não havia conhecido seu marido, mas não se via em um relacionamento.
É difícil quantificar a dimensão do tráfico sexual nos EUA. Em 2020, a Linha Direta Nacional de Tráfico Humano recebeu ligações de cerca de 11 mil vítimas, embora o número real provavelmente seja maior, afirmou Abigail Judge, psicóloga clínica do Hospital Geral de Massachusetts.
Tatuagens estão entre os sinais mais visíveis do tráfico sexual. Em geral, funcionam como uma linguagem de posse e controle, de acordo com Paul Friedman, ex-presidente da Sociedade Americana de Medicina e Cirurgia a Laser. Algumas estão em locais bem visíveis, como pescoço, mãos e rosto, enquanto outras aparecem nos seios e genitais. Especialistas dizem que elas servem para indicar, tanto a clientes quanto a cafetões rivais, a quem a vítima responde.
Kathy Givens, sobrevivente do tráfico humano de Houston, foi informada de que sua tatuagem era um ato de amor. Seu traficante apontou para outras mulheres que haviam feito homenagens aos namorados e disse que o nome dele precisava estar em algum lugar nela.
Ela se sentiu quase eufórica depois de tatuar o nome dele nas costas, supondo que ele ficaria orgulhoso. Só mais tarde, quando estava sendo traficada, viu todas as outras mulheres com o mesmo nome no pescoço, braços e peito.
" Percebi rapidamente que eu não era nada especial " disse ela, que comanda uma organização sem fins lucrativos para apoiar outras sobreviventes.
Do ponto de vista técnico, a remoção é simples. Os médicos usam lasers para aquecer a tinta e quebrá-la em minúsculos pedaços, facilitando a eliminação dos resíduos pelo sistema imunológico, explica Kristel Polder, dermatologista de Dallas. É um processo mais lento e doloroso do que fazer uma tatuagem, com sessões realizadas em intervalos de um ou dois meses. Para marcas simples, a remoção pode levar de três a quatro sessões, mas as mais complexas exigem até 12 turnos.
Muitas sobreviventes relatam que o procedimento vale a pena, especialmente na busca por emprego, moradia ou novos relacionamentos.
" A vida que levo agora não combina com uma tatuagem de "propriedade de" e um grande símbolo de cifrão " disse Melody, que voltou para a faculdade para concluir a graduação e obter seu diploma em serviço social.
Vítimas do tráfico sexual frequentemente passam por prontos-socorros " um estudo constatou que 88% das sobreviventes buscaram atendimento enquanto eram exploradas. A maioria, no entanto, jamais é identificada. Em uma pesquisa de 2022, a maior parte dos profissionais de saúde afirmou nunca ter recebido treinamento para reconhecer os sinais de tráfico humano.
Cicatrizes visíveis
Melody frequentemente entrava e saía do hospital com infecções graves nos rins e na bexiga. Mas não sabia como contar à equipe o que era forçada a fazer. E temia o que aconteceria se contasse.
" Lembro de chorar, pedir ajuda e dizer que estava com dor " revelou, explicando que não se sentia segura.
Ela chegou cautelosa e na defensiva em sua primeira consulta de remoção de tatuagem. Mas, com o tempo, se abriu e ajudou Polder a entender melhor como o tráfico de pessoas molda e marca o corpo das sobreviventes.
As experiências levaram os médicos a tornarem a remoção de tatuagens mais acessível às vítimas. A Sociedade Americana de Medicina e Cirurgia a Laser, por exemplo, mantém um diretório com cerca de 100 profissionais que oferecem remoção gratuita, embora esteja longe de ser um número suficiente para atender à toda a demanda.
Alguns também compartilham o que aprenderam com outros médicos. Kourosh, por exemplo, ministrou palestras para plantonistas e profissionais de atenção primária sobre feridas, cicatrizes, infecções e tatuagens que podem sinalizar tráfico. Em parceria com a Academia Americana de Dermatologia, ela também desenvolveu um conjunto de ferramentas e um aplicativo para ajudar médicos a reconhecerem vítimas de tráfico humano precocemente. Ainda este ano, a Associação Médica Americana lançará um curso de treinamento que Kourosh ajudou a desenvolver.
A esperança é que, com mais recursos e treinamento, os profissionais possam oferecer um espaço seguro e sem julgamentos para que as vítimas se sintam à vontade para se abrir, quando estiverem prontas.
Hoje, quando Melody olha para a própria pele, não vê mais a marca do traficante em seu corpo, mas um a nova vida.
" A cura é possível, a ajuda é possível " disse.