Viernes, 22 de Mayo de 2026

Há um conflito crônico de interesses

BrasilO Globo, Brasil 22 de mayo de 2026

"As persistentes distorções remuneratórias do setor público brasileiro são um problema ...

"As persistentes distorções remuneratórias do setor público brasileiro são um problema fiscal, distributivo e institucional. Pelo menos R$ 25 bilhões são gastos por ano com pagamentos acima do teto constitucional, de R$ 46,3 mil mensais. O problema se concentra em uma pequena elite burocrática, sobretudo juízes, membros do Ministério Público e advogados públicos.
A gravidade do quadro aumenta porque a estratégia típica para ultrapassar o teto consiste em transformar remuneração em indenização. Sobre essas parcelas, que correspondem à maior parte dos rendimentos, não incidem Imposto de Renda e contribuição previdenciária. Com isso, servidores que recebem perto de R$ 100 mil mensais podem pagar alíquotas efetivas menores do que trabalhadores que ganham um décimo desse valor; bilhões deixam de entrar nos cofres públicos em virtude dessa ‘sonegação branca’.
Há um conflito crônico de interesses: corporações de elite propõem, aprovam, interpretam e fiscalizam regras que regulam seus próprios salários. Com essa arquitetura, discutir a natureza jurídica de cada penduricalho apenas deslocará o problema de uma rubrica para outra.
A reversão do quadro exige reformas estruturais. Primeiro, criar uma instância independente de governança remuneratória, formada por especialistas e técnicos sem vínculos com as carreiras beneficiadas, com competência para propor parâmetros gerais, monitorar o teto e recomendar sanções.
Segundo, resgatar a autoridade do teto, superando a falsa dicotomia entre remuneração e indenização. Tudo o que representa acréscimo patrimonial regular deve estar sujeito ao limite, sem exceções. Também é necessário alinhar as remunerações das elites burocráticas à realidade brasileira e aos padrões internacionais. O teto não é baixo; baixo é o salário da maioria dos servidores e da população que financia o Estado.
Terceiro, punir desvios. Sem responsabilização, há incentivo para que novas carreiras busquem seus próprios atalhos. O pagamento de penduricalhos sem base legal deve gerar consequências para órgãos e gestores. Também é indispensável vedar fundos, honorários e mecanismos que carimbem receitas públicas para fins remuneratórios fora do Orçamento.
O enfrentamento dos supersalários exige uma ampla coalizão em defesa da alocação dos recursos públicos para endereçar os problemas mais crônicos, e não para melhorar ainda mais a vida de quem já está no topo."
SERGIO GUEDES-REIS é cientista político, pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego
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