Investidores do norte e do nordeste mudam a cara do tesouro direto
Em Rio Branco, no Acre, a professora universitária Ana Maria Barreto, de 42 anos, ...
Em Rio Branco, no Acre, a professora universitária Ana Maria Barreto, de 42 anos, costumava guardar seu dinheiro na poupança, seguindo o hábito herdado dos pais. Só mudou de estratégia depois de conhecer o Tesouro Selic, título público mais simples entre as modalidades disponíveis na plataforma do Tesouro Direto e que é frequentemente usado para formar reserva de emergência, garantindo segurança e liquidez.
" Sempre achei que Bolsa e Tesouro fossem coisas para quem tem muito dinheiro em São Paulo. Quando vi que podia investir com R$ 10, percebi que eu daqui no Norte também posso aproveitar " diz Ana Maria, que se deparou com o investimento ao explorar o aplicativo do banco. " Já era familiarizada com alguns termos e consegui entender como funcionava o Tesouro Selic com algumas pesquisas. Não sei muito, mas tenho noção de que o momento é favorável para o título por causa da alta na taxa básica de juros.
Ana Maria faz parte da estatística de uma região onde o acesso ao mercado de capitais tem avançado consideravelmente: o número de investidores do Tesouro Direto no Acre subiu 17,1% nos últimos 12 meses, a segunda maior alta da região. A primeira ficou com Rondônia, que lidera o crescimento nacional, com 18,9%. Um ano antes, o crescimento nos estados havia sido de 8,1% e 9,2%, respectivamente. A média nacional está em 15,2%.
" O Tesouro Selic abriu as portas aqui em casa. Logo depois a gente começou a investir no Educa+ e no RendA+. Por enquanto é o máximo que a gente consegue arriscar " diz Ana Maria.
Os títulos citados pela professora são voltados para objetivos concretos, como a formação universitária (Educa+) e a previdência complementar (RendA+).
Maior educação financeira
Dono de uma loja de ferragens em Juazeiro, na Bahia, Francisco Arrais, de 38 anos, migrou parte do seu dinheiro para o Tesouro IPCA+ para se proteger da inflação:
" A primeira vez que ouvi falar do Tesouro Direto foi no Jornal Nacional. À época, eu já procurava uma previsibilidade que o comércio, por si só, não entrega. Ser garantido pelo governo e ter a possibilidade de retirada para daqui a 20 anos tornou ele mais interessante para mim. Queria colocar esse dinheiro em um lugar e esquecer.
Arrais é um dos novos rostos dos investidores do Nordeste, onde a base de CPFs ativos no Tesouro Direto saltou de 214 mil para mais de 482 mil em quatro anos. A Paraíba, com aumento de 17,2% no último ano, manteve a liderança da região em todo o período.
Os números do Balanço do Tesouro Direto (BTD) de março de 2026 confirmam que o movimento de interiorização do programa tem se tornado cada vez mais célere. A quantidade de investidores no Norte e Nordeste, juntos, saltou 125% em quatro anos, superando com folga o ritmo de crescimento nacional, que não chega a 100%.
" Esse movimento mostra que a distribuição dos investidores caminha para ficar mais parecida com a distribuição da população do país e, felizmente, educação financeira e investimento estão deixando de ser um tema restrito ao Sudeste " avalia o novo secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal.
O Sudeste ainda concentra o maior volume financeiro absoluto, herança de décadas de centralização bancária, mas o vigor das novas adesões mudou de endereço. O Norte avançou 15,7% em 12 meses, e o Nordeste, 15,4%, ambos à frente do Sudeste, com 11,7%, o menor índice entre as cinco regiões brasileiras.
Analisando essa mudança de eixo, Pierre Oberson, professor de finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), pondera, no entanto, que o crescimento maior nessas regiões "não quer dizer que agora tem mais investidores no Norte e Nordeste investindo em títulos do Tesouro do que tem, por exemplo, em São Paulo". Ele ressalta que Norte e Nordeste são lugares onde historicamente há menos investidores de modo geral.
Para Oberson, o fenômeno reflete o sucesso das políticas de democratização do programa, que removeu atritos práticos para o investidor iniciante:
" Esse crescimento mostra que algumas iniciativas por parte do Tesouro estão tendo efeito nessa democratização do investimento, permitindo aplicações com valores menores e sem tantas fricções. Hoje, em dois ou três cliques no celular, a pessoa já consegue fazer algum aporte.
A barreira de entrada também diz respeito ao valor dos aportes. Com títulos que permitem aplicações inferiores a R$ 10, o Tesouro Direto passou a competir diretamente com produtos bancários tradicionais de baixa rentabilidade e alta taxa de administração.
Esse movimento ganha tração extra com a atual conjuntura macroeconômica. O professor da FGV aponta que a dinâmica de migração da poupança é acentuada quando os juros estão elevados, pois o retorno se torna mais perceptível para quem guarda pequenas quantias:
" Quando a gente tem juros baixos e a pessoa olha que o volume de investimento dela vai ser pequeno, o retorno em termos nominais (sem descontar a inflação) não tem muito efeito no bolso. Já com juros mais altos, na casa de 13%, 14% ou 15% ao ano, mesmo um investimento pequeno acaba tendo um efeito mais interessante. Muita gente percebe que a poupança não dava retorno e que hoje existem opções melhores.
Aumento entre mulheres
No topo do ranking de crescimento do Tesouro Direto estão estados que raramente figuravam entre os perfis de investidores, como Rondônia (18,9%), Paraíba (17,2%) e Piauí (17,1%), bem à frente de Distrito Federal (13,6%) e Rio de Janeiro (13,5%), reforçando a tese de que o potencial de expansão agora reside no interior e nas capitais fora do eixo tradicional.
" Quando o capital das famílias nortistas e nordestinas é aplicado em títulos públicos, há uma circulação da renda pelo país de forma mais justa, significa que as opções estão chegando para todos " diz a analista de macroeconomia da Investsmart, Sara Paixão, que cita ainda o perfil demográfico. " Há uma evolução constante na participação feminina, que vê no Tesouro Direto uma plataforma segura para a gestão do orçamento.
Além disso, o acompanhamento do tíquete médio de investimento sinaliza que o programa está indo na direção do seu público-alvo: quem entra agora é o pequeno poupador, que busca construir reservas, não apenas o grande rentista que busca diversificação. No último ano, o tíquete médio caiu de R$ 1.230 para R$ 901.