Sábado, 13 de Junio de 2026

Constrangimento

BrasilO Globo, Brasil 29 de mayo de 2026

Fernando Kallás

Fernando Kallás
A gestão da volta de Neymar à seleção brasileira é um desastre. Ontem falei com colegas jornalistas da Espanha, Itália, Alemanha, Inglaterra e até África do Sul, todos intrigados com essa história muito mal contada sobre a lesão e a comunicação (ou falta de) entre Santos, CBF e jogador, que acabou criando essa novela constrangedora. É um escândalo e compromete o pouco que resta da reputação e credibilidade da maior seleção do mundo.
Isso porque prefiro nem falar do Santos. As declarações do médico da seleção brasileira ontem revelam uma verdadeira aberração vinda de lá, uma falta de respeito com a história do clube do Pelé e sua torcida.
O pior disso tudo é que é uma simples questão de discurso, de coerência. O Dorival, por exemplo, falava abertamente que ia construir a seleção em torno do Neymar. Que a vaga dele era cativa. Você e eu podemos concordar ou não, mas a decisão era dele.
Várias seleções estão levando jogadores lesionados para a Copa. O campeão do mundo Lionel Scaloni, inclusive, esperou até ontem para anunciar os convocados da Argentina porque está cheio de jogadores com problemas físicos e quis esperar o máximo possível para poder analisar caso a caso.
Luis de la Fuente é o treinador da Espanha, a atual campeã europeia e provavelmente melhor seleção do mundo nos últimos dois anos. Ele falou abertamente que pode poupar três de seus jogadores, Mikel Merino, Nico Williams e a estrela, Lamine Yamal, do jogo de estreia para que eles se recuperem das lesões que sofreram durante a temporada de clubes.
" Se for preciso ir buscar o Merino no colo, eu vou! Eu vou esperar o tempo que for. Ele representa os principais valores da nossa seleção... Acredito que todos eles poderão estar prontos para o primeiro jogo, mas vamos avaliar se vale a pena que joguem. Assumiremos os riscos necessários de uma Copa do Mundo, mas nosso foco está muito além da estreia " disse De la Fuente em um café da manhã com jornalistas na terça-feira.
Argumentos expostos com claridade e transparência. Ele é o treinador e tem direito de definir seus critérios. Isso acaba com qualquer polêmica antes mesmo de começar.
Ancelotti, inclusive, tem um caso muito similar que é o do Danilo, do Flamengo: ele assumiu abertamente que vai levá-lo muito mais pelo seu papel como líder.
A incoerência, no entanto, começa quando ele cai em contradição ao tratar Neymar da mesma maneira ao dizer que não seria o caso.
" A decisão será 100% profissional. Levarei em conta apenas o seu desempenho como jogador de futebol. Isso vale para todos os jogadores, exceto um: Danilo, que pode me ajudar tanto dentro quanto fora de campo. Mas, para todos os outros, trata-se de uma decisão puramente futebolística " Ancelotti me disse menos de uma semana antes da convocação, quando perguntei se a decisão de levar o Neymar seria feita pelo momento ou por seu legado.
Ancelotti é um mestre em se esquivar de crises e apagar incêndios, e será interessante escutá-lo amanhã antes do amistoso contra o Panamá, quando todos esperamos entender melhor tudo o que está acontecendo.
Mas na mesma entrevista que me deu há uns dias, ele disse não se preocupar com o ruído externo e que não achava que a presença de Neymar seria uma distração.
Porém, ontem, ninguém menos que Casemiro, um dos mais experientes desse time, ficou visivelmente incomodado em sua coletiva por ser bombardeado com perguntas sobre Neymar. O que ele imaginava? Perguntas sobre a defesa do Panamá?
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