Jueves, 04 de Junio de 2026

Os ecos da passagem da seleção brasileira por weggis, 20 anos depois

BrasilO Globo, Brasil 4 de junio de 2026

Duas décadas se passaram, e o fantasma de Weggis, palco da caótica preparação considerada ...

Duas décadas se passaram, e o fantasma de Weggis, palco da caótica preparação considerada símbolo do fracasso da estrelada seleção na Copa de 2006, segue no imaginário popular e como um trauma para a CBF.
Tanto que a fase de treinamento da seleção nos EUA para o Mundial deste ano contará com atividades fechadas " com exceção da de ontem, para cumprir obrigação da Fifa " e um hotel "totalmente operacional, diferentemente de outras épocas em que se buscavam resorts e hotéis luxuosos", como bradou o diretor esportivo da CBF, Rodrigo Caetano, na convocação, no mês passado.
Um clima bem diferente da jornada de 12 dias na pacata comuna suíça, marcada pela superexposição, treinos abertos, oba-oba e cuja imagem-símbolo foi a de uma torcedora invadindo o campo para abraçar Ronaldinho Gaúcho.
Estava em uma viagem de férias e, coincidentemente, passaria por Weggis no dia seguinte à fala de Caetano. A paixão pelo futebol falou mais alto. Precisava andar pela cidade. Ver se havia algum resquício daquela tumultuada passagem da seleção, que virou do avesso a pacata comuna na Suíça, de cerca de 4 mil habitantes. Vai que esbarro com algum suíço na faixa dos 20 anos com uma dentição proeminente…
O lugar é pacato mesmo. Nenhuma vivalma na rua na fria tarde suíça, a não ser turistas passeando à beira do Lago Lucerna. Após uma caminhada de quase meia hora até a Thermoplan Arena, onde o Brasil treinou, enfim a primeira referência à seleção: um pôster com uma foto em tamanho real do time brasileiro, não do Mundial de 2006, mas da Copa das Confederações de 2005.
"Lembrança do CT da seleção brasileira para a Copa do Mundo de 2006 " Um acontecimento marcante durante o período de treinamento da campeã mundial, de 23 de maio a 3 de junho de 2006, com 112.500 visitantes em 12 dias", dizia o painel.
Bem em frente ao campo, os primeiros moradores avistados. Um casal na faixa dos 60 anos cuidando do jardim. Essa parte da Suíça fala alemão, mas fomos lá tentar puxar assunto. A senhora mostrou se virar bem no inglês, enquanto o senhor, mais tímido, ficou na dele, cuidando de suas plantinhas. Perguntei se já moravam ali na época da passagem da seleção. A senhora abriu um sorrisão nostálgico:
" Sim! " disse, começando a apontar as diferenças na estrutura: " Esse prédio não existia, mas fizeram arquibancadas provisórias. Isso aqui ficou um caos! A rua ficava lotada. Foram dias agitados!
Quando perguntei se tinham guardado recordações do período, alguma foto com jogadores, a senhora chamou o marido, que entrou em casa e voltou com um sorriso de orelha a orelha e uma pasta cheia de recortes de jornal, revista e até um ingresso para um treino.
O casal era Alice, de 65 anos, e Alfred Stöck, de 68, fazendeiros " hoje aposentados " que, na época, chegaram a dar entrevistas e ganhar notoriedade, já que a casa deles era a mais próxima do centro de treinamento. E também por uma história curiosa envolvendo 300 porcos.
" Na época, eu tinha muitos porcos. Pediram para tirá-los daqui. Temiam que o cheiro atrapalhasse os jogadores " explicou Alfred, se divertindo ao exibir um jornal da época com uma reportagem sobre o assunto, com uma foto sua ao lado de um porco. Na ocasião, ele recebeu 9 mil francos suíços (cerca de R$ 15 mil na cotação da época) para privar os animais de conhecer Ronaldo, Kaká e cia.
A casa tinha realmente uma vista privilegiada. O segundo andar dava para todo o campo. Perguntei se eles ficavam assistindo aos treinos. Como bons suíços, porém, preferiram lucrar.
" Aproveitamos para vender cachorro-quente, hambúrguer, salsichão " contou Alice. " Essa rua ficava cheia de barraquinhas.
Sobre o dia a dia da seleção, eles contaram que as ruas em volta do CT eram fechadas e, às 6h da manhã, cerca de 200 pessoas da organização e da seleção já apareciam no local. Um cenário inimaginável para hoje em dia.
Por fim, perguntei se até hoje muita gente aparece por lá para ver por onde passou a seleção brasileira.
" Até alguns anos atrás, vinham caravanas, principalmente com brasileiros. Depois da pandemia, isso acabou " conta Alice.
Vinte anos depois, a passagem da seleção brasileira por Weggis sobrevive. Em um painel e na memória e nos recortes de jornal de um simpático casal.
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