Tarifa cai e põe o brasil na rota dos vinhos europeus
Dos vinhos tintos de Bordeaux e da Toscana aos rótulos do Douro e do Alentejo, terroirs ...
Dos vinhos tintos de Bordeaux e da Toscana aos rótulos do Douro e do Alentejo, terroirs franceses, italianos e portugueses começam a ganhar ainda mais espaço no Brasil, um dos países com maior potencial de crescimento do setor. A mudança é reflexo do acordo entre União Europeia (UE) e Mercosul, que reduziu, em maio, a alíquota de importação de 27% para 24% e prevê uma queda gradual, até zerá-la em 2034. Importadoras já relatam um maior apetite das vinícolas europeias, que prometem acirrar a disputa com rótulos da Argentina e do Chile à mesa dos brasileiros.
Os primeiros efeitos nos preços devem ser sentidos nos próximos três meses, quando os estoques atuais forem substituídos por produtos com menor taxação e, sobretudo, câmbio mais favorável. Estima-se uma redução de preços de até 10% para o consumidor, patamar que deve turbinar as vendas até o fim do ano, principal período de compras. A projeção é que o setor registre alta geral de 2% a 4% nas vendas em 2026.
O maior interesse ocorre em um momento de alta de 12% em valor nas importações de vinhos europeus de janeiro a abril, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).
No Grupo Wine, uma das maiores empresas de vinhos do Brasil, o interesse aumentou já no ano passado. Segundo Alexandre Magno, CEO da companhia, as vinícolas estrangeiras que saírem na frente ganharão espaço no mercado brasileiro:
" A Europa vem sofrendo muito com a retração do mercado chinês e com a instabilidade nos Estados Unidos, onde há tarifas elevadas para os produtos, o que afetou as exportações europeias. Com isso, há um estoque maior de produtos da Europa, e eles estão procurando países onde há potencial de crescimento e um mercado em evolução, como o Brasil.
Ao mesmo tempo, Magno ressalta que a companhia vem reforçando o contato com novos fornecedores da Itália e da França:
" Esperamos um aumento de 5% neste ano na importação de rótulos europeus, o que deve se refletir em um crescimento de 5% nas vendas. Os preços vão cair nos próximos meses, com a substituição dos estoques. Se o câmbio permanecer no atual patamar mais baixo e a situação no Oriente Médio se normalizar, veremos reduções no varejo que podem chegar a 10% nos rótulos europeus.
Portugal passa Argentina
Isso tende, dizem as empresas, a elevar a fatia dos importados, que hoje respondem por 35% do consumo no país, enquanto os nacionais detêm 65%. Da fatia de importados, os europeus hoje já entregam 42,4% das garrafas, mas Chile (38,4%) e Argentina (16,4%) respondem juntos por mais da metade dos vinhos que chegam de fora. A expectativa das importadoras é que, impulsionados pela maior disputa com os europeus, os estrangeiros cheguem a 2034 com metade do mercado brasileiro.
Malu Sevieri, diretora da ProWine São Paulo, também ressalta a maior procura dos europeus, incluindo companhias que antes não eram atendidas pela importadora. Ela afirma que as empresas estão interessadas em participar de eventos para entender melhor o mercado brasileiro:
" A demanda já aumentou bastante. Os importadores estão ampliando seus portfólios. O Brasil passou a ganhar protagonismo e hoje é prioridade para esses produtores.
Para executivos do setor, o acordo com a UE aumentará a competição com os vinhos argentinos e chilenos, que também devem iniciar estratégia mais agressiva de preços. Dados do Mdic apontam que os rótulos de Portugal novamente se mantiveram acima dos da Argentina neste ano.
André Martins, diretor de Expansão e Novos Negócios do restaurante Pobre Juan, com 23 unidades no país, aposta em queda de preços entre 5% e 8% nos próximos meses. Para ele, o movimento é benéfico para o consumidor, que terá acesso a mais rótulos com custo menor:
" Isso vai criar oportunidade de experimentar um vinho novo e ajudar na rentabilidade das nossas vendas. Já estamos tendo conversas com as importadoras para ampliar vinhos da Itália, França e Espanha " diz Martins, que vende 12 mil garrafas por mês.
Frederico Falcão, presidente do ViniPortugal, que reúne mais de 500 produtores lusitanos, aposta em alta de até 10% neste ano com a redução tarifária. Ele lembra que, neste momento, com as tarifas maiores nos EUA, diversas empresas estão ampliando os olhares para o Brasil:
" Portugal deve ganhar mais espaço, embora haja uma perspectiva de avanço da Itália, Espanha e França. Neste primeiro momento, os vinhos mais baratos devem ganhar espaço, e os de média gama terão avanço nos próximos anos com a redução no preço. Esperamos um aumento do consumo no Brasil, porque a bebida ficará mais democrática.
José Luis Moreira da Silva, CEO do Esporão, grupo com três vinícolas em Portugal, aposta na alta das vendas de vinhos no Brasil e conta que vai ampliar o portfólio:
" Estamos pensando em produzir espumantes, categoria que ainda não vendemos no Brasil, além de vinhos com menor teor alcoólico. Nosso crescimento de vendas será claramente maior no Brasil. O país é o nosso segundo maior mercado, atrás de Portugal.
Fernando Zamboni, CEO da Winelands, lembra que os europeus são conhecidos por serem "muito agressivos na política de preços".
" É praticamente uma obrigação para eles ingressar ou expandir presença no mercado brasileiro.
Para Maria Maddalena Dal Grosso, diretora da Italian Trade Agency-Brasil, o Brasil é hoje uma prioridade global dentro dos planos de promoção do vinho italiano:
" A combinação entre a desoneração tarifária gradual e uma taxa de câmbio favorável atua diretamente na redução dos custos de importação.
Reação dos brasileiros
O avanço dos europeus, no entanto, acendeu o alerta entre as empresas nacionais. Luciano Rebellatto, presidente da Consevitis, que reúne os produtores do Rio Grande do Sul, lembra que o setor vem buscando, junto ao governo, formas de aumentar sua competitividade. Ele ressalta a importância da redução da carga tributária e critica a inclusão do vinho no chamado "imposto do pecado", previsto para entrar em vigor em 2027:
" Estamos trabalhando nessa agenda para explicar que o produto tem uma cadeia importante de empregos no Brasil e que o setor será muito impactado com a redução da tarifa para os produtos europeus.
Larissa Fin, criadora do evento Vinho na Vila e dona da Casa Vitis, lembra que o vilão é o "custo Brasil", pois a carga tributária chega a mais da metade do valor de uma garrafa na prateleira. Ela também defende a criação de contrapartidas que possam desonerar o vinho brasileiro, mas diz que as empresas precisam agir:
" O produtor tem que sair de trás do balcão e ir para a rua. Não dá mais para esperar o cliente achar o vinho na gôndola do supermercado, espremido entre dezenas de importados mais baratos.