Ons estende corte de geração de energia a pequenas usinas
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou ontem, pela primeira vez, um plano ...
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou ontem, pela primeira vez, um plano de gestão de excedentes de energia que alcançou pequenas usinas geradoras conectadas diretamente a distribuidoras, num sinal de desequilíbrio maior que o que vinha sendo registrado pelo órgão. O ONS determinou que 12 distribuidoras no país reduzissem a geração em suas áreas de concessão, uma vez que o operador não tem controle direto sobre essas fontes. Esse grupo " que incluiu Coelba (BA) Cemig (MG), CPFL Paulista (SP) e Energisa (MT e MS) " foi priorizado por concentrar cerca de 80% de toda a potência instalada das pequenas geradoras inseridas no plano. Elas tiveram que cortar cerca de 23,5% da geração, informou ontem o ONS.
Foi solicitada a suspensão da geração de 1.000 MW entre 10h e 14h do domingo, horário de maior incidência solar e geração dessa fonte. O corte de geração por excesso de energia, chamado de curtailment no setor, tem sido usado com mais frequência pelo ONS nos últimos dois anos para preservar a segurança do sistema elétrico, mas ontem foi a primeira vez que se estendeu às chamadas unidades geradoras centralizadas, como usinas solares, eólicas e a biomassa de menor porte e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs).
Aviso no sábado
A medida foi comunicada no sábado às distribuidoras e cumprida no domingo por causa da alta produção de energia, principalmente de matriz solar, enquanto o país tinha baixo consumo num fim de semana prolongado de baixas temperaturas, com menos atividades comerciais e ventiladores e aparelhos de ar condicionado desligados nas residências. Esse desencontro entre oferta e demanda de energia dificulta o controle de controle de frequência e de tensão pelo ONS para evitar apagões.
O esforço é para não repetir o que aconteceu em agosto do ano passado, no Dia dos Pais, quando o sistema passou perto de um colapso momentâneo diante do excesso de geração solar nas placas residenciais e de pequenos negócios, que o ONS não tem como controlar. Por isso, quando há risco de desequilíbrio, o órgão determina cortes prioritariamente em usinas solares e eólicas e avança para outras fontes.
Coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da UFRJ, Nivalde de Castro explica que, diariamente, o ONS estima qual deve ser a demanda de energia em todo o país. A partir daí, faz o manejo dos recursos da geração centralizada, que são as grandes usinas sob sua responsabilidade. O fato de o curtailment ter alcançado ontem pequenas geradoras indica agravamento do desequilíbrio, que nem mesmo a paralisação de grandes usinas hidrelétricas conectadas ao sistema interligado nacional (SIN) foi suficiente para equacionar. Foi necessário colocar em prática o Plano Emergencial de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição, aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em 2025, para evitar o colapso do sistema devido à sobreoferta de energia renovável.
" O crescimento da oferta, notadamente de plantas solares, por conta dos subsídios, tem sido muito acima da necessidade de consumo. Se temos um desequilíbrio de muita oferta e pouca demanda, o sistema entra em blecaute, gera um apagão. Assim, em fins de semana em que a demanda cai, o operador obriga as geradoras a cortar a produção nesse período de 10h às 14h, quando há incidência de muito sol e vento " diz Castro.
Para o especialista, a operação inédita de ontem não deve provocar impacto na conta de luz para o consumidor residencial ou de maior porte. As perdas devem ficar com os pequenos geradores que têm contratos de fornecimento via mercado livre de energia e precisam comprar de outro o que não geraram. Esse problema, que até agora estava restrito a parques eólicos e solares, vêm provocando a demanda dos geradores afetados por compensações do governo. Para Castro, muitos desses prejuízos serão cobrados na Justiça.
Jogos da copa preocupam
Em nota, o ONS afirmou que seguirá coordenando ações no sistema e "segue também atento à nova realidade eletroenergética e trabalhando para garantir a segurança e a eficiência do sistema". A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) afirmou que as empresas do setor estavam preparadas para executar o plano, mas cobrou "maior detalhamento" dos critérios usados, sob pena de "trazer insegurança jurídica para todo o setor elétrico". E manifestou preocupação com novas situações de baixo consumo de energia adiante, como os jogos da Copa e feriados. A Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica destacou que a ação emergencial do ONS, "embora necessárias", evidenciam um "gargalo estrutural’ do setor elétrico.