A copa, o tribunal e o drible
"O futebol é a única religião sem ateus", escreveu Eduardo Galeano.
"O futebol é a única religião sem ateus", escreveu Eduardo Galeano.
A Copa do Mundo de 2026 será a maior da história. Disputada em três países, com 48 seleções e milhares de quilômetros de deslocamento, exigirá das equipes muito além de qualidade técnica. Fusos horários, logística, adaptação aos gramados, às diferenças climáticas e à combinação de calor e umidade em algumas sedes passarão a ser fatores tão relevantes quanto a tática.
Em uma Copa com essas características, nem sempre vencerá a seleção favorita. As condições do ambiente frequentemente influenciam tanto quanto a qualidade dos elencos.
Mas essa será apenas uma parte da história.
Como observou Nelson Rodrigues, "no futebol, o maior cego é o que só vê a bola".
O Mundial será realizado em um momento de crescente tensão geopolítica, guerras em andamento e transformações profundas na ordem internacional. Um cenário que ajuda a explicar por que nunca estivemos tão próximos e, paradoxalmente, tão divididos.
As redes sociais transformaram o debate público em um tribunal permanente. Um tribunal que frequentemente elimina o contexto, a proporcionalidade e a possibilidade de redenção. Cada gesto exige posicionamento. Cada erro deixa de ser um equívoco para se transformar em sentença.
A pressão não virá apenas dos adversários. Virá do tribunal das telas, da ansiedade que ele produz.
Quem está preparado para essa exposição sem perder a coragem de arriscar?
Um esporte que depende da liberdade para errar está sendo praticado dentro de uma sociedade cada vez menos tolerante ao erro.
Talvez por isso a figura de Garrincha permaneça tão atual. Em um mundo obcecado por julgamento, Mané parecia incapaz de perceber a própria sentença. O homem que chamava quase todo mundo de João seguia driblando como se as consequências não existissem.
Talvez seja por isso que voltamos sempre.
Não em busca da confirmação do que sabemos.
Mas da possibilidade de ver algo que jamais imaginamos.
Durante algumas semanas, voltaremos a vestir a mesma camisa, cantar o mesmo hino e acreditar que fazemos parte de algo maior do que nós mesmos.
Talvez seja apenas uma trégua.
Porque basta uma entrevista, uma opinião política, uma postagem ou uma derrota para que a lógica das tribos retorne com força total.
Se for para vivermos tudo isso nos próximos quarenta dias, que seja com a irreverência e o inesperado que habitam o drible.