Sábado, 13 de Junio de 2026

Temos que rejeitar o fatalismo sobre efeito da ia no trabalho

BrasilO Globo, Brasil 13 de junio de 2026

Entrevista

Entrevista
Ex-correspondente de guerra da CNN, redator de discursos de Barack Obama durante a presidência do democrata e, hoje, ocupante de um cargo que foi literalmente inventado há dois anos. Para o americano, sob a égide da inteligência artificial, carreiras "que parecem não fazer sentido" como a sua tendem a virar a norma. Essa é uma das teses de "Open to work" (Intrínseca), livro que o executivo acaba de escrever com seu chefe (Ryan Roslansky, CEO do LinkedIn) para "ajudar você a prosperar na era da IA" e desfazer o fatalismo que, segundo eles, a tecnologia desperta nos profissionais. Para os autores " que transbordam um otimismo típico do Vale do Silício ", habilidades essencialmente humanas e entregas serão mais importantes que cargos e diplomas.
O livro diz que, em vez de destruição, o que está em curso é uma transformação profunda do trabalho por causa da IA. Não é uma visão excessivamente otimista?
O mercado de trabalho, antes mesmo da IA, já conectava talento e oportunidade de maneira profundamente falha. Ele se baseia em sinais de pedigree, como o diploma da universidade certa, em vez das habilidades dos profissionais. A IA pode ser a oportunidade para corrigir isso. Quanto mais refletíamos, mais percebíamos que a IA não substituirá empregos inteiros, todos de uma vez. Ela assumirá tarefas dentro dos empregos, em todas as profissões. É uma questão de tarefas, não cargos. O problema é que todos nós nos definimos pelo cargo.
Como resolver isso?
A solução é: deixe o cargo de lado e pense em tarefas. Algumas serão cada vez mais executadas pela IA; outras vão surgir justamente por causa da IA; e há ainda as ligadas a capacidades exclusivamente humanas: pensar criticamente, colaborar e imaginar. Precisávamos definir o que nos torna humanos porque, desde a Revolução Industrial, o trabalho humano foi, em grande medida, semelhante ao das máquinas. Foi assim que chegamos aos cinco "Cs".
O que são?
Curiosidade, compaixão, criatividade, coragem e comunicação. São capacidades únicas dos humanos. A IA pode nos ajudar nelas, mas não nos superar. Por isso, precisamos caminhar para um trabalho mais centrado nessas capacidades. Pode parecer otimista, mas é plausível. O debate sobre IA está extremamente carregado e alimenta medo e fatalismo. A sensação é que tudo é inevitável, mas nunca foi assim em momentos de grande transformação no passado.
Como as empresas vão avaliar profissionais com base em habilidades, e não em diplomas?
Faz mais sentido focar naquilo que a pessoa produz. No LinkedIn, fizemos um programa para profissionais em início de carreira e, em vez de enviar currículos, pedíamos que nos mostrassem algo que haviam construído. Estamos vendo a ascensão do "supercolaborador individual". Você não se torna mais sênior apenas porque gerencia mais pessoas; o que importa é o que você entrega. O produto do seu trabalho passa a ser uma credencial fundamental. E as empresas precisam reconstruir completamente seus fluxos de trabalho em torno da IA e das capacidades humanas.
Como os chefes devem lidar com isso?
Os gestores precisam se tornar algo como treinadores. Muitos gestores cresceram profissionalmente supervisionando tarefas. Mas a IA passará a monitorar tarefas de forma cada vez mais eficiente. O papel do gestor será muito mais parecido com o de um técnico esportivo: inspirar uma visão, motivar pessoas a atravessar períodos de desconforto e enfrentar desafios. Esse é um conjunto de habilidades completamente diferente daquele que ensinamos aos gestores durante décadas.
Empresas ao redor do mundo já estão se adaptando a essa nova realidade?
O Brasil está liderando esse movimento.
Sério? Por quê?
Sim. Nossos dados mostram que 83% dos brasileiros que entrevistamos acreditam que a IA pode melhorar sua rotina de trabalho. É o índice mais alto entre todos os países pesquisados. Quando analisamos as profissões que mais crescem no Brasil, engenheiro de IA aparece em primeiro lugar, o que faz sentido. Mas também vemos um crescimento muito forte de fundadores, criadores e empreendedores. O número de membros que se identificam como fundadores aumentou cerca de 65% em relação ao ano anterior. E 45% dos brasileiros afirmaram que gostariam de trabalhar por conta própria. Há uma enorme energia empreendedora no Brasil em torno das possibilidades da IA. Ninguém começa com vantagens ou desvantagens absolutas. Tudo depende da mentalidade. Isso é muito presente na cultura brasileira.
Qual o efeito disso sobre a desigualdade?
Ainda não sabemos exatamente para onde tudo isso está caminhando. Por isso precisamos abandonar qualquer tipo de fatalismo. Precisamos ser simultaneamente pró-humanos e pró-IA. E ser pró-humano não é simples. Porque o trabalho, historicamente, não foi estruturado em torno dos seres humanos. Passamos gerações em um sistema que valorizava as capacidades das tecnologias, enquanto os humanos atuavam quase como apoio. Ser pró-humano significa ainda garantir que a adoção dessas ferramentas aconteça de forma ampla. Em muitos aspectos, é a tecnologia mais fácil de usar que já criamos e também a mais democratizante. Por isso ela precisa chegar a todos. E os governos precisam ajudar os trabalhadores a se adaptarem agora.
Aneesh Raman, diretor de oportunidades econômicas do LinkedIn
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