A seleção preferida dos motoristas de aplicativo em la
Quando entrei no carro e me dei conta de que o trânsito de Los Angeles roubaria 35 minutos do meu ...
Quando entrei no carro e me dei conta de que o trânsito de Los Angeles roubaria 35 minutos do meu tempo, entendi que era a hora de enfrentar as mensagens acumuladas no WhatsApp. A uma delas, enviada por um amigo, respondi com um breve áudio. Logo que terminei a gravação, o motorista armênio se manifestou.
" Eu conheço essa palavra que você disse: c… " divertiu-se Tovma ao identificar, é claro, um palavrão.
Foi a senha não apenas para que ele decifrasse a minha nacionalidade, mas também iniciasse um papo sobre a seleção brasileira e a Copa do Mundo " ninguém está mais por dentro dela na Califórnia do que os motoristas de aplicativo, quase todos imigrantes de países do sul global.
Tovma, então, aproveitou uma parada no sinal vermelho, sacou o celular e me mostrou, orgulhoso, vídeos de uma passagem de Ronaldinho Gaúcho pela Armênia no fim do mês passado. O Bruxo é um de seus jogadores preferidos. Perde apenas para o outro Ronaldo, o Fenômeno. Eles e mais craques da década de 1990 e dos primeiros anos do século XXI, como Rivaldo e Kaká, povoaram o imaginário de Tovma de tal forma que, na falta de uma seleção competitiva em casa, ele adotou a brasileira como segunda torcida.
Mas, por mais divertido que fosse o falante armênio, a interação com ele passou longe do ineditismo. Três dias em Los Angeles bastaram para perceber que a seleção brasileira, esta que há anos vive aos trancos e barrancos, conserva a admiração de torcedores de múltiplas bandeiras.
É o caso de Ali. Embora tenha iniciado a corrida que me levaria do aeroporto para o hotel esbravejando sobre as condições de trabalho dos motoristas de aplicativo em L.A., o libanês logo mudou de humor ao identificar que seu passageiro era brasileiro. Mesmo visivelmente mais velho que Tovma, citou os mesmos jogadores para ilustrar sua admiração pelo futebol pentacampeão.
Mas fez questão de deixar claro que sua simpatia pelo Brasil vai muito além do esporte. Com propriedade, mencionou a enorme população libanesa em São Paulo e orgulhou-se da culinária oferecida por ela:
" Tem mais gente do Líbano lá com vocês do que no meu país.
Ninguém, porém, demonstrou tamanha expertise em futebol brasileiro como iraniano Amir. Suas referências remontam a um passado ainda mais distante da seleção, de Sócrates a Zico, passando por Rivellino e, claro, Pelé.
" É o melhor de todos " sentenciou enquanto fazia o número 1 com o dedo.
Pouco confortável para se expressar em inglês, Amir fez questão de ligar para o filho e pediu a ele que me explicasse por que sabe e gosta tanto da seleção. Amir nasceu em Abadan, cidade perto da fronteira com o Iraque que, desde os anos 1970, nutre uma adoração pela cultura brasileira. O motorista jura que, por lá, é mais fácil encontrar bandeiras em verde e amarelo que as do próprio Irã. O time da cidade, o Sanat Naft, aliás, usa uniformes com as cores da seleção por conta do fascínio provocado pelo time campeão do mundo no México, há 56 anos.
Amir e o filho têm ingressos comprados para assistir à segunda partida do Irã na fase de grupos, contra a Bélgica, no Estádio de Los Angeles, no dia 21. Pagaram, conta ele, cerca de 50 dólares por um lugar distante da beira do gramado. Ainda assim, podem se sentir privilegiados. A esmagadora maioria dos motoristas de aplicativo passará longe das arenas da Copa do Mundo e de seus preços astronômicos, como o armênio Tovma:
" Verei os jogos pela TV. Ou não. Tenho que trabalhar. É a hora de trabalhar.