Lunes, 15 de Junio de 2026

Camisas mostram como mundo e futebol mudaram

BrasilO Globo, Brasil 15 de junio de 2026

A Copa do Mundo voltou aos Estados Unidos 32 anos depois. Mais do que uma coincidência geográfica, ...

A Copa do Mundo voltou aos Estados Unidos 32 anos depois. Mais do que uma coincidência geográfica, isso cria uma oportunidade rara de observação: comparar duas Copas disputadas praticamente no mesmo cenário cultural, mas em universos tecnológicos, econômicos e estéticos completamente diferentes.
O GLOBO analisou, com ajuda de especialistas, os uniformes titulares das 15 seleções que disputaram a Copa de 1994 e também estão em campo em 2026. O levantamento cruzou dados cromáticos, contraste, saturação, densidade visual, presença de diagonais, área ocupada por grafismos, diversidade de cores, influência retrô, nacionalismo visual e aproximação com moda e streetwear. O resultado ajuda a explicar não apenas como as camisas mudaram, mas como mudou o próprio futebol.
A hipótese inicial parecia simples. Em 1994, o futebol ainda vivia uma era de exagero visual: diagonais gigantes, estampas espalhadas por toda a camisa, contrastes agressivos, golas enormes, grafismos sem medo do ridículo. Em 2026, supostamente encontraríamos um futebol mais minimalista, mais clean, mais globalizado e mais homogêneo. Mas os números contam uma história mais interessante.
As camisas atuais não abandonaram o excesso dos anos 90. Elas aprenderam a organizá-lo.
choque x monocromia
Os dados mostram, por exemplo, que a saturação média das camisas de 2026 é até maior do que a das camisas de 1994 (78% x 63%). Em outras palavras: as cores continuam fortes. O que caiu foi o contraste. As camisas contemporâneas usam menos choque visual, menos oposição brusca entre tons, menos informação competindo simultaneamente. A sensação de exagero continua presente, mas distribuída de maneira muito mais controlada.
Isso aparece de maneira quase didática quando se olha para algumas das seleções analisadas.
A Bélgica de 1994 talvez seja a camisa mais honestamente enlouquecida entre as 15. O uniforme misturava vermelho, amarelo, preto, branco, grafismos geométricos e diagonais agressivas em uma estética que hoje parece saída de uma rave europeia perdida entre o fim da Guerra Fria e o início da MTV. A camisa atual continua sofisticada visualmente, mas o choque virou monocromia.
A Holanda oferece outro contraste importante. A camisa da marca Lotto de 1994 usava um laranja quase fluorescente, com leões gigantes espalhados pela camisa e um desenho que precisava ser entendido instantaneamente mesmo numa televisão de tubo mal regulada. A versão atual da Nike praticamente elimina o grafismo visível à distância. Isso não significa que o desenho desapareceu. Significa só que ele mudou de escala.
As camisas de 1994 trabalhavam com macroformas. As de 2026 trabalham com microtexturas.
Para o designer estratégico Claudio Werneck, professor da PUC-Rio e sócio da consultoria Intrepda, uma parte dessa transformação passa pela própria modelagem dos uniformes. Segundo ele, as camisas dos anos 90 eram mais largas e ofereciam mais espaço para intervenções gráficas.
" As camisas tinham mais área física para apresentar alguma coisa. Isso muda muito a abordagem de como você faz a camisa. Depois, as modelagens começaram a ficar mais ajustadas ao corpo dos atletas, e isso faz muita diferença para o que você consegue colocar visualmente na camisa " afirma.
não é só detalhe
A transformação também acompanha mudanças tecnológicas. Em 1994, os uniformes precisavam funcionar em transmissões de baixa definição, planos abertos e televisores com qualidade limitada. Tudo precisava ser entendido rapidamente. Em 2026, a lógica é outra. As camisas são pensadas para close, câmera lenta, redes sociais, videogame, fotografia digital e comércio eletrônico. O detalhe não desapareceu, apenas deixou de gritar.
Isso ajuda a explicar por que várias tendências dos anos 90 desapareceram ou diminuíram drasticamente. O levantamento mostra uma queda acentuada no uso de diagonais gigantes. Noruega, Suécia, Alemanha e Espanha usavam em 1994 composições que pareciam tentar cortar a camisa ao meio. Em 2026, as diagonais sobrevivem de forma muito mais discreta.
O Brasil talvez seja o melhor exemplo dessa transformação. A camisa do tetra parecia exuberante. O amarelo era mais vivo, o verde aparecia com mais força, a textura era evidente e a gola participava ativamente do desenho. Havia um certo excesso tropical no uniforme. A versão atual é mais limpa, mais atlética, mais globalizada e mais elegante. Mas também menos calorosa visualmente.
Mas provavelmente nenhum país explique melhor a lógica contemporânea do que o México. A camisa de 1994 parecia ocupada por um mural asteca inteiro. Não havia medo de repetição, de excesso ou de poluição gráfica. A Adidas de 2026 faz algo muito diferente, que parece igual: mantém a mesma referência cultural, mas organiza tudo de forma monumental e limpa. O símbolo permanece ali, só que tratado como design premium: moderno e retrô ao mesmo tempo.
As camisas da Copa de 2026 não rejeitaram os anos 90. Transformaram os anos 90 em patrimônio cultural.
Há outra transformação importante: a camisa deixou de ser apenas uniforme. A mudança acompanha a transformação do próprio mercado esportivo. Em 1994, ela era sobretudo um produto de jogo. Hoje também funciona como peça casual, item de coleção, objeto retrô, produto hype, símbolo de lifestyle e elemento de moda. Isso altera completamente a maneira como ela é desenhada. A influência do streetwear aparece em quase todas as seleções atuais analisadas. Marrocos, Bélgica e México são os casos mais evidentes.
Nada disso significa que as camisas novas ou antigas eram piores ou melhores. Mas as de 1994 por certo são mais espontâneas. Os anos 90 ainda acreditavam numa ideia de futuro visual: cores fortes, geometria agressiva, estética tecnológica, excesso gráfico e confiança quase infantil de que tudo precisava parecer moderno.
As camisas atuais parecem mais "conscientes". Mais sofisticadas. Mais inteligentes. E talvez também mais nostálgicas.
No fundo, a grande conclusão do levantamento é que as camisas contam uma história maior do que elas próprias. Em 1994, o futebol ainda era pensado para a experiência coletiva. Em 2026, ele já nasce fragmentado entre redes sociais, videogame, close em 4K, moda de rua e streaming.
As camisas dos anos 90 queriam inventar o futuro.
As de 2026 parecem olhar para aquele futuro imaginado com nostalgia.
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