Martes, 16 de Junio de 2026

Obra no aterro do flamengo é embargada pelo iphan

BrasilO Globo, Brasil 16 de junio de 2026

O avanço de uma obra no canteiro central do Aterro do Flamengo, entre o parque e a Enseada de ...

O avanço de uma obra no canteiro central do Aterro do Flamengo, entre o parque e a Enseada de Botafogo, chama a atenção de quem passa pelo local. Moradores da região se preocupam com a integridade de uma das paisagens mais bonitas da cidade " já alterada parcialmente pela instalação de um imenso tapume pintado de verde.
O espaço onde funcionou um posto de gasolina vai ser ocupado por uma empresa chinesa de carros elétricos, que pretende montar ali pontos de recarga de bateria e, até ontem, um showroom para comercialização de seus modelos. A intervenção gerou protestos de moradores e, na tarde de ontem, foi embargada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Por nota, a prefeitura informou que as secretarias "de Urbanismo e de Meio Ambiente estiveram no local para realizar uma fiscalização e solicitaram a apresentação das licenças referentes à intervenção no prazo de cinco dias. Até que a documentação seja apresentada e analisada, os trabalhos permanecerão paralisados."
A prefeitura informa ainda que "no local funcionará somente o eletroposto com as dependências necessárias para o seu funcionamento", resultado de uma licitação pública realizada em 2024. O município também diz que a nova estrutura será implantada exatamente na área onde funcionou o antigo posto de gasolina e que não há previsão de supressão de vegetação.
O Iphan explica que o trecho onde está sendo realizada a obra não é tombado em nível federal. Porém, faz parte do entorno de uma área protegida. Por conta disso, segundo a lei, a realização de qualquer intervenção depende de autorização do órgão, que aguarda o recebimento do projeto para análise técnica.
A obra ocupa o canteiro que divide as pistas das avenidas Infante Dom Henrique e Rui Barbosa. Um despacho da Secretaria municipal de Desenvolvimento Urbano, de 14 de maio do ano passado, indicava que a área, objeto de Termo de Concessão de Uso, tem 2,6 mil metros quadrados.
" É um absurdo. Estão ocupando o espaço que era do posto e expandindo. É uma área de grande importância cultural e histórica, cujo uso deveria continuar sendo público e não privado. Na verdade, não deveriam construir nada ali " reclama a moradora Sula Danowski, que defende o uso comum do espaço.
Vizinhos contam que, nos últimos dias, a obra não parou nem no fim de semana. No domingo, segundo um morador, havia movimentação de operários até as 23h. Na manhã de ontem, um grande número de pessoas trabalhava no local, onde se encontrava uma retroescavadeira.
" Não é lugar para isso. Vai trazer poluição visual, desconforto e transtorno. Só vai degradar o espaço. Tenho medo também do que pode acontecer com as árvores " afirma o contador e estudante de arquitetura Célio Luiz Tavares de Carvalho Abel, de 45 anos, que mora há cinco anos no nono andar de um prédio diante da obra.
‘um mastodonte’
Outro vizinho preocupado, o editor e curador Leonel Kaz lembra que o espelho d’água da Enseada de Botafogo foi tombado pela prefeitura justamente para proteção de sua visibilidade e beleza, além de todo o parque ser considerado Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco.
" Já vi muitos absurdos na cidade do Rio de Janeiro. Mas, aos 75 anos de idade e depois de 50 de luta, jamais poderia imaginar que em pleno Aterro do Flamengo, triplamente tombado, fossem construir um mastodonte desses à revelia da população " protesta Kaz.
Antes da intervenção do poder público, a GWM " marca de veículos elétricos, como as linhas Haval e Ora " confirmava a previsão de um showroom de carros elétricos para o local.
"Nos preocupamos em montar um projeto harmônico, e principalmente nos preocupando ao máximo com a preservação do meio ambiente, bem como uma estrutura arquitetônica de acordo com o padrão local", diz nota assinada pelo diretor comercial da empresa, Marcelo Andrade, que afirma ter acionado o jurídico da GWM para comprovar a existência de todos os documentos para dar continuidade ao empreendimento.
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