O jornalismo e suas variações
Personagem da semana
Personagem da semana
A imagem veio de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo. Centenas de crianças e jovens acompanhavam o jogo num telão comunitário. A tensão era daquelas sólidas. Todos vestidos no azul quase caribenho da seleção que jogava contra Portugal. De repente, dois meninos observam algo no celular e se levantam quase se abraçando. Eles tinham visto o alerta de gol num aplicativo. Euforicamente contidos, eles não sabem se celebram, se pulam. A TV mostra o gol, a malta explode e eles vão junto.
A cena resumiu um pouco essa Copa de muitos tempos e ecos. Uma Copa consumida em ambientes variados e que repercute de forma ao mesmo tempo intensa e fragmentada. O primeiro gol de Curaçao foi celebrado como um épico num jogo em que o time perdeu de sete. Torcemos daqui por nanicos e zebras " em especial pelas zebras improváveis. E a melhor das zebras debutantes foi justo aquela que não fez gol: Cabo Verde.
Não fez e não tomou. Cabo Verde segurou o 0 a 0 contra a poderosa Espanha. O resultado transformou o goleiro Vozinha em herói nacional. Aos 40 anos, ele talvez não dispute outra partida com tamanho impacto. E isso nos traz ao personagem da semana: o jornalismo e suas variações.
O repórter Raphel Bózeo embarcou para Cabo Verde apostando em cobrir a estreia do país em Copas. Virou celebridade. Entrevistou o presidente do país, acompanhou o empate histórico nas ruas. Gravou boa parte das imagens que circularam pela TV Globo e pelas redes, como a dos meninos dançando nas ruas da capital Cidade da Praia.
Bózeo viajou com um celular na mão e uma ideia na cabeça: levar um olhar brasileiro para contar a história de outro país que fala português. Não imaginava tamanha sorte. Jornalismo é contar história dos outros. O que nos leva ao outro lado da moeda.
Uma transmissão esportiva é jornalismo ou entretenimento? A história de Espanha 0 x 0 Cabo Verde foi contada com emoção e competência pela CazéTV " que transmitiu o jogo para o Brasil com exclusividade. Durante a partida, o canal começou um mutirão para aumentar o número de seguidores de Vozinha no Instagram. Deu certo. Pulou de 50 mil para 1 milhão.
A Cazé já tinha feito campanhas para ampliar a base de atletas na Olimpíada de Paris " uma ação que pega bem em várias direções. Mas essa "criação de valor" é mais importante do que a história original?
Depois do jogo, a euforia pela zebra se misturou com a euforia pelo mutirão. Era como se a Cazé celebrasse mais sua capacidade de bombar Vozinha do que a atuação histórica. Na entrevista, a competente Bárbara Coelho recebeu a missão de informar Vozinha sobre a explosão de seguidores. E aí vimos alguma desconexão " o goleiro obviamente ficou feliz e surpreso, mas pareceu menos empolgado que o canal.
O sujeito tinha acabado de fazer a maior partida de sua vida. O Instagram não era seu foco. Claro que virar celebridade agrega. Mas eu, como espectador, senti falta da história mais importante. Queria ouvi-lo sobre o jogo, sobre as defesas, sobre cada lance. E não vê-lo recebendo camisa da Cazé.
Entendo que o canal fique feliz de ajudar Vozinha e queira valorizar seu poder mobilizador. Mas é possível fazer as duas coisas. Amplificar o personagem sem disputar protagonismo com ele. Equilibrar informação e entretenimento não é simples " mas é necessário. A Cazé TV é jovem " e talvez não se importe tanto com a primeira parte dessa equação. Ainda.
O tempo talvez mostre que ignorar a dimensão jornalística não é recomendável. Já dizia Ben, o tio do Homem-Aranha: grandes poderes trazem grandes responsabilidades.