Viernes, 26 de Junio de 2026

Os segredos da festa de são joão

BrasilO Globo, Brasil 26 de junio de 2026

thiago gomide

thiago gomide
Vamos fazer um acordo: vá a uma festa junina observando os detalhes. Enquanto se engalfinha com um salsichão, perceba as bandeirinhas. Elas surgiram a partir de um antigo ritual religioso conhecido como "lavagem dos santos". Durante as celebrações de junho, imagens de Santo Antônio, São João e São Pedro eram representadas em grandes estandartes coloridos, levados em procissão até rios e outras fontes de água. O costume tinha um significado simbólico. A água era abençoada e purificada para os banhos dos fiéis, numa referência direta ao batismo cristão. Em algumas cidades brasileiras, versões desse ritual ainda são preservadas. Com o passar do tempo, os antigos estandartes foram sendo reduzidos e adaptados, dando origem às pequenas bandeirinhas que conhecemos.
Pule a fogueira. Muito antes de iluminar as festas juninas, ela já ocupava um papel central em diferentes culturas. Na Antiguidade, era usada em rituais religiosos, associada ao culto de divindades, à proteção contra maus espíritos, à fertilidade das colheitas e ao afastamento de animais. Também garantia algo mais simples e essencial: calor. Nas celebrações de São João, ela ganhou um significado cristão. Segundo a tradição, quando João Batista veio ao mundo, sua mãe, Santa Isabel, acendeu uma fogueira para avisar parentes e amigos sobre o nascimento. Entre eles estava Maria, mãe de Jesus e prima de Isabel, que teria visto o sinal e ido ao encontro da família. Pular as chamas, por consequência, seria uma forma de atrair sorte, enfrentar desafios e afastar os males.
Poucas palavras estão tão associadas às festas juninas quanto "forró". Durante muito tempo, ganhou força a versão de que a palavra teria surgido da expressão inglesa "for all" ("para todos"), usada por estrangeiros que frequentavam festas populares no Nordeste. A história é conhecida, mas não encontra respaldo entre a maioria dos estudiosos da língua e da cultura brasileira. A explicação mais aceita aponta outra origem: "forró" seria uma simplificação de "forrobodó", termo já bastante utilizado no final do século XIX e início do século XX para designar festas populares animadas, geralmente marcadas por música, dança e grande participação popular. A palavra aparece, por exemplo, no título da opereta "Forrobodó", sucesso da compositora Chiquinha Gonzaga lançado na década de 1910. Na época, o termo podia ser usado tanto de forma carinhosa quanto preconceituosa para se referir a bailes frequentados pelas camadas populares. É um assunto em debate, mas é impossível ficar parado quando escutamos o som da zabumba, do triângulo e da sanfona.
Impossível não lembrar de Luiz Gonzaga
Antes de se tornar o Rei do Baião, Luiz Gonzaga passou por uma fase de incertezas aqui no Rio de Janeiro. Após servir ao Exército por quase uma década, decidiu apostar em uma antiga paixão de família: a música. Um amigo o ajudou a conseguir apresentações em bares, boates e cabarés da cidade. Para agradar ao público, especialmente turistas e frequentadores da noite carioca, tocava repertórios variados, distantes das canções que ouvira na infância, no sertão pernambucano. Ao mesmo tempo, tentava ganhar espaço nos populares programas de calouros do rádio. As apresentações, porém, nem sempre rendiam elogios. Em algumas ocasiões, foi derrotado e recebeu críticas duras dos jurados.
A mudança de rumo veio durante uma apresentação no Rio. Segundo relatos do próprio Gonzaga, um grupo de estudantes nordestinos questionou por que ele não tocava as músicas de sua terra. O comentário o fez repensar a carreira. Naquela noite, apresentou xotes, baiões e canções sertanejas que conhecia desde menino. A reação do público foi imediata. O fim da história nós conhecemos bem.
E quem foi São João?
João Batista, personagem central do cristianismo, ficou conhecido por batizar Jesus Cristo, desafiar autoridades e acabar executado por suas convicções. Segundo a tradição cristã, recebeu o título de Batista porque realizava batismos nas águas do Rio Jordão. Foi ele quem batizou Jesus e inúmeros outros seguidores, pregando arrependimento e renovação espiritual. Sua vida foi marcada pela simplicidade. Os Evangelhos relatam que viveu no deserto, dedicando-se à pregação e alimentando-se de gafanhotos e mel silvestre.
A popularidade de João Batista cresceu rapidamente, mas suas críticas aos governantes da época lhe renderam inimigos poderosos. Ele condenou publicamente atitudes do rei Herodes Antipas, o que levou à sua prisão. O desfecho da história é um dos episódios mais conhecidos da tradição cristã. Após um pedido feito por Salomé, filha de Herodíades, mulher ligada a Herodes, João Batista foi condenado à decapitação. A tradição cristã situa sua morte por volta do ano 31 d.C.
Diferentemente da maioria dos santos, que costumam ser lembrados na data de sua morte, São João é celebrado em 24 de junho, data tradicionalmente associada ao seu nascimento. É essa comemoração que deu origem às festas juninas.
Por fim
Escrevo esta coluna distante do Brasil, exatamente na época do ano que mais amo. Estou há duas horas ouvindo, sem parar, as notas de Luiz Gonzaga. Viva a nossa festa. Viva São João.
La Nación Argentina O Globo Brasil El Mercurio Chile
El Tiempo Colombia La Nación Costa Rica La Prensa Gráfica El Salvador
El Universal México El Comercio Perú El Nuevo Dia Puerto Rico
Listin Diario República
Dominicana
El País Uruguay El Nacional Venezuela