‘O sorvete é a salada dos snacks’
Entrevista
Entrevista
Apesar do clima tropical, o brasileiro consome pouco sorvete. A média anual é de três litros por habitante, bem abaixo dos 16 dos EUA. Esse é um dos dados que Teo Figueiredo cita para defender que é possível vender mais sorvete no Brasil, fazendo dele não só a sobremesa do almoço de domingo, mas um snack do dia a dia. CEO da operação brasileira da companhia criada a partir da cisão do negócio de sorvetes da Unilever, batizada de The Magnum Ice Cream Company, o executivo diz ao GLOBO que o país é um dos mercados prioritários para o crescimento do novo negócio.
Além dos picolés recheados Magnum, a empresa tem marcas como Kibon, Ben & Jerry’s e Cornetto, e investe para expandir seu portfólio e sua distribuição no país. O plano, diz, é popularizar essa categoria de alimentos industrializados em meio a desafios como pressão inflacionária, novos hábitos alimentares e a concorrência das gelaterias premium.
O que mudou na operação desde a saída da Unilever, em 2025?
A empresa já nasce faturando € 7,9 bilhões (R$ 46 bilhões) no ano, como a maior de sorvetes do mundo. Não somos mais uma dentre várias categorias de produtos (na Unilever). Na hora de investir, disputávamos com outras na empresa. Todo o investimento agora é em sorvete. Em 2025, ainda nem tínhamos completado a separação, fizemos o maior investimento em freezers (para pontos de venda) dos últimos dez anos, com 17 mil unidades. Historicamente, comprávamos uma fração disso. Muda muito o jogo. Preciso estar presente para que a pessoa se lembre de comprar.
Qual é a importância do Brasil para a companhia?
É uma das nossas grandes oportunidades de crescimento, globalmente. Somos um país populoso, temos uma economia forte e ainda consumimos pouco sorvete versus a média global. Só 50% da população brasileira tomam sorvete uma vez ao ano, e o consumo per capita é muito baixo, de cerca de 3 litros por ano, enquanto são 16 nos EUA. Por isso, o Brasil é uma das grandes avenidas de crescimento.
Como ampliar esse mercado?
São dois caminhos. Um é disponibilidade física, com mais pontos de venda e portfólio maior. Trabalhamos hoje no Brasil com 53 itens, enquanto nos EUA são 350. Precisamos de um cardápio mais completo, que atenda mais perfis de preço. Outro é a disponibilidade mental. No Brasil, as pessoas ainda não escolhem o sorvete como um snack. É visto como uma sobremesa de domingo à tarde ou que você escolhe por acaso ao ver a geladeira na padaria ou no mercado. Precisamos desenvolver esse hábito no brasileiro. Até quando pensamos sob a uma lógica de eficiência calórica, muito em alta hoje, um Frutare (picolé de fruta da Kibon) tem 54 calorias. Comparado com qualquer outro snack, é bem mais baixo.
O que estão prevendo especificamente para o Brasil?
Tínhamos média de quatro a cinco lançamentos por ano, e, nos últimos dois anos, foram mais de dez. Olhamos muito o que é mais relevante culturalmente. Por isso, relançamos recentemente o Guaraná no Palito, com o Guaraná Antarctica, um refrigerante brasileiro, que tem o mote "é coisa nossa" e ativação muito forte durante a Copa. É uma forma de nos conectarmos com as pessoas e não forçar que a conversa fique só no sorvete, não fica natural. É um caminho importante para gerar relevância e aumentar o consumo.
Há no país novas sorveterias, mais sofisticadas, indicando que o paladar do brasileiro mudou. Como essa nova concorrência afeta o negócio?
Nosso maior desafio continua sendo fazer crescer essa torta. É lógico que observamos os movimentos, mas mais importante é a oportunidade de o mercado se desenvolver. Temos 11 mil fabricantes no país, todos pulverizados. São poucos os nacionais como nós. Quero mais gente falando de sorvete porque tenho mais chance de vender e de o sorvete estar na lembrança das pessoas. Posto isso, vemos um movimento para as duas pontas, tanto para o sorvete mais premium quanto para um mais barato. Temos oportunidade de trabalhar em ambas. Sabemos fazer sorvete mais complexo e mais simples, à base de água, e conseguimos ter preço de desembolso mais baixo. Navegamos tanto em preço quanto em qualidade.
O sorvete industrializado era visto como acessível. Hoje, um picolé Magnum tem quase o mesmo preço de marcas ‘premium’. Sorvete deixou de ser uma indulgência barata?
O sorvete ficou mais caro, não dá para ir contra os fatos. É algo que olhamos com muito cuidado porque pode limitar o acesso à categoria. É o ovo e a galinha: tomamos pouco sorvete porque é caro ou é caro porque tomamos pouco? A ampliação do nosso portfólio de bombons vai um pouco nessa linha, porque é um produto compartilhável. Reduzimos o preço, por exemplo, do Frutili para atingir um público que não estava comprando.
Como a preocupação crescente dos consumidores com saúde e alimentação impacta o setor?
A quantidade de calorias de um sorvete é menor que a mesma quantidade de chocolate. Como costumamos dizer, o sorvete é a salada dos snacks. Ainda mais os de frutas. Em mercados como o americano, onde o movimento de canetas emagrecedoras está mais penetrado, vemos a tendência de produtos premium em porções menores. Há espaço para trazermos isso para o Brasil, é um caminho. Estamos avaliando esse território de saudabilidade, e é uma das prioridades de evolução do nosso portfólio.
Com mais usuários de canetas emagrecedoras, há espaço para o mercado de sorvete crescer?
As pessoas vão continuar buscando indulgência. É natural do ser humano. O ponto é de que tipo. Como entregamos isso de forma mais saudável? Consumidores preocupados com saudabilidade gastam mais com alimentação, é um fato. Basta olharmos a quantidade de iogurtes proteicos que estão por aí e os preços deles. As pessoas buscam soluções mais premium quando vão para esse território, ficam mais dispostas a pagar mais. O sorvete já é essa solução.
Teo Figueiredo / CEO da Magnum Ice Cream