Sem estrondo, eua preparam decolagem de voos supersônicos
A Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) propôs nesta semana a primeira ...
A Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) propôs nesta semana a primeira regra que pode acabar com a proibição de 53 anos sobre voos supersônicos no espaço aéreo americano. A medida troca o critério atual, baseado na velocidade da aeronave, por um parâmetro de ruído. Qualquer avião poderá romper a barreira do som sobre o território americano desde que o estrondo sônico não ultrapasse o equivalente ao barulho de um trovão distante sobre a superfície.
A proposta foi anunciada pelo secretário de Transportes dos EUA, Sean Duffy, e assinada pelo administrador da FAA, Bryan Bedford. Segundo o órgão, avanços em engenharia aeroespacial, ciência de materiais e técnicas de voo permitem operar aviões supersônicas sem que o estrondo sônico chegue ao solo, obstáculo que, desde a década de 1970, manteve esse tipo de viagem restrita a rotas sobre o oceano.
A americana Boom Supersonic é a empresa com projeto mais desenvolvido caso o retorno desses aviões seja liberado. Ela já fechou pedidos com American Airlines, United Airlines e Japan Airlines para a aeronave Overture, que deve transportar passageiros a 2.100 km/h sobre a água e a velocidades subsônicas sobre terra, até que a nova regra entre em vigor. A companhia projeta início de operações comerciais a partir de 2029.
Nova regra até 2027
A regra publicada trata apenas do ruído gerado na viagem de cruzeiro. Um segundo texto, com padrões para pouso e decolagem, será proposto pela FAA este ano. A agência definiu como meta concluir as duas regulamentações até meados de 2027. A proibição em vigor remonta a 1973, quando a FAA editou norma vetando o tráfego civil acima de Mach 1 sobre o território continental americano. À época, o estrondo sônico gerado pela quebra da barreira do som, perceptível como uma explosão no solo, provocava reclamações de moradores e, em alguns casos, danos a construções ao longo das rotas de teste.
A restrição nunca impediu o avião comercial mais famoso da história supersônica, o Concorde, de operar comercialmente, já que suas rotas regulares ligavam Nova York a Londres e Paris sobre o Atlântico. Mas o veto americano fechou a porta a qualquer rota doméstica nos EUA, limitando o mercado potencial.
A guinada começou em junho de 2025, quando o governo Trump assinou ordem executiva determinando à FAA que revisasse o banimento. Em paralelo, a Câmara dos Representantes aprovou em março projeto que obriga a agência a permitir voos supersônicos sem estrondo perceptível no solo. O texto aguarda votação no Senado.
O mecanismo que sustenta a mudança regulatória é o Mach cutoff: uma combinação de velocidade, altitude e condições atmosféricas que faz o estrondo sônico se refratar para cima, dissipando-se na atmosfera antes de atingir o solo.
A FAA citou como referência a demonstração de "cruzeiro sem estrondo" feita pela Boom Supersonic, fabricante americana que desenvolve o avião Overture, e pesquisas conduzidas pela Nasa. Em janeiro de 2025, o demonstrador XB-1 da companhia rompeu a barreira do som três vezes sem que o estrondo chegasse ao chão.
" O mundo quer viajar de forma supersônica " afirmou Blake Scholl, fundador e presidente-executivo da Boom Supersonic, ao comemorar o avanço regulatório junto à Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) em fevereiro, quando o órgão fechou novo padrão internacional de ruído para decolagem e pouso de aeronaves supersônicas.
Fantasma do Concorde
Para o diretor de Ciência e Tecnologia da Casa Branca, Michael Kratsios, a flexibilização regulatória tem um componente geopolítico.
" Por muito tempo, regras ultrapassadas seguraram nossos engenheiros e fabricantes " disse Kratsios, ao defender que a medida fortalece a base industrial americana.
Já o administrador da FAA, Bryan Bedford, associou a mudança ao fim do veto histórico:
" Poderemos finalmente revogar a proibição dos anos 1970 sobre o voo supersônico em território americano, minimizando o impacto sonoro a comunidades.
A última operação comercial supersônica regular aconteceu há quase 23 anos, um voo da British Airways entre Nova York e Londres, em 24 de outubro de 2003. O Concorde, projeto conjunto de França e Reino Unido, chegava a Mach 2,04 (2.500 km/h) voando a 18 mil metros de altitude, mas operava com prejuízo crônico.
Entre as razões para a aposentadoria da aeronave estão a baixa capacidade de passageiros, limitada a pouco mais de cem lugares, o alto consumo de querosene agravado pela crise do petróleo dos anos 1970, e os custos elevados de manutenção. O acidente do voo 4590 da Air France, em julho de 2000, costuma ser apontado como o gatilho do fim, mas analistas consideram que ele só acelerou um declínio já desenhado pela equação econômica desfavorável.
A Boom Supersonic tem o projeto mais desenvolvido. Em um primeiro momento, o preço das passagens deve se equiparar às tarifas da classe executiva atual, mas a meta de longo prazo é democratizar o acesso a viagens supersônicas.
" Aviões não são navios de cruzeiro, ninguém embarca em um voo comercial porque adora estar em um avião. Quero que as pessoas possam chegar a qualquer lugar do mundo em cinco horas, por US$ 100 " defendeu Scholl, fundador e CEO da Boom. (Com agências internacionais)