Fgc contrata consultoria para fazer pente-fino nas contas do digimais
O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) contratou a consultoria financeira Kroll para fazer um ...
O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) contratou a consultoria financeira Kroll para fazer um pente-fino nos números do banco Digimais, que faz parte do grupo do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, e está sendo investigado pela Polícia Federal (PF) na Operação Miragem, deflagrada em 23 de junho. A auditoria da Kroll faz parte de um processo para a liberação, ou não, de um empréstimo do FGC que integraria a negociação de compra do Digimais pelo banco BTG Pactual. A análise já está em curso e pode demorar pelo menos dois meses.
A aquisição pelo BTG é considerada uma potencial solução para evitar uma intervenção no Digimais e posterior liquidação pelo Banco Central (BC), devido à deterioração das condições financeiras da instituição controlada por Edir Macedo. A Operação Miragem investiga suspeitas de manipulação de balanços, ocultação da real situação financeira do banco e operações supostamente ilegais.
Em março começaram a circular informações de que o Digimais enfrentava problemas. O BTG Pactual passou a negociar formalmente com a instituição em abril, quando anunciou a assinatura de documentos vinculantes para a aquisição do controle. No anúncio do acordo preliminar, o banco liderado por André Esteves afirmou que a conclusão do negócio dependia do cumprimento de uma série de etapas, incluindo a abertura de um processo para dar a oportunidade de outras empresas entrarem na disputa e uma operação de suporte financeiro ao Digimais pelo FGC.
PERDA ESTIMADA EM R$ 8 BI
O FGC é uma associação privada, formada por bancos, e funciona como uma espécie de seguro para proteger correntistas e investidores de varejo de crises bancárias. Caso um banco quebre, o fundo cobre até R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira. O socorro a um banco só é cogitado se o custo para o FGC for menor do que o processo de liquidação e se for estritamente necessário para manter a estabilidade do sistema financeiro. Uma eventual liquidação do Digimais poderia provocar uma perda estimada de R$ 8 bilhões ao Fundo.
O comando do FGC ainda avalia se vale a pena conceder o crédito para ajudar a resolver a situação do Digimais. É uma prática comum dentro da governança do Fundo para embasar as decisões, mas a entidade tem sido muito mais cautelosa nas análises desde o rombo provocado pela liquidação do grupo Master, que consumiu mais de R$ 52 bilhões.
As liquidações das instituições do grupo Master, que começaram em novembro de 2025, drenaram parte significativa do dinheiro em caixa no FGC, cuja liquidez saiu de R$ 114,1 bilhões no final de 2024 para R$ 66,8 bilhões em janeiro de 2026, segundo números apresentados pelo BC. Com a recomposição feita pelos associados, a liquidez subiu a R$ 111,2 bilhões em março deste ano.
Questionado ontem sobre o Digimais, o FGC disse que não faz comentários sobre os associados.
Também procurado, o BTG Pactual não se manifestou até o fechamento desta edição.
Em nota, o banco de Edir Macedo disse que "reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes".
Segundo a investigação da PF, o Digimais inflou artificialmente em quase dez vezes o valor de cotas de fundos em seu balanço ao longo de 2023, contabilizando ativos que valiam R$ 71 milhões como R$ 741,3 milhões. A Polícia Federal afirmou que a instituição adotou práticas semelhantes às do Master ao inflar ativos sem lastro e manipular balanços para driblar os órgãos de controle.
Apesar do interesse do banco de Esteves, a avaliação é que dificilmente o eventual negócio com o Digimais seguiria nos mesmos moldes de antes da ação da PF.
Logo após a deflagração da Operação Miragem, há duas semanas, o BTG divulgou um comunicado em resposta a uma consulta da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) informando que nenhuma das condições estabelecidas para a conclusão do negócio havia sido verificada até aquele momento. O banco afirmou ainda que, "quando do eventual lançamento de processo competitivo aprovado e acompanhado pelo FGC para alienação da totalidade das ações do Digimais, avaliará, diante das informações disponíveis, a oportunidade de participar no referido processo competitivo."