Argentina desafia o moderno
"A Argentina não joga com tanta intensidade", afirmou Carlo Ancelotti antes do início da Copa do ...
"A Argentina não joga com tanta intensidade", afirmou Carlo Ancelotti antes do início da Copa do Mundo. A declaração do treinador italiano está correta: a atual campeã tem a menor distância percorrida (76,1 km) e é a penúltima em número de sprints (63,2) por partida neste Mundial. Mas o técnico Lionel Scaloni prefere desafiar a lógica do futebol moderno para preservar a identidade argentina em campo.
Com meias e praticamente sem pontas, esse estilo peculiar é a base do segundo melhor ataque (14 gols " oito de Messi) e da liderança em passes certos (611) da competição. É com esse retrospecto que Messi e companhia enfrentam a Suíça hoje, às 22h (de Brasília), em Kansas City, nos EUA, pelas quartas de final.
Se as transições rápidas e a pressão na saída de bola são cada vez mais comuns na Europa, a Argentina tenta vencer essa batalha tática de uma forma diferente: ditando o ritmo do próprio jogo. Para que a estratégia de Scaloni funcione, a sincronia no meio-campo é praticamente inegociável. Não à toa, é justamente nesse setor que a equipe concentra uma fartura de talentos: Enzo Fernández, De Paul, Mac Allister, Paredes, Almada...
" Me parece que o Scaloni olhou para essa geração antes de 2022 e pensou: "vou montar um time assim porque meus melhores jogadores estão no meio-campo". São atletas de muita qualidade para um jogo de posse de bola, associação e controle das ações " afirma Rodrigo Coutinho, comentarista do Grupo Globo. "Desde os anos 80, a Argentina costuma revelar jogadores com essas características, como Riquelme, Gago, Gallardo: um camisa 5 de bom passe, visão de jogo e posicionamento, ao lado de um camisa 10 cerebral e habilidoso.
Quem mais se beneficia desse esquema é justamente Messi, que não precisa recuar para participar da armação das jogadas, o que poderia desgastá-lo fisicamente aos 39 anos. Pelo contrário: o camisa 10 atua da intermediária para a frente, onde usa sua genialidade para se posicionar da melhor forma, encontrar espaços e gerar desequilíbrio na defesa adversária.
Apesar de colher frutos com um estilo de jogo mais cadenciado, a Argentina já convive com o dilema entre intensidade e ritmo. Os últimos jogos, contra Cabo Verde e Egito, evidenciaram que o sistema de Scaloni também tem lacunas a serem corrigidas.
" Dependendo do adversário, é preciso ser mais intenso na defesa e no ataque, com circulação de bola mais rápida e mais movimentos de ruptura, algo que a Argentina não tem tanto quanto outras seleções, como a França. Para compensar, a equipe controla o ritmo da partida. Raramente acelera o jogo ou recorre à ligação direta. A ideia é sair jogando com passes curtos e avançar aos poucos até o campo de ataque " analisa Coutinho.
‘temos nossas estratégias’
Se Messi é "Deus" nesta seleção, Enzo Fernández é uma espécie de curinga na formação em 4-4-2. O meia do Chelsea, da Inglaterra, pode atuar em praticamente todas as posições na faixa central do campo e se destaca pelas infiltrações na área, como no gol de cabeça que garantiu a virada por 3 a 2 sobre o Egito. Já De Paul faz o trabalho "sujo" no corredor direito, além do jogo associativo. Se pode faltar intensidade, a entrega na defesa se reflete nos números: é a segunda seleção com mais desarmes por jogo (20,8).
Consciente do tamanho da montanha que terá que escalar para seguir na Copa, o técnico da Suíça, Murat Yakin, aposta em seu meio-campo e na intensidade para impedir que a Argentina jogue em seu próprio ritmo.
" Certamente existem soluções. Estamos tentando ajustar a equipe e atuar como um coletivo em campo. Precisamos pressionar os jogadores que fazem a bola circular e manter a intensidade contra. Podemos falar muito, mas, no fim, tudo se resolve dentro de campo. Temos nossas estratégias para neutralizar Messi " garantiu Yakin.