Descarbonizar indústria exige ‘cardápio’ variado de ações
TRANSIÇÃO ENERGÉTICA
TRANSIÇÃO ENERGÉTICA
O caminho para a descarbonização da indústria e a busca por fontes energéticas mais sustentáveis exige a combinação de uma diversidade de matérias-primas e processos, além de investimento em tecnologia, dizem representantes dos setores de alumínio, celulose, mineração e outros segmentos intensivos em energia que participaram ontem do evento "Energia e indústria: como descarbonizar sem perder competitividade", promovido pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico.
Os números mostram o tamanho do desafio. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a indústria responde por cerca de um quarto das emissões globais de dióxido de carbono (CO₂) relacionadas à energia. Rodrigo Lauria, diretor de Mudanças Climáticas e Descarbonização da Vale, afirma que é preciso conciliar uma agenda de redução de emissão de gases poluentes com uma estratégia de competitividade, sobretudo num momento em que o carbono passou a ser precificado. Hoje, ele afirma, reduzir as emissões acabou se tornando um "diferencial competitivo".
" Não tem bala de prata. Desde 2020, investimos mais de R$ 9 bilhões em uma sequência de ações coordenadas " disse, durante o primeiro painel do evento, sob o tema "O desafio da indústria intensiva em energia". " Como reduzir a dependência dos combustíveis fósseis? Porque a mineração tem mina, ferrovia e porto, tudo usa diesel. A gente vem trabalhando para aumentar o uso do biodiesel, fazendo testes para desenvolver novas tecnologias para motores híbridos de diesel com etanol.
Ele afirma que adotar alternativas mais sustentáveis beneficia "toda a cadeia de valor", o que tem se tornado uma preocupação da indústria cada vez maior após pressões vindas do exterior, como o mecanismo de ajuste de carbono na fronteira (CBAM, na sigla em inglês), criado pela União Europeia. A medida aplica um preço ao carbono incorporado em produtos importados de setores como aço, alumínio, cimento, fertilizantes e hidrogênio, aproximando seu custo daquele enfrentado pelos produtores europeus.
vantagem
Janaina Donas, presidente-executiva da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), destacou que o setor é considerado de "difícil abatimento" por causa das emissões de carbono. Por outro lado, como parte do impacto se deve ao alto consumo de energia, há uma "vantagem" nas empresas brasileiras por conta da matriz energética do país ser limpa.
" Esse é um dos gargalos na indústria global. Hoje, a etapa mais intensiva é a de eletrólise, que concentra grande parte do consumo de energia. Mas, no caso do Brasil, a gente tem uma vantagem competitiva porque grande parte da intensidade está equacionada por força da nossa matriz energética " apontou.
Alessandra Fajardo, diretora executiva técnica do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), ressaltou que as discussões climáticas têm se voltado para encontrar soluções específicas para cada empresa e setor, em vez de buscar uma alternativa comum para todos os segmentos.
" Muitas vezes, quatro alavancas eram responsáveis por 70% da descarbonização. No caso do agro, quatro alavancas eram responsáveis por 80% " afirmou Alessandra.
No segmento da celulose, o principal desafio é substituir os combustíveis fósseis usados nos fornos de cal, parte essencial no processamento da madeira para transformá-la em papel. De olho nisso, a Klabin tem apostado na "limpeza da matriz" nos últimos anos.
" Um dos exemplos que temos foi trazer para o Brasil a primeira iniciativa de gaseificação da biomassa, para reduzir e substituir o óleo combustível em base fóssil. A gente consegue reduzir em mais de 20 mil toneladas, em uma planta específica, o consumo de óleo combustível " explicou Ricardo Cardoso, diretor-executivo Industrial, Engenharia e Projetos da Klabin, durante o painel "Tecnologia, energia limpa e novos caminhos para a indústria".
Carlos José Bastos Grillo, vice-presidente de Tecnologia da Weg, destacou os esforços da empresa no setor de armazenamento de energia em baterias (BESS, na sigla em inglês), que garante maior resiliência frente a eventuais eventos climáticos extremos ou interrupções nas plantas de energia elétrica e solar ou hidrelétricas. No Brasil, o setor foi aquecido com a expectativa do primeiro leilão de baterias do país, previsto para dezembro pelo Ministério de Minas e Energia.
" A Weg está construindo a maior fábrica de sistema de armazenamento de baterias do país. Hoje, de 100% da energia que o Brasil produz, 40% vêm de fonte hidráulica e os outros são energia solar, eólica ou térmica. O grande problema é que na energia eólica e solar, quem dá as cartas é a natureza. É uma intermitência muito grande. A solução é armazenar " afirmou.
espinha dorsal
Ainda como alternativa para garantir uma transição energética, Marisete Pereira, presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage), aponta o investimento em hidrelétricas reversíveis como alternativa.
" A energia deixou de ser apenas insumo, mas fator estratégico para competitividade e atração de investimentos. O parque hidrelétrico continua sendo a espinha dorsal da nossa matriz elétrica " disse.
Em abril, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou resoluções que dão aval a estudos para implementar hidrelétricas reversíveis no país, que são capazes de armazenar energia excedente bombeando água de um reservatório inferior para um superior.
O projeto Transição Energética é promovido pelo GLOBO e pelo Valor Econômico, com patrocínio da Vale.
* Especial para O GLOBO