Com dívidas de r$ 5,1 bi, oncoclínicas faz pedido de recuperação extrajudicial
A Oncoclínicas fechou acordo para entrar em processo de recuperação extrajudicial. Imersa ...
A Oncoclínicas fechou acordo para entrar em processo de recuperação extrajudicial. Imersa em uma crise financeira e de governança há meses, a rede de tratamento de câncer tenta reestruturar dívidas que somam R$ 5,1 bilhões. A abertura do processo de reestruturação " passo antevisto desde abril, quando o balanço financeiro de 2025 foi divulgado " era esperada para acontecer na semana passada, mas entraves burocráticos adiaram a medida.
O processo foi formalizado na segunda-feira e divulgado ontem. Em fato relevante, a companhia destacou que credores que respondem por 37% das dívidas incluídas aderiram ao plano.
O patamar já é suficiente para a abertura do processo. Nos próximos 90 dias, a empresa terá de alcançar a aprovação de 50% dos credores para que o plano de reestruturação seja homologado pela Justiça.
A recuperação extrajudicial foi a solução adotada "antes que medidas individuais e descoordenadas por parte de credores pudessem agravar a situação econômico-financeira" da companhia, argumentou a Oncoclínicas no processo levado ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), ao qual O GLOBO teve acesso.
Entre as causas para a crise de caixa, a empresa lista "fatores internos e externos", como a expansão acelerada das atividades e a "deterioração do ambiente macroeconômico", como taxas de juros em patamar elevado.
O plano de recuperação, segundo a companhia, poderá envolver ações como a injeção de recursos pelos acionistas, a conversão de parte das dívidas em papéis da empresa, a renegociação de parte dos débitos por novos empréstimos e a ampliação do prazo para pagamento aos credores.
" O que foi proposto, na realidade, não são medidas específicas, mas um plano ainda a ser negociado com os credores e que deverá ser apresentado detalhadamente nos próximos 45 dias " explica Felipe Corrêa, sócio do escritório Basilio Advogados e especialista em Direito Empresarial.
quase 800 credores
O grupo informou que, como parte da reestruturação, rescindiu contratos que previam a abertura de uma clínica em São Paulo e a construção de um hospital em Goiânia.
A recuperação não abrange custos operacionais atuais da rede de clínicas, ou seja, apenas débitos já vencidos com fornecedores de medicamentos e insumos. Valores relativos a médicos, enfermeiros e outros funcionários ficaram de fora. Assim, segundo a empresa, atendimentos aos pacientes continuam normalmente durante o processo.
" A empresa ganha fôlego com a recuperação, que cobre só a dívida financeira, sem a operação do dia a dia. A empresa sinaliza ao mercado que continua funcionando e não quer repetir o que aconteceu em março " ressalta Caroline Sanchez, analista da casa de análise Levante Inside Corp, lembrando quando, no auge da crise, os atendimentos aos pacientes foram suspensos por falta de medicamentos.
A reestruturação inclui quase 800 credores, com créditos relativos principalmente a operações de financiamento via bancos e mercado de capitais, faturas em aberto com fornecedores de medicamentos e valores relativos a fusões e aquisições, um dos caminhos que a empresa seguiu nos últimos anos para crescer.
Aposta em cdb do master
Juntas, a securitizadora Opea, a corretora Pentágono DTVM e a administradora de fundos Oliveira Trust concentram mais de R$ 3 bilhões em créditos. Já entre os fornecedores, a distribuidora de medicamentos OncoProd aparece com o maior volume de créditos a receber, com R$ 1,02 bilhão, enquanto Santander, Itaú e Banco Votorantim se destacam entre as instituições financeiras.
Em meados de junho, terminou o período de 60 dias de proteção contra credores que a companhia conseguiu na Justiça, após divulgar que encerrou 2025 com prejuízo de R$ 3,67 bilhões e dívida fora das condições previstas em contrato com credores. O tolerado era alavancagem de até 3,5 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, imposto, depreciação e amortização). O indicador mostra o quanto a empresa depende de dívida para financiar suas operações: quanto mais elevado, maior o risco financeiro. Na Oncoclínicas, a alavancagem ficou em 4,3 vezes.
Na época, a direção da Oncoclínicas falou em "incerteza quanto à continuidade operacional". Uma das causas citadas para o agravamento do quadro foi a inadimplência da Unimed Ferj, que somou R$ 861 milhões. Segundo a operadora, esse valor já foi negociado. Outro fator apontado foi a liquidação extrajudicial do Banco Master. Isso porque a empresa investiu R$ 478,2 milhões em Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) do banco de Daniel Vorcaro.
" Houve eventos extraordinários, mas também problemas de gestão, decisões ruins, crescimento agressivo muito alavancado e dependência grande de poucas operadoras (de planos de saúde) "diz Caroline, da Levante.
Paralelamente, a empresa lida com outro desafio. Acionistas minoritários pressionam pela realização de uma oferta pública de aquisição (OPA) de R$ 6 bilhões. A empresa promoveu uma reorganização societária no fim de 2024, na qual um fundo da gestora americana Centaurus passou a deter mais de 15% da empresa. Minoritários argumentam que, de acordo com cláusula do estatuto da companhia, ao ultrapassar esse percentual, o acionista seria obrigado a fazer uma oferta para comprar os papéis nas mãos dos demais investidores. A expectativa era de pagamento de valor superior a R$ 16 por papel, patamar distante da cotação atual, de R$ 0,77 na Bolsa.
Como mostrou a coluna Capital, a área técnica da Comissão de Valores Mobiliários (CVM),o regulador do mercado, não endossou o argumento dos minoritários, mas a decisão final cabe ao colegiado.
" Se a CVM entender que a OPA precisa ser feita, isso não interfere na recuperação extrajudicial, mas obviamente há um impacto financeiro, porque a empresa terá que encontrar recursos para pagar os minoritários " analisa o advogado João Basilio.